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A Crise Hídrica em Salvador

17 de Setembro de 2015, 17:42 , por Rodrigo Souto - 0sem comentários ainda | Ninguém está seguindo este artigo ainda.
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Da ditadura militar ao governo Dilma,
 lavam o jato com a nossa água!

Você provavelmente já passou pelo desprazer de ficar um dia sem água, com panelas e baldes cheios por todos os lados. Na hora do banho, tem que se contentar com aquela cuiazinha que mal lava e para beber, só gastando dinheiro com água mineral. Passar alguns dias assim dá até para aguentar, mas imagine viver o dia-a-dia com a falta d’água, tendo o seu registro fechado ou sendo multado caso precise colocar mais água no feijão. Esta é uma realidade que se aproxima do povo baiano.

Na cidade de Itu, em São Paulo, por exemplo, faltou água durante três meses! Alguns moradores se deslocavam por 70 km para a cidade vizinha para tomar banho na casa de parentes. Outros acumulavam fezes no sanitário durante uma semana para economizar descargas. O acúmulo de água em baldes proporcionou também um alastramento da dengue, causando um transtorno para a saúde pública, principalmente para a população mais pobre. Mas o que será que está causando esta falta de água? A causa da crise hídrica não é uma só. Há vários fatores que influenciam a disponibilidade de água, como o mau planejamento do sistema de abastecimento, o uso abusivo da água para a irrigação de grandes plantações e o desmatamento das florestas, por exemplo. Veremos que estes fatores estão ligados a como o Estado brasileiro vandaliza a população e a natureza.

A maior parte da água que abastece nossas casas (quase 70%) vem de um único rio, o Paraguaçu. Antes de chegar até o mar, ele é interrompido pela barragem de Pedra do Cavalo, que foi construída pela empresa Odebrecht (envolvida no escândalo da lava-jato) durante a ditadura militar, sem a consulta aos quilombolas, pescadores e marisqueiras do recôncavo, sem consulta à população da região metropolitana de Salvador, que continua sem o poder de decidir a melhor forma de abastecimento de água de sua própria cidade. Se a maior parte de Salvador depende de só um reservatório, caso algum problema ocorra neste local ou em suas adutoras, uma multidão de pessoas será prejudicada pela falta d’água. Quando no mês de abril, o Consórcio CCR - formado pelas empresas Andrade Gutierrez, Camargo Correa e Soares Penido (também envolvidas na lava-jato) – estourou uma adutora de abastecimento na BR-324 com a lentíssima obra do metrô, mais de 30 bairros da cidade padeceram por dias sem água. Bravamente, alguns bairros saíram às ruas em protesto, bloqueando pistas, queimando pneus e exigindo a reparação dos prejuízos.

 

Hidrelétrica de Pedra do Cavalo, empreendimento sem licença ambiental que barra o Rio Paraguaçu por mais de 20 h por dia,
matando a vida do rio, dos pescadores e marisqueiras da Baía do Iguape, Recôncavo baiano..


O ideal para o abastecimento de uma cidade seria que a água fosse retirada de diferentes fontes, de maneira equilibrada e bem administrada, para não prejudicar a saúde ambiental destes rios e garantir segurança hídrica para a população. Mas os outros rios que poderiam ser utilizados para o abastecimento são deixados de lado, sujeitos a quaisquer agressões ambientais. Aqui em Salvador, a EMBASA utilizava antigamente os rios Ipitanga I, II e III, que passam pela BR-324 e Valéria, para abastecimento da cidade, mas a contaminação pesada gerada pelo CIA (Complexo Industrial de Aratu) tornou impróprio o uso desta água para a cidade. O Rio Joanes que já foi importantíssimo para o abastecimento de parte de Salvador e de Lauro de Freitas, transformou-se num mar de lixos e contaminantes da indústria Petroquímica. Aliás, você conhece algum rio em sua cidade que não esteja podre ou que não tenha sito aterrado e concretado desde suas nascentes? Não é à toa que quando chove em Salvador, ficamos inundados, pois a chuva fica retida no concreto. O Estado brasileiro estrutura a distribuição de água de forma centralizada, criando projetos de grandes barragens para favorecer grandes empresas (essas mesmas da lava-jato), permite que os demais rios virem esgotos, rios mortos. Ele persegue e marginaliza as populações que dependem da pesca artesanal, de um rio realmente vivo e pouco se importam se faltará ou não água em sua casa... E o que o Estado brasileiro tem feito para reverter esta situação? Nada!

A política de abastecimento de Salvador continua centrada em Pedra do Cavalo, onde funciona também uma hidrelétrica operada pela VOTORANTIM sem as licenças ambientais. Desta forma, as grandes empresas e o próprio Estado continuam sugando rios de água e de dinheiro, comprometendo a segurança hídrica e o meio ambiente. Outro grande problema é que todo rio depende do regime de chuvas para manter sua vazão d’água, e grande parte das chuvas vem também das florestas. Uma grande árvore pode produzir até 1.000 litros de água por dia em forma de vapor, que formarão nuvens e chuvas. Cinco árvores dessas, por exemplo, poderiam encher um carro pipa de água por dia! Mas a região do Rio Paraguaçu é dominada por grandes fazendeiros, que desmataram as florestas desde o período da escravidão para grandes plantações ou criações de gado. Com o corte desta floresta, a umidade que formaria chuvas para encher o Paraguaçu fica reduzida, diminuindo o potencial do rio. O desmatamento da vegetação que fica nas margens tira também a proteção dos barrancos, fazendo com que uma grande quantidade de terra caia dentro do rio, tornando-o cada vez mais raso e com menos água. O agronegócio também retira do rio toneladas de águas por dia para uso na irrigação. Estima-se hoje que 70% da água utilizada no país é destinada para o agronegócio. Estas plantações são responsáveis por quase todo o desperdício de água no país. E novamente nos perguntamos: qual foi a postura do Estado diante de tudo isto? O Estado ajuda as grandes empresas a dominarem o mercado da água e das grandes obras, como também ajuda o agronegócio a lucrar pagando valores baixíssimos pela água que consome. Enquanto você paga caro para a EMBASA um valor por metro cúbico de água, o governo vende a água para os grandes fazendeiros a um valor de até 40 vezes menor. Mas o governo fará muita propaganda para justificar esta cobrança tão barata. Eles dirão que são eles, os fazendeiros, os responsáveis por trazer alimento à sua mesa, desenvolvimento econômico, emprego e riquezas para o país. Mas na verdade, a maior parte dos alimentos que chegam à nossa mesa é produzida por pequenos agricultores rurais, que realizam seus plantios e colheitas de forma familiar ou comunitária, agricultores que normalmente são marginalizados pelas políticas públicas do Estado. E a riqueza gerada nas fazendas, certamente correrá para um bolso que não é o nosso.



O beneficio que o governo dá para esses fazendeiros não para por aí: quando a própria lei prejudica o agronegócio, o governo simplesmente altera a lei para favorecê-los. O governo alterou, por exemplo, o Código Florestal para permitir mais áreas a serem desmatadas e perdoar os antigos crimes dos coronéis desmatadores. E, para piorar, usando a desculpa de que estão tentando resolver a falta d’água, inventam a necessidade de fazer outras grandes obras, como a transposição do Rio São Francisco, que matará este importante rio para enriquecer a mesma empresa corrupta que construiu Pedra do Cavalo: a Odebrecht. O baiano que está atento consegue perceber que não é o uso doméstico da água que é o responsável pela crise hídrica. Pouco mais de 10% da água utilizada no Brasil é para uso doméstico. Enquanto os fazendeiros gastam nossas águas e florestas para enriquecer (destruindo também povos indígenas e quilombolas), o Estado dirá que nós somos os culpados. Mandará reduzirmos o tempo do nosso banho, cortará a água de nossas casas e aumentará a nossa conta de água para enriquecer a EMBASA, nos deixando numa situação cada vez mais deplorável. Mas por que o Estado apoia as empresas e os donos de fazendas, deixando a população à míngua?

O baiano que tomou aquele café preto sem açúcar, certamente estará ligado na resposta. O Estado, o maior vândalo da história, precisa do dinheiro destas grandes empreiteiras, como Odebrecht, OAS, Camargo Correa, Andrade Gutierrez, Votorantim, Soares Penido e também dos grandes fazendeiros do agronegócio (que dominam o Senado), para financiarem suas campanhas partidárias. Não é à toa que são estas mesmas empresas que estão envolvidas nos maiores esquemas de corrupção do país. A história da água em Salvador esta aí para nos mostrar que seja com partido de direita ou de esquerda, seja com um Estado dito democrático ou mesmo com um Estado militar, nós ficaremos sempre por baixo, para que sejam privilegiados aqueles que bancam os partidos e o governo. Portanto, não fique de trouxa acreditando em partidos ou no Estado. Só há uma saída. Organize-se e lute!


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