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DOS SENHORES DE ENGENHO AOS FAZENDEIROS DO EUCALIPTO

4 de Outubro de 2017, 23:57 , por Bruno M. - 1Um comentário | Ninguém está seguindo este artigo ainda.
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A marisqueira e quilombola M. G. , 68 anos, senhora forte, mãos calejadas da lida na roça e pés cortados de pisar em ostras, acorda em sua pequena casa de taipa, onde criou sozinha suas duas filhas e onde morou sua mãe, a sua avó e ainda sua bisavó. Em seu fogão a lenha, ajeita uma pequena ruma de madeiras secas de mangue e as acende pacientemente à medida que põe um caneco de metal cheio d’água para ferver. Enquanto prepara o café preto de todo dia, percebe o ronco diferente de motores que se aproximam. Lentamente, vai até a soleira da porta e dá um bom dia a todos os mais de dez homens que a olham com desprezo de seus carros. São quatro camionetes prateadas que cercam a sua casa às cinco da manhã. O que a casa da senhora faz aqui? – pergunta um deles.

 

Cenas assim são comuns no Recôncavo, onde a monocultura do eucalipto invadiu de forma violenta os territórios tradicionais, expulsando quilombolas e extrativistas de suas terras e gerando danos graves à saúde, ao meio ambiente e aos modos de vida destas populações. Mas o que se vê nas propagandas oficiais é o slogan “negócios sustentáveis de florestas plantadas”.

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O plantio em massa de eucaliptos no Brasil teve início com a produção de carvão e ligas para o setor férreo no início do século XX. Foi no governo de Getúlio Vargas, na década de 1940, que a celulose começou a ser produzida comercialmente. A partir daí, de governo em governo, de Juscelino a ditaduras militares, passando por tucanos e petistas, a política continuou a mesma: incentivos fiscais às indústrias de celulose, facilidades no licenciamento ambiental, falcatruas para expansão dos negócios e genocídio das populações do campo, geralmente indígenas e povo preto. E no Recôncavo baiano não foi diferente.

 

“Desde que o atual dono da Fazenda chegou as coisas ficaram muito ruins, há mais ou menos dez anos ele chegou, cercou o caminho que a gente usava para mariscar, que a gente usava para pegar ônibus na estrada pra estudar. Ele expulsou mais ou menos 20 famílias dizendo que as terras eram dele.” – marisqueira e quilombola.


Na comunidade quilombola do Guaí, por exemplo, houve a instalação de inúmeras fazendas de eucalipto sem consulta pública à comunidade, o que é exigido pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho. Estes fazendeiros arrendaram então suas terras para um grande e único negócio da empresa Bahia Specialty Cellulose/Copener (BSC-COPENER), ocupando uma área do tamanho de quase 200 campos de futebol no interior do quilombo.

 

Os fazendeiros expulsaram tambem diversas famílias de suas casas, forçando-as a abandonar seus lares e a se instalar em outras localidades mais difíceis de acessar, plantar ou obter água.

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Segundo entrevistados pela equipe do Café Preto, os fazendeiros de eucalipto confinaram diversos moradores do quilombo a um espaço muito pequeno, forçando-os a formar uma espécie de "pequena favela", sem quintais para manterem suas atividades tradicionais, como o cultivo da mandioca, do aipim, hortaliças, dentre outras.

 

Diante da resistência e reação quilombola, os coronéis do eucalipto se organizaram em uma espécie de sindicato e prometem retaliar! Suas reuniões ocorrem dentro do próprio quilombo e é prática comum invadirem reuniões da comunidade.

 

“Esse fazendeiro desmatou tudo quando chegou, a gente usava o caminho dentro da mata para chegar na maré, depois disso ele tirou a gente da nossa terra, a gente tinha casa levantada, roça, casa de farinha, jogou a gente tudo do lado de cá da pista, nem passar pra pescar a gente podia” – agricultor e pescador quilombola.

 

VenenoPara a monocultura do eucalipto no Guaí, diversos agrotóxicos pesados foram utilizados, como o Norton, classificado nas piores categorias de risco para a saúde humana e para o ambiente, contaminando o mar de onde extrativistas tiram seus peixes e mariscos, a água doce, os solos e lavouras. Na bula do agrotóxico é recomendado que o Norton não seja utilizado “em áreas situadas a uma distância inferior a 500 metros de povoação e de mananciais de captação de água para abastecimento público e de 250 metros de mananciais de água, moradias isoladas, agrupamentos de animais e vegetação suscetível a danos”. A contaminação do Quilombo fica evidente neste relato de um morador:

 

“O eucalipto não desenvolve a comunidade. E sabe o que é pior? Quando chove a água leva o veneno todo da plantação pra maré. Tá ruim para os homens que trabalham mais na roça e nas fazendas e pras mulheres que mariscam. Na fazenda mesmo, elas não vão mais mariscar, não tem mais nada lá, não tem mais mapé, marisco nenhum. A água do açude do Sinunga ninguém usa mais pra beber”.

 

Através de entrevistas e investigações de documentos públicos, descobrimos que o Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos – INEMA, o órgão estadual responsável por analisar a viabilidade ambiental dos plantios de eucalipto, dispensou os fazendeiros da necessidade de licenciamento, ou seja, deixou que estes se instalassem sem exigir que estudos de impactos fossem feitos. Sem estes estudos, é mais difícil obrigar os fazendeiros e a empresa a repararem os danos causados.

 

 E o absurdo não acaba por aí! A desculpa para dispensar as fazendas de eucalipto do licenciamento ambiental foi a de que as áreas de plantio eram pequenas. Na verdade, pegaram uma enorme área de eucalipto que beneficia uma única empresa, a BSC-COPENER, e fatiaram em pequenas fazendas, como se cada uma delas fosse um negócio independente, de baixo impacto ambiental, sem necessidade de licença. As análises do INEMA foram feitas a partir de cada pedacinho, para que essa desculpa de “pequenas áreas de plantio” pudesse ser dada. Verificando os nomes dos proprietários dessas fatias de terra, o Café Preto identificou que muitos possuem parentesco. De fatia em fatia, o quilombo do Guaí acabou engolindo o bolo inteiro, um bolo envenenado!

 

A luta contra a indústria do eucalipto revela conflitos entre distintos modos de vida: um que vê a terra como um mero objeto para se extorquir e lucrar e outro que percebe a terra como um lar, indispensável para a manutenção da vida e dos laços comuns. A história se repete há mais de 500 anos: mudam-se os ritos, mas não os planos. E o luto é presença certa nos mangues e quilombos, sejam eles rurais, como no Guaí, ou urbanos, como no Rio dos Macacos.


Após tantos anos, a resistência não muda de lado, não é ponto de fuga. É centelha incasável, labuta diária que enche o cofo do que dá, que encobre o corpo de lama, acolhimento farto para o alimento incerto de suas crianças.

 

Os fazendeiros se aproximam. A marisqueira e quilombola M.G, 68 anos, empunha o seu farracho como quem segura uma arma em tempos de guerra. Com uma força que resgata a luta de seus ancestrais enterrados ao fundo de sua casa, grita aos homens:

 

"Só saio daqui morta!"

 

Saiba mais:

As dispensas de licenciamento ambiental emitidas pelo INEMA mediante fracionamento do empreendimento da COPENER/BSC Celulose são as de nº 2013.001.001006, 2013.001.001004, 2012.001.000103, dispensa de licenciamento ambiental s/nº de 11 de abril de 2012 (Processo nº 2012-005261/TEC/DLA-0098, em nome da esposa do fazendeiro da dispensa anterior) e 2016.001 .040935, totalizando uma área de cerca de 300 hectares de plantio de eucalipto no interior do territorio quilombola. O nome de M.G. foi ocultado nesta materia para manter a segurança e integridade fisica da fonte. As iniciais do nome podem não ser verdadeiras. O Café Preto prima pela confiança e segurança de tod@s que contribuem para a construção do jornal. Os demais relatos foram cedidos por Carolina Sapucaia e disponibilizados em seu trabalho "QUANDO O EUCALIPTO CHEGA NA MARÉ: estudos sobre os impactos territoriais da monocultura de eucalipto nas comunidades quilombolas do Guaí – Maragojipe(BA)", ano de 2016, pelo curso de Geografia da Universidade Federal da Bahia.

 


1Um comentário

  • 570755aacedb9b580d654d57c8f6e4ab?only path=false&size=50&d=404Anônimo(usuário não autenticado)
    10 de Outubro de 2017, 22:35

    Triste realidade

    Que situação de terror e opressão... e ainda tem gente que acredita que virá um salvador nas próximas eleições resolver tudo isto!


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