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Quem são os donos da festa?

4 de Novembro de 2015, 0:19 , por Rodrigo Souto - | Ninguém está seguindo este artigo ainda.
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Algumas das coisas mais interessantes da cidade do Salvador são as festas de largo e as festas populares em geral. Lavagem do Bonfim, festa de iemanjá, carnaval e muitas outras festas de rua fazem parte da cultura soteropolitana. Atualmente, vemos que muitas dessas manifestações culturais se transformaram ou estão se transformando em algo diferente de suas origens, se distanciando do seu caráter popular, se tornando cada vez mais elitistas e segregando as pessoas pobres cada vez mais. As festas não são mais do povo para o povo, são feitas pelas grandes empresas para a classe média e os turistas.

Não é necessário ser muito velho para se lembrar da época em que as festas de rua de Salvador eram realmente populares. Tais eventos faziam as pessoas ocupar as ruas com manifestações culturais sagradas e profanas onde a população, sobretudo, mais pobre era peça fundamental. Atualmente, após certas mudanças, muitas festas de rua estão cada vez mais “brancas” e estrangeiras.

Não é de hoje que as cordas dos blocos de carnaval separam a população. Porém, O isolamento da corda já não é mais suficiente para segregar as pessoas, e a burguesia, para se sentir diferente, investe em camarotes. O problema é que com essa migração da corda pro camarote, não restou quem financie o desfile dos trios. Por isso, esse elitismo fez a indústria do carnaval perder força, e hoje já se fala em uma crise nesse setor. Uma possível saída dessa crise seria apostar em blocos sem cordas financiados por patrocínios, pela prefeitura e pelo governo do Estado. Essa tendência já vem sendo praticada e foi um dos diferenciais do carnaval deste ano. A festa estaria voltando a ser popular. Mas será que é isso mesmo que está acontecendo?
Uma das características mais marcantes da gestão de ACM Neto é a sua especial atenção às festas populares. Mas devemos pensar como é dada essa atenção. As festas de rua de Salvador deixaram de ser populares, com portões de acessos, proibição do livre transito de comerciantes, exclusividade para empresas de cerveja, e sobretudo, extrema vigilância e truculência policial. O cidadão se torna consumidor, a pessoa já não pode mais andar livremente pela rua, existem portões e grades que delimitam o espaço que é controlado e vigiado. Por enquanto o carnaval ainda não é uma “festa fechada”, ainda não possui grades e portões, mas tal alternativa já é pensada e pode se tornar real no próximo ano.


 

O argumento que geralmente é usado pra justificar esse tipo de elitismo é a questão da segurança. Seria necessário cercar o espaço e enchê-lo de policiais porque a sociedade é violenta e as pessoas são mal educadas. Porém, o que ocorre na realidade é que a violência muitas vezes brota da própria polícia que é militarizada, que é preparada pra guerra e não pra lidar com pessoas. Enquanto isso, a empresa cervejeira que puder arrematar a festa, lucra milhões através das revistas de “segurança” que impedem que a pessoa entre com outra bebida no local. A justificativa da preocupação com a segurança sempre esteve ligada à criação de mecanismos de controle. Sempre que há um problema com violência ou algo do tipo, a solução sempre aparece através de mais vigilância e mais punição. Mas será que essas são soluções válidas?

O que se percebe na prática é que de tais medidas de proteção ocorrem duas coisas. Primeiramente, as ações de segurança visam um tipo especifico de pessoas. A nossa sociedade é racista, e a nossa polícia também. As abordagens à pessoas negras e que aparentem ser de bairros pobres são desumanas. A lógica se inverte e em vez de ser “inocente até que se prove o contrário” essas pessoas são “culpadas até que se prove o contrário”, e essa prova é sempre muito invasiva e humilhante. Por fim, a cidade privatiza seus espaços para as empresas patrocinadora dos eventos. Assim como foi durante os eventos da copa do mundo, as festas populares estão se tornando festas de empresas privadas, que monopolizam a distribuição de bebidas e até de comidas. O problema disso não é simplesmente que as pessoas não vão poder degustar sua marca de cerveja preferida, mas sim que muitos trabalhadores ambulantes são impedidos de trabalhar, ou devem se sujeitar à padronização da festa.

Dessa forma, o que acontece é que, em nome da “segurança” e do patrocínio, a prefeitura vem privatizando espaços e festas que deveriam ser populares. Com o espaço cercado, vigilância e cerceamento da liberdade, as festas deixam de ser populares, deixam de ser do povo e passam a ser das grandes empresas. A energia que cria e mantém as festas de rua está desaparecendo cada vez mais por conta dessas ações. Os donos da festa deixam de ser as pessoas, e passam a ser as empresas que alugam o espaço público para gerencia-lo como bem entender.