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O que não nos dizem sobre as epidemias urbanas?

13 de Julho de 2016, 10:04 , por Léo Lopes - 0sem comentários ainda | Ninguém está seguindo este artigo ainda.
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A discussão sobre o que o Estado poderia fazer para evitar os surtos de doenças tropicais no país é antiga e polêmica. Alguns dizem que não adianta fazer nada só no Brasil e que o esforço deve ser mundial, afinal, as doenças não respeitam fronteiras, a exemplo da Zika e Chikungunya que chegaram recentemente de outros países. O mosquito Aedes aegypti, vetor destas doenças, dá um verdadeiro drible nas autoridades políticas brasileiras há mais de trezentos anos. Mas já que estamos sendo intimados a perseguir o mosquito, vamos ver o que estão nos escondendo sobre este pequeno "vilão" da nossa história.

Desde os primeiros surtos de febre amarela em Pernambuco, no ano de 1685, passando pela dengue que começou a bombar na década de 80, até as doenças da moda como zika e chikungunya, a solução apresentada pelo Estado sempre foi a mesma: transferir a responsabilidade do controle da epidemia para a população. O poder público recomenda evitar a água parada, uso de repelentes, inseticidas, roupas que cubram o corpo todo e solicita apoio das forças armadas. Uma guerra contra o mosquito Aedes. Além disso, recomenda que as "mulheres não engravidem" por conta do risco de microcefalia, como se toda a gravidez fosse planejada, como se todos tivessem acesso a uma educação sexual, métodos contraceptivos e pudéssemos debater a interrupção da gravidez. Mas os motivos desta guerra não nos são devidamente apresentados, e a população é usada como aquele tipo de soldado que obedece sem refletir ou questionar a ordem. É que mesmo que façamos o esforço diário na "luta contra o Aedes aegypti", não podemos perder de vista que as atuais epidemias resultam da falta de saneamento básico nas cidades, da precariedade dos serviços de saúde pública e do descaso com o planejamento ambiental urbano. A lista de causas então não se resume à água da sua bacia, garrafa ou pneu. A causa maior está relacionada à ausência de uma política urbana comprometida com a justiça social. Vejamos...

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O tal "esgoto a céu aberto", tão comum em cidades desiguais, possui uma localização muito precisa. Está no bairro precarizado, nas vielas, nos locais de moradia de gente pobre, demonstrando qual a classe sofre com as epidemias urbanas. É bem verdade que o mosquito não faz distinção do seu "público" alvo, mas a sua proliferação acontece, em grande medida, nos locais de maior vulnerabilidade social, abandonados pelos programas, planos e políticas urbanas.

Por exemplo, a EMBASA já chegou a dizer que a propagação de moradia "irregular" não permite uma oferta ampla de serviços essenciais de canalização de água e sistema de esgoto. O tratamento de esgoto, então, pode ser considerado "saneamento dos sonhos". Vemos uma cidade inteira em obras, as terras da cidade estão entregues às empreiteiras, grandes responsáveis pela degradação do ambiente, mas a intenção dos investimentos parece ser 'melhorar o turismo', não a saúde ou a qualidade de vida da população.

Dizem que fatores naturais, principalmente o calor e o regime das chuvas, pode favorecer a reprodução do mosquito, mas esta é uma afirmação perigosa que devemos analisar de forma crítica. O Aedes aegypti, de fato, se reproduz com maior frequência e torna-se mais ativo nestas condições. Mas em seu ambiente florestal natural, a baixa disponibilidade de criadouros, como ocos de árvores, e a presença de outros predadores que se alimentam do mosquito fazem com que suas populações não cresçam da forma assustadora como acontece nas cidades. É mais que conhecido o fato de o desmatamento urbano ser um dos fatores que impulsionam a procriação do Aedes nas cidades. Em Salvador, a redução da Mata Atlântica na Avenida Paralela para a construção de condomínios como o Alphaville - um dos maiores crimes ambientais da história da cidade - impulsionou, na época, um aumento da incidência de dengue nas regiões do entorno, como no Bairro da Paz e na periferia de Itapuã. Mais uma vez, para beneficiar empreendimentos habitacionais com o metro quadrado mais caro da Bahia, foi autorizado o desmatamento da Paralela em detrimento da saúde dos moradores de bairros mais pobres.

Portanto, acreditamos que "criminalizar" a natureza não é o caminho mais adequado para tratar do que é responsabilidade da saúde pública. Não precisamos sofrer com doenças infecto-contagiosas se evitarmos a destruição das florestas, a acentuação de construções de concreto no solo urbano, os projetos deficientes de drenagem de água, a ausência de moradia digna para parte da população, a precaridade da saúde pública e da coleta de lixos. Seria necessário então que o Estado assumisse responsabilidades e prioridades e não pôr toda a culpa sobre nossos ombros. Mas você acha que o Estado vai mesmo assumir isso?

Vejam que tudo tem uma ligação. A especulação imobiliária valoriza partes do solo urbano, tornando tudo caro na região e pressionando os mais pobres a sair de seu local de moradia para áreas mais distantes, sendo estas comumente áreas de risco, ou seja, sem qualquer infraestrutura social. O problema é que a temática "ambiental" é discutida entre planejadores do Estado e empresas de parceria público-privada que tentam "resolver os problemas da população" privatizando o espaço urbano e marginalizando a população pobre para locais sem nenhuma estrutura sanitária. Os interesses políticos e econômicos que mobilizam ou imobilizam ações de infraestrutura urbana são jogados por debaixo do tapete por homens e mulheres que mal pisam no chão dos nossos bairros. A tão chamada “participação popular” da propaganda não passa de um discurso requentado e difícil de engolir.

Não se trata somente de como eliminamos de forma imediata o mosquito. Se essa luta servir para aproximar as nossas relações de vizinhança, fortalecer articulações entre bairros e ações propositivas nas nossas associações, que assim o façamos. Que esse momento seja oportuno para pensarmos também nosso modelo de democracia representativa. A quem ela serve de fato e quais interesses representa? Enquanto ainda são candidatos, fingem conversar e entender nossas demandas. Mas ao serem eleitos e sentarem nas poltronas da burocracia para sugarem nas tetas do Estado, silenciam sobre tudo aquilo que faz da nossa luta diária um verdadeiro pesadelo. Cadê as obras de infraestrutura prometidas? Canalização de esgotos? Coleta do Lixo? Unidade básica de saúde...? Como sabemos, para tirar o corpo da jogada, é a secretaria do governo jogando a batata quente para prefeitura e a prefeitura mandando de volta pra o governo do estado. Bem cabe o ditado popular que nos diz: na briga do mar com as pedras, quem se f@d# é o siri. E bem sabemos quem é o siri nessa jogada, né? Cabe assim, além de uma luta autônoma, a organização e mobilização popular para pressionar e retirar do Estado tudo aquilo que historicamente nos foi roubado e nos é negado.

 

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