Ir para o conteúdo
café
preto
acordando
para a luta
ou

Rio dos Macacos

Confira as fotos da visita do Café Preto ao quilombo!

Tela cheia Sugerir um artigo
 Feed RSS

Vandalismo de Estado

17 de Setembro de 2015, 17:31 , por Rodrigo Souto - | Ninguém está seguindo este artigo ainda.

Reforma na Previdência

aproximadamente 2 horas, por Rodrigo Souto - 0sem comentários ainda

Veja como essa matéria saiu na versão impressa aqui no PDF


 Reforma na Previdência

Previdencia

Atualmente encontra-se em pauta no congresso nacional a tão polemica reforma na previdência social. A pauta deve ser votada ainda no ano de 2017, mas a pergunta que ainda fica no ar é: qual a  necessidade de se fazer uma reforma no sistema previdenciário brasileiro? Existem muito argumentos e dados sendo apresentados que muitas vezes realmente nos levam a crer que essa reforma é necessária. Mas será que podemos confiar cegamente nessas informações? A partir de uma análise mais cautelosa, o que veremos aqui é que todo esse alarde mais parece uma grande encenação baseada em dados e avaliações superficiais com o objetivo de garantir a manutenção  dos lucros do capital financeiro em detrimento  dos direitos trabalhistas da população brasileira.

Antes de mais nada, precisamos saber em que consiste na prática essa reforma. Entre suas principais medidas constam: aumento da idade mínima de 60 anos para os homens e 55 para as mulheres, para 65 para homens e 62 para mulheres; aumento da necessidade do tempo de contribuição para 40 anos para ter acesso a 100% do benefício; fim da regra de aposentadoria por idade de 85 anos para mulheres e 95 anos para homens; revogação das regras especiais de aposentadoria dos professores do ensino médio e fundamental; proibição de acumulação de pensões e limitação de até 50% do valor integral; fim da aposentadoria rural apenas por idade. De antemão já podemos ver que o número de cortes e prejuízos nos direitos previdenciários são gigantes. Além do aumento da idade mínima e do tempo mínimo de contribuição para se aposentar que é algo que afeta a todos os segmentos de trabalhadores, a reforma visa precarizar ainda mais os professores e trabalhadores rurais. Com tantos cortes, a impressão que nos é passada é de que realmente a previdência representa um grande gasto para o Estado. Agora porque esse custo é tão grande?

Existem muito dados sendo apresentados nos levando a crer que essa reforma é necessária. Mas será que podemos confiar cegamente nessas informações?

A versão apresentada pelo atual governo em relação ao problema da previdência é a que segue: como a expectativa de vida segue aumentando e a taxa de fecundidade vem reduzindo, as projeções demográficas apontam para um envelhecimento da população. Em outras palavras, as pessoas vivem mais e tem menos filhos, e isso tenderá a continuar por muito tempo. Como a população jovem está diminuindo, o número de pessoas em idade ativa contribuindo será menor, portanto as receitas também serão cada vez menores. Ao mesmo tempo, como as pessoas vivem mais, mais tempo elas passarão recebendo benefícios do governo, encarecendo o sistema das aposentadorias.


Com base nessa justificativa que parece realmente fazer sentido é que vem escondida uma armadilha bem arquitetada: a narrativa dominante assume uma concepção propositalmente equivocada de relação entre receita e despesas da previdência, afirmando com isso que já existe um enorme déficit na Previdência no Brasil de algo em torno de R$ 182 bilhões, como previsto para 2017. Esse então seria o tão conhecido “rombo na previdência” que é apresentado como o principal problema das contas públicas do governo. Porém, se cavarmos um pouco mais fundo nessas contas, notamos que não é preciso ser nenhum perito em matemática pra perceber que existe algo muito errado nesse valor.

O problema é que a cifra desse déficit segundo a narrativa convencional não considera todas as receitas atribuídas à Previdência pela Constituição de 1988. A contabilidade feita pelos defensores do mainstream economics leva apenas em consideração o resultado primário do governo, contabilizando somente as receitas com Imposto de Renda e ignora outros impostos indiretos que financiam o Estado. Entretanto ao apresentar o passivo da previdência, eles consideram todas as despesas de forma integral. O resultado dessa contabilidade feita de forma intencionalmente equivocada, naturalmente, propicia a geração de um déficit substancial da previdência.

Se cavarmos um pouco mais fundo nessas contas, notamos que não é preciso ser nenhum perito em matemática pra perceber que existe algo muito errado nesse valor.

Para não deixarmos pontas soltas, especialmente se tratando de um tema tão importante como o da previdência, precisamos pontuar que esses dados não são opiniões de ninguém, mas sim fatos de ordem jurídica e conceitual sobre a previdência, descritos na Constituição brasileira de 1988. Do ponto de vista da receita da previdência, a Constituição de 1988 estabelece, no seu artigo 195, que o regime de Seguridade Social (definido como previdência, saúde e assistência social) será financiado por meio da contribuição ao INSS, pela Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (COFINS) e pela Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL). Isso significa que a receita com CSLL e COFINS deverá ser distribuída entre essas 3 rubricas de despesas. No entanto, o que acontece no cálculo convencional apresentado pelos defensores da reforma da previdência nos grandes meios de comunicação e pelo próprio governo, é que só é levado em consideração as receitas provenientes das contribuições para o INSS, ignorando as demais receitas provenientes do CSLL e do COFFINS e criando assim um “rombo” de mentira.

 

Figura previdencia
Figura 1

 Agora por que essa tramoia vêm sendo feita somente agora e se a previdência é tão custosa, por que que medidas para conter esses gastos não foram tomadas antes? A resposta pra essa pergunta envolve diversos fatores, muitos até desconhecidos para nós. Porém, um dado interessante de observarmos é o gráfico que mostra o crescimento das dívidas da previdência, pessoal e de encargos sociais e do juros da dívida interna mostrada na figura 1. Nesse gráfico, podemos ver que a despesa previdenciária aumentou muito pouco nos últimos 10 anos, logo as receitas estabelecidas na constituição para seu financiamento não poderiam de uma hora para para outra deixar de ser suficiente. Por outro lado, os gastos com juros da divida interna praticamente dobraram em pouquíssimo tempo. Ainda assim,  o lucro do capital financeiro é o único gasto do governo que não vai sofrer nenhum tipo de ajuste!

Vamos deixar claro que estamos atentos a essas manobras que o Estado e as corporações tentam nos enfiar goela a baixo, ainda mais quando se tratam de um ataque direto a direitos trabalhistas conquistados ao longo de anos de luta, suor, sangue e resistência. Não vamos engolir esses“migués” e iremos bater de frente sempre que necessário para garantir os nossos direitos.


Cairo Costa



O que não nos dizem sobre as epidemias urbanas?

aproximadamente 1 ano, por Léo Lopes - 0sem comentários ainda

A discussão sobre o que o Estado poderia fazer para evitar os surtos de doenças tropicais no país é antiga e polêmica. Alguns dizem que não adianta fazer nada só no Brasil e que o esforço deve ser mundial, afinal, as doenças não respeitam fronteiras, a exemplo da Zika e Chikungunya que chegaram recentemente de outros países. O mosquito Aedes aegypti, vetor destas doenças, dá um verdadeiro drible nas autoridades políticas brasileiras há mais de trezentos anos. Mas já que estamos sendo intimados a perseguir o mosquito, vamos ver o que estão nos escondendo sobre este pequeno "vilão" da nossa história.

Desde os primeiros surtos de febre amarela em Pernambuco, no ano de 1685, passando pela dengue que começou a bombar na década de 80, até as doenças da moda como zika e chikungunya, a solução apresentada pelo Estado sempre foi a mesma: transferir a responsabilidade do controle da epidemia para a população. O poder público recomenda evitar a água parada, uso de repelentes, inseticidas, roupas que cubram o corpo todo e solicita apoio das forças armadas. Uma guerra contra o mosquito Aedes. Além disso, recomenda que as "mulheres não engravidem" por conta do risco de microcefalia, como se toda a gravidez fosse planejada, como se todos tivessem acesso a uma educação sexual, métodos contraceptivos e pudéssemos debater a interrupção da gravidez. Mas os motivos desta guerra não nos são devidamente apresentados, e a população é usada como aquele tipo de soldado que obedece sem refletir ou questionar a ordem. É que mesmo que façamos o esforço diário na "luta contra o Aedes aegypti", não podemos perder de vista que as atuais epidemias resultam da falta de saneamento básico nas cidades, da precariedade dos serviços de saúde pública e do descaso com o planejamento ambiental urbano. A lista de causas então não se resume à água da sua bacia, garrafa ou pneu. A causa maior está relacionada à ausência de uma política urbana comprometida com a justiça social. Vejamos...

Favela1

O tal "esgoto a céu aberto", tão comum em cidades desiguais, possui uma localização muito precisa. Está no bairro precarizado, nas vielas, nos locais de moradia de gente pobre, demonstrando qual a classe sofre com as epidemias urbanas. É bem verdade que o mosquito não faz distinção do seu "público" alvo, mas a sua proliferação acontece, em grande medida, nos locais de maior vulnerabilidade social, abandonados pelos programas, planos e políticas urbanas.

Por exemplo, a EMBASA já chegou a dizer que a propagação de moradia "irregular" não permite uma oferta ampla de serviços essenciais de canalização de água e sistema de esgoto. O tratamento de esgoto, então, pode ser considerado "saneamento dos sonhos". Vemos uma cidade inteira em obras, as terras da cidade estão entregues às empreiteiras, grandes responsáveis pela degradação do ambiente, mas a intenção dos investimentos parece ser 'melhorar o turismo', não a saúde ou a qualidade de vida da população.

Dizem que fatores naturais, principalmente o calor e o regime das chuvas, pode favorecer a reprodução do mosquito, mas esta é uma afirmação perigosa que devemos analisar de forma crítica. O Aedes aegypti, de fato, se reproduz com maior frequência e torna-se mais ativo nestas condições. Mas em seu ambiente florestal natural, a baixa disponibilidade de criadouros, como ocos de árvores, e a presença de outros predadores que se alimentam do mosquito fazem com que suas populações não cresçam da forma assustadora como acontece nas cidades. É mais que conhecido o fato de o desmatamento urbano ser um dos fatores que impulsionam a procriação do Aedes nas cidades. Em Salvador, a redução da Mata Atlântica na Avenida Paralela para a construção de condomínios como o Alphaville - um dos maiores crimes ambientais da história da cidade - impulsionou, na época, um aumento da incidência de dengue nas regiões do entorno, como no Bairro da Paz e na periferia de Itapuã. Mais uma vez, para beneficiar empreendimentos habitacionais com o metro quadrado mais caro da Bahia, foi autorizado o desmatamento da Paralela em detrimento da saúde dos moradores de bairros mais pobres.

Portanto, acreditamos que "criminalizar" a natureza não é o caminho mais adequado para tratar do que é responsabilidade da saúde pública. Não precisamos sofrer com doenças infecto-contagiosas se evitarmos a destruição das florestas, a acentuação de construções de concreto no solo urbano, os projetos deficientes de drenagem de água, a ausência de moradia digna para parte da população, a precaridade da saúde pública e da coleta de lixos. Seria necessário então que o Estado assumisse responsabilidades e prioridades e não pôr toda a culpa sobre nossos ombros. Mas você acha que o Estado vai mesmo assumir isso?

Vejam que tudo tem uma ligação. A especulação imobiliária valoriza partes do solo urbano, tornando tudo caro na região e pressionando os mais pobres a sair de seu local de moradia para áreas mais distantes, sendo estas comumente áreas de risco, ou seja, sem qualquer infraestrutura social. O problema é que a temática "ambiental" é discutida entre planejadores do Estado e empresas de parceria público-privada que tentam "resolver os problemas da população" privatizando o espaço urbano e marginalizando a população pobre para locais sem nenhuma estrutura sanitária. Os interesses políticos e econômicos que mobilizam ou imobilizam ações de infraestrutura urbana são jogados por debaixo do tapete por homens e mulheres que mal pisam no chão dos nossos bairros. A tão chamada “participação popular” da propaganda não passa de um discurso requentado e difícil de engolir.

Não se trata somente de como eliminamos de forma imediata o mosquito. Se essa luta servir para aproximar as nossas relações de vizinhança, fortalecer articulações entre bairros e ações propositivas nas nossas associações, que assim o façamos. Que esse momento seja oportuno para pensarmos também nosso modelo de democracia representativa. A quem ela serve de fato e quais interesses representa? Enquanto ainda são candidatos, fingem conversar e entender nossas demandas. Mas ao serem eleitos e sentarem nas poltronas da burocracia para sugarem nas tetas do Estado, silenciam sobre tudo aquilo que faz da nossa luta diária um verdadeiro pesadelo. Cadê as obras de infraestrutura prometidas? Canalização de esgotos? Coleta do Lixo? Unidade básica de saúde...? Como sabemos, para tirar o corpo da jogada, é a secretaria do governo jogando a batata quente para prefeitura e a prefeitura mandando de volta pra o governo do estado. Bem cabe o ditado popular que nos diz: na briga do mar com as pedras, quem se f@d# é o siri. E bem sabemos quem é o siri nessa jogada, né? Cabe assim, além de uma luta autônoma, a organização e mobilização popular para pressionar e retirar do Estado tudo aquilo que historicamente nos foi roubado e nos é negado.

 

Centro_periferia



Estado e Capital Sucateando a Educação

mais de 1 ano, por Rodrigo Souto - 0sem comentários ainda

Veja como essa matéria saiu na versão impressa aqui no PDF


Maquina-do-capitalCom muito suor conquistamos nossos direitos básicos, mas basta uma crise econômica para anos de lutas irem embora. O problema é que a cada dia mais tudo gira em torno do dinheiro, e nesta guerra do direito e da qualidade de vida dos trabalhadores contra o lucro dos banqueiros, das indústrias e dos empresários, a corda geralmente arrebenta do lado mais fraco (o nosso, é claro!).

De tempos em tempos, entramos numa crise econômica. Nestas horas, o “sagrado” lucro dos patrões e a arrecadação dos governos (independente do partido) ficam comprometidos. Para não se afundarem em perdas e dívidas, eles precisam tirar dinheiro de algum lugar para tapar o rombo gerado pela crise. No entanto, governantes e empresários jamais mexerão em seus negócios, nas suas maracutaias ou reduzirão os seus salários. A primeira atitude é então fazer a política da tesoura: é corte para tudo quanto é lado, menos para o lado deles!

Tá pensando que 2016 será fácil? Pois ponham os capacetes que é vem pedrada! Reparem que o ano passado já começou voando pedregulho: o anúncio da redução de direitos históricos como a pensão por morte, auxílio-doença, seguro desemprego se soma a tantos outros “ajustes” já realizados. E no Estado ainda há aqueles que agitam a aprovação do projeto de lei da terceirização, que dá às empresas o poder de contratar e de demitir trabalhadores com mais "flexibilidade", sem tantas justificativas. Este ano a história não será nada diferente!

Vanda7

Os cortes públicos beiram 70 bilhões de reais. Se nossos direitos já estavam de mal a pior, com estes cortes, a greve geral é urgente. Os cortes da educação chegam a 11 bilhões anuais. As universidades estão demitindo trabalhadores, cortando bolsas de estudo para estudantes, devendo contas de água, energia, ou seja, está mal, muito mal das pernas. Por que não cobrar impostos maiores de grandes fortunas ou taxar banqueiros para cobrir os rombos da crise? É muito possível, outros países já fazem isto! Mas o que o governo faz é cortar os gastos com a educação e saúde, cortar o salário, congelar os aumentos e ainda deteriorar os direitos sociais de trabalhadores.

Vimos ano passado que as greves nas universidades públicas tiveram tudo a ver com o que acontece fora delas. Entre os setores da universidade, o mais explorado é o terceirizado: a gente sabe como estes contratos são frágeis. Os trabalhadores das universidades ficam meses com salários atrasados, férias atropeladas, insegurança no contrato de trabalho e, nos momentos da crise, são os terceirizados os primeiros a serem demitidos. Se fizerem greve então, as demissões passam a ser cada vez mais violentas!

É alarmante também o número de desistências de estudantes nos mais diversos cursos. Não se estuda sem comprar livros, tirar xerox, pegar ônibus. Ser estudante é também ralar muito, mas com os cortes da assistência estudantil, das bolsas, da falta de creches ou até mesmo com a falta de grana do transporte, muita gente acaba deixando de estudar. Quem é da correria sabe: estudar não dá para ser em tempo integral, a gente tem que correr atrás e conciliar estudo e trabalho na corda bamba. É assim que vive o estudante nessa universidade ainda “pública”. Nas faculdades particulares a situação não é tão diferente, já que muitos estudantes pobres, por não conseguirem passar no processo extremamente excludente do vestibular público, acabam fazendo das tripas coração para ocupar a universidade.

Não podemos esquecer também que a condição de estudante universitário, seja em instituições públicas ou particulares, é

caracterizada por um regime de produção acadêmica em ritmo de fábrica, onde o controle autoritário por parte da maioria dos professores é justificado pelo discurso do “estar preparando o aluno para o mercado de trabalho pós-formatura”. E esta
grande pressão sofrida pelos estudantes é acompanhada de uma extrema carência de estrutura para a qualidade do trabalho. Faltam equipamentos, salas, laboratórios, materiais, muitas vezes faltam até mesas ou cadeiras para se sentar! Logo, sem auxílio, sem recurso e sem estrutura para o estudante, a saída, infelizmente, se torna apenas trabalhar para garantir o pão na mesa e abandonar os estudos.

Diante de todas essas dificuldades, o sistema impõe ano após anoVanda6 o curso superior como exigência trabalhista. Atualmente, a maioria dos empregos já exige uma formação acadêmica. E aí a coisa aperta: o Estado não nos deixa estudar, pois cortam todos os nossos auxílios e direitos, mas depois permite que patrões exijam ensino superior nas contratações. Nesta brincadeira de mau gosto, quem fica de fora? O que sabemos é que aqueles que já nasceram com boas condições terão uma vida universitária mais confortável e ocuparão os melhores empregos no mercado de trabalho, e quem não nasceu em berço de ouro que se vire!

Tudo que há de desigual e injusto em nossa vida cotidiana também está impregnado nas estruturas das universidades: a exploração dos trabalhadores, dos estudantes, a péssima condição de trabalho, o autoritarismo, a exclusão dos mais pobres, a politicagem e a falta de democracia na administração das universidades. Devemos então apoiar a luta dos professores, estudantes e terceirizados para garantir não apenas uma universidade “pública, gratuita e de qualidade”, mas também uma universidade justa, que permita o acesso e a garantia de todos de decidirem os rumos da própria instituição a qual fazem parte. Talvez assim possamos um dia garantir que a universidade passe a produzir um conhecimento mais útil para a criação de uma sociedade mais justa, livre e solidária.



A Crise Hídrica em Salvador

aproximadamente 2 anos, por Rodrigo Souto - 0sem comentários ainda

Veja como essa matéria saiu na versão impressa aqui no PDF.


Da ditadura militar ao governo Dilma,
 lavam o jato com a nossa água!

Você provavelmente já passou pelo desprazer de ficar um dia sem água, com panelas e baldes cheios por todos os lados. Na hora do banho, tem que se contentar com aquela cuiazinha que mal lava e para beber, só gastando dinheiro com água mineral. Passar alguns dias assim dá até para aguentar, mas imagine viver o dia-a-dia com a falta d’água, tendo o seu registro fechado ou sendo multado caso precise colocar mais água no feijão. Esta é uma realidade que se aproxima do povo baiano.

Na cidade de Itu, em São Paulo, por exemplo, faltou água durante três meses! Alguns moradores se deslocavam por 70 km para a cidade vizinha para tomar banho na casa de parentes. Outros acumulavam fezes no sanitário durante uma semana para economizar descargas. O acúmulo de água em baldes proporcionou também um alastramento da dengue, causando um transtorno para a saúde pública, principalmente para a população mais pobre. Mas o que será que está causando esta falta de água? A causa da crise hídrica não é uma só. Há vários fatores que influenciam a disponibilidade de água, como o mau planejamento do sistema de abastecimento, o uso abusivo da água para a irrigação de grandes plantações e o desmatamento das florestas, por exemplo. Veremos que estes fatores estão ligados a como o Estado brasileiro vandaliza a população e a natureza.

A maior parte da água que abastece nossas casas (quase 70%) vem de um único rio, o Paraguaçu. Antes de chegar até o mar, ele é interrompido pela barragem de Pedra do Cavalo, que foi construída pela empresa Odebrecht (envolvida no escândalo da lava-jato) durante a ditadura militar, sem a consulta aos quilombolas, pescadores e marisqueiras do recôncavo, sem consulta à população da região metropolitana de Salvador, que continua sem o poder de decidir a melhor forma de abastecimento de água de sua própria cidade. Se a maior parte de Salvador depende de só um reservatório, caso algum problema ocorra neste local ou em suas adutoras, uma multidão de pessoas será prejudicada pela falta d’água. Quando no mês de abril, o Consórcio CCR - formado pelas empresas Andrade Gutierrez, Camargo Correa e Soares Penido (também envolvidas na lava-jato) – estourou uma adutora de abastecimento na BR-324 com a lentíssima obra do metrô, mais de 30 bairros da cidade padeceram por dias sem água. Bravamente, alguns bairros saíram às ruas em protesto, bloqueando pistas, queimando pneus e exigindo a reparação dos prejuízos.

 

Hidrelétrica de Pedra do Cavalo, empreendimento sem licença ambiental que barra o Rio Paraguaçu por mais de 20 h por dia,
matando a vida do rio, dos pescadores e marisqueiras da Baía do Iguape, Recôncavo baiano..


O ideal para o abastecimento de uma cidade seria que a água fosse retirada de diferentes fontes, de maneira equilibrada e bem administrada, para não prejudicar a saúde ambiental destes rios e garantir segurança hídrica para a população. Mas os outros rios que poderiam ser utilizados para o abastecimento são deixados de lado, sujeitos a quaisquer agressões ambientais. Aqui em Salvador, a EMBASA utilizava antigamente os rios Ipitanga I, II e III, que passam pela BR-324 e Valéria, para abastecimento da cidade, mas a contaminação pesada gerada pelo CIA (Complexo Industrial de Aratu) tornou impróprio o uso desta água para a cidade. O Rio Joanes que já foi importantíssimo para o abastecimento de parte de Salvador e de Lauro de Freitas, transformou-se num mar de lixos e contaminantes da indústria Petroquímica. Aliás, você conhece algum rio em sua cidade que não esteja podre ou que não tenha sito aterrado e concretado desde suas nascentes? Não é à toa que quando chove em Salvador, ficamos inundados, pois a chuva fica retida no concreto. O Estado brasileiro estrutura a distribuição de água de forma centralizada, criando projetos de grandes barragens para favorecer grandes empresas (essas mesmas da lava-jato), permite que os demais rios virem esgotos, rios mortos. Ele persegue e marginaliza as populações que dependem da pesca artesanal, de um rio realmente vivo e pouco se importam se faltará ou não água em sua casa... E o que o Estado brasileiro tem feito para reverter esta situação? Nada!

A política de abastecimento de Salvador continua centrada em Pedra do Cavalo, onde funciona também uma hidrelétrica operada pela VOTORANTIM sem as licenças ambientais. Desta forma, as grandes empresas e o próprio Estado continuam sugando rios de água e de dinheiro, comprometendo a segurança hídrica e o meio ambiente. Outro grande problema é que todo rio depende do regime de chuvas para manter sua vazão d’água, e grande parte das chuvas vem também das florestas. Uma grande árvore pode produzir até 1.000 litros de água por dia em forma de vapor, que formarão nuvens e chuvas. Cinco árvores dessas, por exemplo, poderiam encher um carro pipa de água por dia! Mas a região do Rio Paraguaçu é dominada por grandes fazendeiros, que desmataram as florestas desde o período da escravidão para grandes plantações ou criações de gado. Com o corte desta floresta, a umidade que formaria chuvas para encher o Paraguaçu fica reduzida, diminuindo o potencial do rio. O desmatamento da vegetação que fica nas margens tira também a proteção dos barrancos, fazendo com que uma grande quantidade de terra caia dentro do rio, tornando-o cada vez mais raso e com menos água. O agronegócio também retira do rio toneladas de águas por dia para uso na irrigação. Estima-se hoje que 70% da água utilizada no país é destinada para o agronegócio. Estas plantações são responsáveis por quase todo o desperdício de água no país. E novamente nos perguntamos: qual foi a postura do Estado diante de tudo isto? O Estado ajuda as grandes empresas a dominarem o mercado da água e das grandes obras, como também ajuda o agronegócio a lucrar pagando valores baixíssimos pela água que consome. Enquanto você paga caro para a EMBASA um valor por metro cúbico de água, o governo vende a água para os grandes fazendeiros a um valor de até 40 vezes menor. Mas o governo fará muita propaganda para justificar esta cobrança tão barata. Eles dirão que são eles, os fazendeiros, os responsáveis por trazer alimento à sua mesa, desenvolvimento econômico, emprego e riquezas para o país. Mas na verdade, a maior parte dos alimentos que chegam à nossa mesa é produzida por pequenos agricultores rurais, que realizam seus plantios e colheitas de forma familiar ou comunitária, agricultores que normalmente são marginalizados pelas políticas públicas do Estado. E a riqueza gerada nas fazendas, certamente correrá para um bolso que não é o nosso.



O beneficio que o governo dá para esses fazendeiros não para por aí: quando a própria lei prejudica o agronegócio, o governo simplesmente altera a lei para favorecê-los. O governo alterou, por exemplo, o Código Florestal para permitir mais áreas a serem desmatadas e perdoar os antigos crimes dos coronéis desmatadores. E, para piorar, usando a desculpa de que estão tentando resolver a falta d’água, inventam a necessidade de fazer outras grandes obras, como a transposição do Rio São Francisco, que matará este importante rio para enriquecer a mesma empresa corrupta que construiu Pedra do Cavalo: a Odebrecht. O baiano que está atento consegue perceber que não é o uso doméstico da água que é o responsável pela crise hídrica. Pouco mais de 10% da água utilizada no Brasil é para uso doméstico. Enquanto os fazendeiros gastam nossas águas e florestas para enriquecer (destruindo também povos indígenas e quilombolas), o Estado dirá que nós somos os culpados. Mandará reduzirmos o tempo do nosso banho, cortará a água de nossas casas e aumentará a nossa conta de água para enriquecer a EMBASA, nos deixando numa situação cada vez mais deplorável. Mas por que o Estado apoia as empresas e os donos de fazendas, deixando a população à míngua?

O baiano que tomou aquele café preto sem açúcar, certamente estará ligado na resposta. O Estado, o maior vândalo da história, precisa do dinheiro destas grandes empreiteiras, como Odebrecht, OAS, Camargo Correa, Andrade Gutierrez, Votorantim, Soares Penido e também dos grandes fazendeiros do agronegócio (que dominam o Senado), para financiarem suas campanhas partidárias. Não é à toa que são estas mesmas empresas que estão envolvidas nos maiores esquemas de corrupção do país. A história da água em Salvador esta aí para nos mostrar que seja com partido de direita ou de esquerda, seja com um Estado dito democrático ou mesmo com um Estado militar, nós ficaremos sempre por baixo, para que sejam privilegiados aqueles que bancam os partidos e o governo. Portanto, não fique de trouxa acreditando em partidos ou no Estado. Só há uma saída. Organize-se e lute!