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Confira as fotos da visita do Café Preto ao quilombo!

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29 de Setembro de 2015, 19:12 , por Rodrigo Souto - | Ninguém está seguindo este artigo ainda.

DOS SENHORES DE ENGENHO AOS FAZENDEIROS DO EUCALIPTO

8 dias, por Rodrigo Souto - 0sem comentários ainda

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Titulo1

 

A marisqueira e quilombola M. G. , 68 anos, senhora forte, mãos calejadas da lida na roça e pés cortados de pisar em ostras, acorda em sua pequena casa de taipa, onde criou sozinha suas duas filhas e onde morou sua mãe, a sua avó e ainda sua bisavó. Em seu fogão a lenha, ajeita uma pequena ruma de madeiras secas de mangue e as acende pacientemente à medida que põe um caneco de metal cheio d’água para ferver. Enquanto prepara o café preto de todo dia, percebe o ronco diferente de motores que se aproximam. Lentamente, vai até a soleira da porta e dá um bom dia a todos os mais de dez homens que a olham com desprezo de seus carros. São quatro camionetes prateadas que cercam a sua casa às cinco da manhã. O que a casa da senhora faz aqui? – pergunta um deles.

 

Cenas assim são comuns no Recôncavo, onde a monocultura do eucalipto invadiu de forma violenta os territórios tradicionais, expulsando quilombolas e extrativistas de suas terras e gerando danos graves à saúde, ao meio ambiente e aos modos de vida destas populações. Mas o que se vê nas propagandas oficiais é o slogan “negócios sustentáveis de florestas plantadas”.

 Sam 1745

O plantio em massa de eucaliptos no Brasil teve início com a produção de carvão e ligas para o setor férreo no início do século XX. Foi no governo de Getúlio Vargas, na década de 1940, que a celulose começou a ser produzida comercialmente. A partir daí, de governo em governo, de Juscelino a ditaduras militares, passando por tucanos e petistas, a política continuou a mesma: incentivos fiscais às indústrias de celulose, facilidades no licenciamento ambiental, falcatruas para expansão dos negócios e genocídio das populações do campo, geralmente indígenas e povo preto. E no Recôncavo baiano não foi diferente.

 

“Desde que o atual dono da Fazenda chegou as coisas ficaram muito ruins, há mais ou menos dez anos ele chegou, cercou o caminho que a gente usava para mariscar, que a gente usava para pegar ônibus na estrada pra estudar. Ele expulsou mais ou menos 20 famílias dizendo que as terras eram dele.” – marisqueira e quilombola.


Na comunidade quilombola do Guaí, por exemplo, houve a instalação de inúmeras fazendas de eucalipto sem consulta pública à comunidade, o que é exigido pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho. Estes fazendeiros arrendaram então suas terras para um grande e único negócio da empresa Bahia Specialty Cellulose/Copener (BSC-COPENER), ocupando uma área do tamanho de quase 200 campos de futebol no interior do quilombo.

 

Os fazendeiros expulsaram tambem diversas famílias de suas casas, forçando-as a abandonar seus lares e a se instalar em outras localidades mais difíceis de acessar, plantar ou obter água.

 Sam 2813  2

Segundo entrevistados pela equipe do Café Preto, os fazendeiros de eucalipto confinaram diversos moradores do quilombo a um espaço muito pequeno, forçando-os a formar uma espécie de "pequena favela", sem quintais para manterem suas atividades tradicionais, como o cultivo da mandioca, do aipim, hortaliças, dentre outras.

 

Diante da resistência e reação quilombola, os coronéis do eucalipto se organizaram em uma espécie de sindicato e prometem retaliar! Suas reuniões ocorrem dentro do próprio quilombo e é prática comum invadirem reuniões da comunidade.

 

“Esse fazendeiro desmatou tudo quando chegou, a gente usava o caminho dentro da mata para chegar na maré, depois disso ele tirou a gente da nossa terra, a gente tinha casa levantada, roça, casa de farinha, jogou a gente tudo do lado de cá da pista, nem passar pra pescar a gente podia” – agricultor e pescador quilombola.

 

VenenoPara a monocultura do eucalipto no Guaí, diversos agrotóxicos pesados foram utilizados, como o Norton, classificado nas piores categorias de risco para a saúde humana e para o ambiente, contaminando o mar de onde extrativistas tiram seus peixes e mariscos, a água doce, os solos e lavouras. Na bula do agrotóxico é recomendado que o Norton não seja utilizado “em áreas situadas a uma distância inferior a 500 metros de povoação e de mananciais de captação de água para abastecimento público e de 250 metros de mananciais de água, moradias isoladas, agrupamentos de animais e vegetação suscetível a danos”. A contaminação do Quilombo fica evidente neste relato de um morador:

 

“O eucalipto não desenvolve a comunidade. E sabe o que é pior? Quando chove a água leva o veneno todo da plantação pra maré. Tá ruim para os homens que trabalham mais na roça e nas fazendas e pras mulheres que mariscam. Na fazenda mesmo, elas não vão mais mariscar, não tem mais nada lá, não tem mais mapé, marisco nenhum. A água do açude do Sinunga ninguém usa mais pra beber”.

 

Através de entrevistas e investigações de documentos públicos, descobrimos que o Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos – INEMA, o órgão estadual responsável por analisar a viabilidade ambiental dos plantios de eucalipto, dispensou os fazendeiros da necessidade de licenciamento, ou seja, deixou que estes se instalassem sem exigir que estudos de impactos fossem feitos. Sem estes estudos, é mais difícil obrigar os fazendeiros e a empresa a repararem os danos causados.

 

 E o absurdo não acaba por aí! A desculpa para dispensar as fazendas de eucalipto do licenciamento ambiental foi a de que as áreas de plantio eram pequenas. Na verdade, pegaram uma enorme área de eucalipto que beneficia uma única empresa, a BSC-COPENER, e fatiaram em pequenas fazendas, como se cada uma delas fosse um negócio independente, de baixo impacto ambiental, sem necessidade de licença. As análises do INEMA foram feitas a partir de cada pedacinho, para que essa desculpa de “pequenas áreas de plantio” pudesse ser dada. Verificando os nomes dos proprietários dessas fatias de terra, o Café Preto identificou que muitos possuem parentesco. De fatia em fatia, o quilombo do Guaí acabou engolindo o bolo inteiro, um bolo envenenado!

 

A luta contra a indústria do eucalipto revela conflitos entre distintos modos de vida: um que vê a terra como um mero objeto para se extorquir e lucrar e outro que percebe a terra como um lar, indispensável para a manutenção da vida e dos laços comuns. A história se repete há mais de 500 anos: mudam-se os ritos, mas não os planos. E o luto é presença certa nos mangues e quilombos, sejam eles rurais, como no Guaí, ou urbanos, como no Rio dos Macacos.


Após tantos anos, a resistência não muda de lado, não é ponto de fuga. É centelha incasável, labuta diária que enche o cofo do que dá, que encobre o corpo de lama, acolhimento farto para o alimento incerto de suas crianças.

 

Os fazendeiros se aproximam. A marisqueira e quilombola M.G, 68 anos, empunha o seu farracho como quem segura uma arma em tempos de guerra. Com uma força que resgata a luta de seus ancestrais enterrados ao fundo de sua casa, grita aos homens:

 

"Só saio daqui morta!"

 

Saiba mais:

As dispensas de licenciamento ambiental emitidas pelo INEMA mediante fracionamento do empreendimento da COPENER/BSC Celulose são as de nº 2013.001.001006, 2013.001.001004, 2012.001.000103, dispensa de licenciamento ambiental s/nº de 11 de abril de 2012 (Processo nº 2012-005261/TEC/DLA-0098, em nome da esposa do fazendeiro da dispensa anterior) e 2016.001 .040935, totalizando uma área de cerca de 300 hectares de plantio de eucalipto no interior do territorio quilombola. O nome de M.G. foi ocultado nesta materia para manter a segurança e integridade fisica da fonte. As iniciais do nome podem não ser verdadeiras. O Café Preto prima pela confiança e segurança de tod@s que contribuem para a construção do jornal. Os demais relatos foram cedidos por Carolina Sapucaia e disponibilizados em seu trabalho "QUANDO O EUCALIPTO CHEGA NA MARÉ: estudos sobre os impactos territoriais da monocultura de eucalipto nas comunidades quilombolas do Guaí – Maragojipe(BA)", ano de 2016, pelo curso de Geografia da Universidade Federal da Bahia.

 



E tome obra!

mais de 1 ano, por Rodrigo Souto - 0sem comentários ainda

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E Tome Obra!
Uma cidade cada vez menos nossa

Na propaganda de Salvador vemos uma cidade “plural” e feliz. É claro que a agência de comunicação de uma prefeitura vai vender o que há de mais rico na cidade: sua paisagem, sua história, sua cultura, seu povo. Por outro lado, irá maquiar os detalhes “técnicos” de sua gestão. Salvador, cidade historicamente marcada por desigualdades sociais, econômicas e raciais, cidade onde há lugares para os “brancos ricos” e cada vez menos para os “negros pobres”, atravessa uma série de transformações. Mas que tipo de mudança está acontecendo na nossa cidade?

O processo de modernização e embelezamento de determinados espaços desta cidade tem gerado o agravamento da desigualdade e desrespeito às classes pobres. Queremos sim uma cidade mais bonita, que permita o encontro nos espaços públicos e que atenda às demandas das nossas comunidades, mas de que adianta a prefeitura embelezar uma praça, se dá a uma empresa o direito de fazer dela o que bem entender? E gastar R$ 100 milhões na reforma da Barra, quando, ao mesmo tempo, corta linhas de ônibus que levam a periferia à orla?

Não adianta prometer bairros seguros e defender que em cada esquina haja um policial que pode “por acidente” matar alguém ou chacinar 12 jovens como ocorreu no Cabula. Não adianta 'botar' "domingo é meia" se em todos os outros dias da semana o absurdo da passagem está a serviço dos mandos e desmandos do SETEPS. Muito menos colocar um banco para “distribuir” bicicletas a R$ 10 por ano se as ciclofaixas não atendem às necessidades dos ciclistas.


Estamos vendo que a “melhoria na infraestrutura da cidade” não traz benefícios para todos. Do jeito que as mudanças acontecem, estão forçando os mais pobres a sair de suas comunidades, removendo-os de suas casas enquanto os empresários da especulação imobiliária aumentam seus lucros. A especulação imobiliária funciona juntinho do Estado: o político investe dinheiro público na melhoria de uma praça aqui, ‘bota’ uma orla bonitinha acolá, e se aproveita das obras para expulsar os moradores mais pobres e os trabalhadores autônomos destas áreas. Assim a cidade é entregue de bandeja para os empresários fazerem dela o que bem entender. É bem na lógica de uma mão lava a outra, as empresas financiam as campanhas do prefeito e o prefeito... Você sabe. Por exemplo, a prefeitura privatizou a estação da Lapa, afastou os trabalhadores autônomos e pequenos negócios da região bem como autorizou a construção de mais um shopping. Disse que a iniciativa privada teria “melhores condições de gerir o espaço", mas perceba que isso é de lei: primeiro deixam o espaço para os ratos, depois fornecem um monte de facilidades para uma empresa lucrar no lugar. A orla também foi privatizada, três empresas durante 15 anos terão o lucro dos quiosques que serão construídos, isso depois de terem expulsado os barraqueiros da orla soteropolitana à força. ACM Neto também apresentou um projeto para vender 62 terrenos públicos (casarões, praças, pistas de skate etc.) que ao invés de servirem ao povo, serão, se o projeto for aprovado, propriedade dos grandes empresários desta cidade. Como se vê, a cada dia temos uma cidade menos nossa. É tudo deles, nada nosso!

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Mudanças positivas seriam criar mais creches públicas e espaços culturais, melhorar o sistema educacional, disponibilizar cursos gratuitos, tudo isto com qualidade, garantias trabalhistas e bons salários para os funcionários. Articular um sistema de transporte gratuito, ampliar a rede de esgoto e pavimentação, investir na recuperação dos rios urbanos... A lista é grande do que poderia ser considerado na “requalificação urbana”.

Se já tivéssemos conquistado voz nos espaços de decisão sobre o futuro da cidade poderíamos gritar no ouvido do prefeito o que bem fazer. Mas a conversa é sempre outra, somos sempre silenciados. O que estamos vendo acontecer em Salvador ocorre também em outras cidades do Brasil, ou seja, é um grande projeto de valorização das classes ricas e expulsão das classes pobres.

As mudanças feitas por ACM, o Neto, daqui a alguns anos prometem aprofundar ainda mais as desigualdades sociais. É preciso impedir e resistir a esta política de “requalificação” que empurra cada vez mais os trabalhadores autônomos e moradores pobres de bairros centrais para longe dos centros. Estas políticas já deram as caras de quem será favorecido e de quem será excluído! A saída jamais será privatizar tudo como tem sido feito. A resposta só pode ser dada junto com a população. Vamos pressionar e discutir, nos organizar para que a cidade tenha as mudanças que o próprio povo deseja a partir de suas livres escolhas. 

 



Pra onde vai a crise?

aproximadamente 2 anos, por Rodrigo Souto - 0sem comentários ainda

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Cada vez mais se torna perceptível que aquele dinheiro que você ganha depois de um mês suado de trabalho mal dá pra pagar as contas. Depois de uma década de “avanço econômico” e daquilo que era noticiado como “aumento do poder de compra do trabalhador”, atualmente parece não ser tão real. Ora, nesse momento estamos vivenciando uma crise econômica no Brasil, e como sempre quem mais sofre com isso é o trabalhador.

Tudo isso vem acontecendo em virtude da “política de austeridade” que o governo brasileiro vem adotando, cortando verba de serviços públicos, como forma de continuar fazendo com que os empresários não percam dinheiro e continuem lucrando. Pra quem não sabe, grande parcela das verbas que eram destinadas para a educação e saúde foi cortada, só para a educação a redução mensal foi de 1,9 bilhões de reais, e tem feito com que vários serviços essenciais nas universidades deixem de funcionar como limpeza e segurança. E o efeito disso é que pessoas que deveriam ser pagas para realizar esses serviços estão sendo demitidas, geralmente sem a garantia dos devidos direitos trabalhistas.

Outro processo desencadeado pelo atual governo, e é um bom motivo pra preocupação, é a reforma trabalhista que ataca os benefícios conquistados pelos trabalhadores ao longo de anos. Entre eles estão o seguro-desemprego. Antes para acessar o benefício você tinha que ter trabalhado e recebido salário no mínimo de 6 meses. Agora pra você solicitá-lo (caso fique desempregado) você terá que ter trabalhado um período de 18 (na primeira vez) e 12 meses (na segunda vez) respectivamente para poder receber o benefício. O abono salarial que antes era concedido para a pessoa que trabalhou no mínimo de 30 dias no ano recebendo até dois salários mínimos, agora só poderá ser solicitado depois de um prazo de seis meses, e passa a ser pago de forma proporcional aos dias trabalhados no ano. O auxilio-doença, que era concedido ao trabalhador que, por motivos de doença, tenha ficado mais de 15 dias afastado do trabalho e que recebia nesse tempo, tem que esperar agora 30 dias até ser pago.

Ainda temos também o problema relacionado à habitação, uma vez que um dos carros chefes do governo é o programa “Minha Casa, Minha Vida”, e parece que o cenário não é muito bom para quem estava pensando em garantir uma casa. Uma vez que a segunda etapa do programa acabou, e embora a terceira etapa do programa tenha sido anunciada duas vezes (em junho do ano passado, e recentemente no discurso de posse da presidenta), não há previsões de que se realize tão cedo, já que o Ministério das Cidades que é responsável pelo programa foi o segundo ministério (atrás somente do Ministério da Educação) a sofrer cortes na verba. E pra se somar a tudo isso ainda temos o aumento de impostos que tem colocado a inflação lá no alto. Nos últimos meses a gasolina e o óleo diesel tiveram um reajuste de em torno de 8,42% e a energia elétrica 3,14%, e isso tem tornado alguns produtos mais caros, principalmente por causa da gasolina e combustíveis que influenciam diretamente no preço de outros produtos uma vez que a maior parte do transporte de mercadorias no Brasil é feito por vias terrestres.



A nossa percepção é de que a crise no Brasil está dada, e que não há uma perspectiva positiva em longo prazo. Cada vez mais a situação revela a necessidade e o acirramento das lutas, e a necessidade do povo trabalhador reivindicar seus direitos contra os empresários e o Estado que nos oprimem, e nós anarquistas como trabalhadores, estudantes, idosos e desempregados estamos pronto para a luta! Não queremos migalhas! Queremos tudo que nós temos direito!