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Quilombolas em Luta!

2 de Junho de 2016, 17:46 , por Rodrigo Souto - 0sem comentários ainda | Ninguém está seguindo este artigo ainda.
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 Quilombolas em Luta!
Autogestão e Resistência no Recôncavo Bahiano

Nesse nosso mundão nos deparamos todos os dias com uma diversidade de situações, de paisagens, de ideias e ações. No entanto, você já percebeu quantos obstáculos encontramos quando queremos discutir os problemas existentes no interior do nosso modo de vida?

Tentam nos convencer de que as roupas que vestimos, os sabores que consumimos e as relações que estabelecemos só seriam aceitáveis se estiverem de acordo com a forma "autorizada" pelo capitalismo. Mais uma forma de controle no seu projeto histórico de transformação de todo e qualquer atributo da vida em mercadoria, mera etiqueta de boutique.

Na contramão dessa prisão cotidiana, há comunidades e grupos tradicionais que se colocam no presente enquanto resistências e impedem o domínio supremo de um modo de vida pré-formatado através do resgate à sua ancestralidade e às relações sociais de outros tempos. Esta luta se realiza em diversas frentes e de forma cotidiana. Expressa um outro contato com a natureza e entre homens e mulheres. Representa a autodeterminação do como queremos, podemos e lutamos para ser e atender nossas necessidades, através do resgate de valores silenciados ao longo da historia.
Nesta edição reservamos este espaço para dialogar, conhecer e valorizar as práticas e saberes das Comunidades Quilombolas existentes no Recôncavo baiano. Comunidades marcadas por uma trajetória de luta contra os grandes proprietários fundiários, empreendimentos, bem como contra o próprio Estado.

Ainda assim, estas comunidades reafirmam seus saberes e apontam novas trilhas por onde podemos fortalecer novas caminhadas através da ajuda-mútua, da solidariedade e articulação. Na 7º edição da Festa da Ostra, o Café-Preto marcou presença na comunidade quilombola do Kaonge, pra saber, e aí, Colé de Merma?

 


 

AnaniasCafé Preto: Sobre a Festa da Ostra, vocês podem nos contar um pouco do histórico, o porque do surgimento e os objetivos?

Ananias Viana: A festa da Ostra foi uma invenção que veio pra continuar aquilo que os nossos ancestrais deixaram pra gente. Quando começamos a criar ostra, em cativeiro, veio um problema. E agora? A gente tá produzindo, mas vai vender aonde? A gente não tem comércio, como é que vai vender, vai ficar assim? Vai desestimular a criação de ostra? Aí veio uma discussão, a única coisa, pensamos, é a gente fazer um evento e colocar o nome de Ostra, Festa da Ostra. De início era feito na semana santa, porque todos os filhos das pessoas das comunidades que estão em outros estados vêm visitar suas famílias. Aí a gente disse, vamos fazer o evento dentro das Comunidades Quilombolas do Vale do Iguape, vamos dar visibilidade.

Jorlane: É um projeto bom, não é montado. É um projeto que visibiliza a coletividade na comunidade e a renda.

Jucilene: A importância está na divulgação dos nossos produtos, para que as pessoas conheçam o potencial produtivo das nossas comunidades.

Café Preto: Existe uma integração entre os núcleos produtivos para potencializar a visibilidade?

Jucilene: Sim, o núcleo de Turismo de Base Comunitária, por exemplo, consegue agregar todos os núcleos de produções dentro dos seus roteiros, como a apicultura, o artesanato, o azeite de dendê... Mesmo com todas as nossas problemáticas, tentamos encontrar as soluções para que os moradores não saiam das suas comunidades, que a gente consiga resistir aqui.


Rota da Liberdade
Rota da Liberdade

Café Preto: Existe todo um desenvolvimento que tem origem no saber ancestral, tradicional...

Ananias Viana: Sim, os quilombos existem diretamente nas margens dos manguezais, dentro das matas ou nas margens dos rios. Porque no rio tem os peixes, na mata tem a caça, e nos manguezais tem os mariscos e moluscos, aí eles (acenstrais quilombolas) puderam sobreviver disso. Começaram a inventar as tecnologias sociais. Aqui nessa região teve uma invenção muito importante para eles, a maçaquara... Era uma madeira que eles colocavam nas margens dos manguezais e aquilo ali criava ostras pra sobrevivência. Depois veio a camboa de pau, que é uma arte mais indígena com quilombola. Um formato de copo que tem duas pernas, que pega além do peixe, o camarão e a ostra, então você vê como eram as invenções deles, que deram certo. Várias pessoas, com isso, criaram suas famílias, conhecem as tecnologias sociais, isso foi muito importante aqui.

Café Preto: Existe articulação entre as comunidades quilombolas? Como ela se realiza?

Jorlane: A necessidade de um quilombo é de todos. Então tem que ter organização. Pra você se organizar é necessário que você faça uma política voltada para a economia solidária, voltada para renda, tipo o banco quilombola do Iguape.


Moeda_solidariaCafé Preto:
Você pode contar um pouco para gente sobre esse banco?
 

Jorlane: A gente trabalha com duas políticas de crédito, o consumo e a produção. A pessoa solicita o empréstimo, o valor máximo hoje é de R$ 300,00. Isso é cultura, isso é vontade, isso é querer que a comunidade, a renda, gire em torno dela. Essa moeda local não tem juros.

Café Preto: Em relação aos núcleos produtivos, como são as relações de trabalho, existem patrões e empregados?

Jorlane: Eu não sei nem como é que se escreve esse nome ‘patrão’e 'empregado', porque a gente não usa essas palavras aqui nas nossas comunidades. A gente usa: “Vamos fazer?”. O vamos vem na frente de tudo. Comunidade quilombola, comunidade organizada, não significa ser ignorante, tem que ter ética. A gente faz os nossos objetivos e constrói, a gente não aceita objetivo pronto de cima pra baixo, a gente constrói de baixo pra cima.

Jucilene: Os núcleos de produção trabalham no coletivo, na base da economia solidária. Tem grupos, como o cultivo de ostra, por exemplo, que é no coletivo, mas na divisão cada ostreicultor tem a sua produção, cada um vende seu produto e a divisão dos valores é individual. Já no núcleo de turismo, o valor é repartido igualmente entre todos no grupo, assim como acontece em outros núcleos, o único que tem esse diferencial mesmo, dos valores individuais, é o de ostreicultura.

 

Feira_de_artesanato7ª Edição da Feira das Ostras 

Café Preto: Quais os principais problemas enfrentados aqui?

Jucilene: Quando uma pessoa passa mal, ainda temos a dificuldade de chegar no hospital, não temos uma estrada adequada, várias pessoas já faleceram por falta de um socorro adequado. Não temos ambulância, liga e não consegue, a gente tem que pegar o único carro da comunidade, que é o da Rota da Liberdade que acaba virando ambulância. Ainda temos dificuldade na área de educação, acesso à escola, os jovens ainda andam muito até chegar até o ponto, porque o transporte não entra na comunidade, assim muitos desistem. São tantas as dificuldades dentro de uma comunidade quilombola que é difícil até nomear todas elas.

Café Preto: Existem problemas com o Estado e com os empreendimentos dessaa região?

Jorlane: Depois que essas ONG's, governo, estaleiro naval e a hidrelétrica de Pedra do Cavalo chegaram, diminuiu muito a nossa pesca. Estamos tendo problema na água, antigamente meus ancestrais pescavam tranquilos, não se coçavam, mariscavam, vinham de manhã, voltavam de tarde e não tinham problemas. Hoje você não consegue ficar meia hora na maré, porque a água começa a coçar. Está nos prejudicando. Esse estaleiro desgraçou com a população. Estão sumindo os mariscos, então por isso que as nossas comunidades trabalham no coletivo para formar os núcleos produtivos. Os meus ancestrais me ensinaram a lutar, por várias coisas, não por uma coisa só. Quem vive de uma coisa só, infelizmente fica atrasado no mundo.

Café Preto: para marcar o final dessa conversa, o que é ser quilombola pra você?

 

JorlaneJucilene

 

 

 

 

"Ser quilombola é meu amanhecer, meu entardecer, meu anoitecer. Meu dia-a-dia, a minha cor, a minha origem, a minha ancestralidade, minha cultura, meu coração e minha consciência. Porque se eu não tiver minha consciência, eu não sei o que são esses nomes que falei" - Jorlane

"É você assumir sua identidade, lutar por aquilo que você quer, é você ter resistência, o reconhecimento dos seus valores, ter o saber e o fazer a todo momento, daquilo que você se identifica, daquilo que você quer, daquilo que você caminha" - Jucilene

 


 
SOBRE AS PESSOAS ENTREVISTADAS (POR ELAS MESMAS)

Jorlane: quilombola do Kaonge, conselheira quilombola do Vale do Iguape, Conselheira da Reserva Extrativista Baía do Igupae, apicultora, ostreicultura, agente de crédito do banco solidário, percussionista e mais um montão de coisas.

Ananias Viana: liderança Quilombola da Bacia do Vale do Iguape.

Jucilene: quilombola da comunidade do Kaonge, professora, ostreicultora, apicultora, artesã e muito mais.

O quilombo: o Territorio Quilombola Kaonge situa-se no municipio de Cachoeira, no Reconcavo Baiano, e é formado pelas comunidades do Kaonge, Engenho da Ponte, Engenho da Praia, Dendê e Calembá.


Fonte: Café Preto

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