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A Escola é Nossa!

22 de Fevereiro de 2018, 13:39 , por anarcksattack - 0sem comentários ainda | Ninguém está seguindo este artigo ainda.
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A Escola é Nossa! 

 

Mais um ataque à liberdade dos quilombos do Recôncavo! Os moradores da comunidade quilombola do Porto da Pedra foram surpreendidos com um comunicado extra-oficial da Prefeitura de Maragogipe de que a Escola Municipal Vereador Justiniano Machado, que atende crianças da pré-escola ao ensino fundamental I na própria comunidade, não funcionará este ano.

 

 

 

                                   Escola

 

Segundo a quilombola Chirlene Pereira, 28 anos, moradora do Porto da Pedra, a escola é antiga e funciona há pelo menos 20 anos. Como ex-aluna da escola, relata o constante processo de sucateamento e precarização do ensino: 

 

“A escola, apesar de receber recurso diferenciado por ser quilombola, passou por diversos problemas que fez com que muitas mães tirassem seus filhos de lá, mas principalmente os mais velhos. Os mais novos continuaram. Principalmente por conta de defasagem do ensino, por não haver transporte da prefeitura na comunidade, que tem uma extensão territorial muito grande e as casas são muito distantes umas das  outras... as mães que moravam mais perto da pista preferiram então botar seus filhos em outras escolas de outras localidades, como em São Roque, Capanema ou na sede de Maragogipe. Mas lá dentro mesmo este ano só ficaram matriculados 10 alunos. Tem um número bem maior, bem maior mesmo. Mas pela falta de qualidade da escola, da defasagem do ensino, muitas mães optaram por tirar os alunos da comunidade”

 

A quilombola Adriele Calheiros, 23 anos, quando questionada pelo Café Preto sobre a importância do funcionamento das escolas dentro dos territórios quilombolas, nos responde sem hesitar:

 

“Manter as crianças no território é essencial para a garantia da identidade cultural da comunidade. Então tirá-las de lá seria um turbilhão de informações desnecessárias para elas neste momento de formação de identidade com o seu território. Temos que mostrar que a opção pela permanência em nossos territórios não é atraso para nós, nem para o governo. Só queremos crescer e viver onde todos os nossos ancestrais viveram e morreram na luta por cada um de nós”

 

Pela falta de qualidade da
escola, da defasagem do
ensino, muitas mães optaram por tirar os alunos da
comunidade

 

Perguntamos também quais seriam as outras dificuldades enfrentadas pelos estudantes caso a escola do Porto da Pedra permaneça fechada e estes tenham que estudar em áreas mais urbanizadas, como Capanema, São Roque ou na sede de Maragogipe

 

“Em tempos de chuva as crianças vão ter que ir caminhando até a pista para o carro não atolar. Tem também um certo preconceito por serem da zona rural, que vão ser chamado de “da roça”. Falo isso porque já passei quando eu tive que sair de minha comunidade pra estudar na cidade e o ensino que não é pra nós quilombolas. É muito
difícil no começo estabelecer relações de amizade e afeto. Eu ia muito ao banheiro para sair da sala de aula. Na cidade, na 8º série, já dava aula de inglês e algumas coisas de física e química. E quando eu cheguei perguntavam logo: lembra do que aconteceu no ano passado? Que a gente estudou tal assunto? E eu nunca tinha entendido. Então eu tive muita dificuldade pra passar em algumas matérias porque a gente nunca teve nada parecido ou que passasse perto daquelas matérias”.

Nesta interação conflituosa entre dois modos de vida distintos, a perspectiva da lida cotidiana com os saberes tradicionais quilombolas buscando acolhimento num ambiente urbano onde impera uma lógica de crescimento a qualquer custo, há um sutil e internalizado sentimento de solidão e deslocamento, muito vivo nas
palavras de Adriele: 

 

“Era muito difícil fazer amizade porque os assuntos não eram os mesmos. Ah! Na rua tal que tem não sei quantos postes, tu sabe onde é? E eu não sabia. Na minha comunidade não tinha nem energia. Então era uma coisa desproporcional e ainda mais... tinha o problema... como eu não sabia alguns assuntos da escola, então como eu ia me encaixar em algum grupo pra fazer um trabalho para fazer amizade se eu não sabia? Aí era muito difícil também essa questão de amizade. Porque todo mundo queria em seus grupos quem que sabia do assunto para facilitar. E aí eu e algumas pessoas de lá que não sabia a gente ficava mais no canto, esperando a professora dizer então vai você pra aquele e você pra aquele outro grupo. Foi e é difícil. O primeiro ano então é muito difícil. O primeiro ano é realmente muito difícil”

 

Perguntamos a Adriele se no seu entendimento o deslocamento definitivo para a cidade, a adoção do modo de vida urbano e o abandono da lida na roça, na pesca e mariscagem tem realmente trazido melhoria na qualidade de vida e trabalho destes quilombolas. A resposta foi taxativa:

 

“Não! As meninas estão sempre trabalhando em casas como domésticas ou babá, e os meninos fazendo qualquer tipo de bico que aparece”

 

Só queremos crescer e viver
onde todos os nossos
ancestrais viveram e
morreram na luta por cada
um de nós.

 

 

A atitude irresponsável da Prefeitura de Maragogipe em comunicar o fechamento da escola, mesmo depois da matrícula dos alunos, revela qual foi o histórico papel desempenhado pelos governos diante da luta quilombola: o de relegar os povos e comunidades tradicionais à sorte das mazelas que criaram em séculos de opressão. O progressivo sucateamento da escola e o seu fechamento final sela o destino dos estudantes do quilombo, obrigando-os a enfrentar as dificuldades de se estudar fora de seu território ou até mesmo a abandonar a escola formal.

 

Queremos a escola
funcionando, uma
verdadeira escola
quilombola no Porto da
Pedra!

 

Os problemas da política de Educação Quilombola, criada pelo Ministério da Educação, são bem conhecidos. Entrevistamos uma cientista social da Universidade Federal do Recôncavo Baiano – UFRB, que preferiu não se identificar, especialista em analisar a implementação das escolas quilombolas em Maragogipe, e recebemos uma aula sobre o assunto.

 

“Tenho acompanhado esta discussão. Inclusive, há alunos que estão se matriculando em cidades vizinhas. É o velho racismo institucional, o descaso das instituições públicas com a população negra e pobre, e, nesse caso, quilombola. O poder municipal nunca voltou os olhos para as comunidades tradicionais. Há uma completa ignorância por parte da secretaria de educação do município quanto à existência das escolas em comunidades quilombolas, principalmente porque eles nem sabem o que de fato significa um quilombo. E esta ignorância é proposital: quando não se sabe o que é, se exclui... O fechamento é só a ponta do iceberg de um processo de precarização e abandono.”

 

Pedimos à pesquisadora que nos desse alguns exemplos da falta de implementação desta política de educação quilombola. Citou então o caso da escola do Quilombo da Salamina-Putumuju, situada também no município de Maragogipe.

 

"É uma escola quilombola, mas não tem material didático específico. Os professores que lá lecionam não são da comunidade. Não há atenção devida da secretaria. Pouco se sabe sobre comunidades quilombolas na Secretaria de Educação Muna verdade, folcloriza toda um história de resistência. Onde fica o diálogo com comunidade? Com os líderes comunitários? Com o saber tradicional? Onde fica o trabalho de pesquisa da instituição para estabelecer um processo de ensino-aprendizagem que envolve as minúcias da história negra no Brasil e da história de formação dos próprios quilombos? A comunidade não entra na escola, a não ser em reuniões de pais e mestres... O quê se vê é um pacote pronto de conteúdos recheados do que se chama de "saber oficial", no qual se reforça os não-lugares, o racismo e os descaso com a população negra quilombola”.

 

Chirlene Pereira nos traz problemas similares demonstrados pela pesquisadora. Reivindica junto com toda a comunidade quilombola o funcionamento imediato da escola no Porto da Pedra e adiciona ainda como reivindicações urgentes a alocação de professores locais capacitados para tratar da questão quilombola e a reforma da estrutura da escola, que apresenta pisos e telhados quebrados com risco de causar acidentes com as crianças. As aulas são também conduzidas juntando todas as turmas, de diferentes idades, com um único professor, dificultando a aplicação de uma pedagogia adequada para as diferentes faixas etárias.

Nas palavras de Chirlene, vemos que o quilombo é categórico em sua reivindicação: “queremos a escola funcionando, uma verdadeira escola quilombola no Porto da Pedra”! E Adriele complementa: “o quilombo é nosso, nenhum direito a menos! Avante quilombolas!”.

 

 


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