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Na Lata

4 de Novembro de 2015, 0:15 , por Rodrigo Souto - | Ninguém está seguindo este artigo ainda.

Sentimentos em Decibéis: a produção de música na periferia

aproximadamente 21 horas, por anarcksattack - 0sem comentários ainda

Veja como essa matéria saiu na versão impressa aqui no PDF

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                                   Sentimentos em decibeis

 

Quando se trafega por um dos maiores bairros da América Latina a sensação não poderia ser outra, vertigem! ! ! Em Cajazeiras bem vale a máxima “cada quebrada um mundo, cada mundo uma realidade”.  No comércio popular quase tudo se encontra, por sua vez, nas praças, esquinas e em diversos espaços improvisados vemos estampados as manifestações viscerais da rotina vivida. Da ameaça constante de uma abordagem truculenta da polícia às vozes dos ativistas que não se calam frente as injustiças, tá tudo aqui! Nesse fluxo urbano, o Café-Preto foi parar nos estúdios da produtora Kza da Véa para um bate-papo com Ojuara das Beats, produtor musical responsável pelos processos de gravação, masterização, mixagem e mais uma pá de coisa. É assim que logo no início da nossa conversa Ojuara relata o poder que a música tem na sua vida como produtor.


Ojuara das Beats: A música faz parte da vida do ser humano de uma forma muito complexa, eu já li muitas coisas e entre estas nunca vi nada que explicasse de fato este poder. Pra mim produção musical é materializar em decibéis todos os meus sentimentos, tudo aquilo que eu não consigo falar de forma natural. Existem coisas na vida que as palavras não conseguem explicar e às vezes a emissão de um som demonstra muito mais. 

 

Instigado por esta visão apontada por ele perguntamos: como é viver de música na periferia?


Ojuara das Beats: Tive que abrir mão de muita coisa pra hoje estar produzindo no Kza da Véa. Quantas vezes já não me perguntei, “eu tenho talento, a galeria elogia meu trabalho e porque eu não tô lá no topo também?” E as vezes a música não tá ali pra você viver dela, mas pra você usá-la, falar pra outras pessoas o que em uma conversa normal elas não conseguiriam chegar. Dentro da periferia, hoje, a gente tem uma carência muito grande de um polo cultural. Geralmente o que tem aqui dentro é uma própria manifestação periférica, o nosso governo investe lá pelo centro, Pelourinho, Rio Vermelho... Então o acesso se torna maior pra galera que mora lá, mas e os moleques que moram aqui na periferia?


Café Preto: E aí? como é que faz?


Ojuara das Beats: Eu, manifestante da periferia,como posso ajudar essa galera que sonha que nem eu? Porque meu governo não ajuda, eu também não quero cobrar eles, não tô nem aí pra o que eles vão fazer. Se eles não fazem, a gente faz, tem que fazer, e o que eu fiz? Eu peguei meu talento e minha disposição pra trabalhar e fui convidando os manos pra colar aqui no Kza.


Café Preto: E o lance dos instrumentos e equipamentos como é que fica?


Ojuara das Beats: Não é a aparelhagem que faz a música, que vai fazer a produtora, é o quanto de conhecimento e criatividade que você tem. É preciso ver todo o equipamento como uma ferramenta, não como a solução perfeita dos seus problemas. Toda sua técnica, talento, musicalidade não pode se resumir a um instrumento mais caro.Então, a música tá no equipamento ou está em você?

 

Logo kza da vea Curtiu, queria mais? Acompanhe mais dos conteúdos do Kzadavea no seu canal de vídeos: Kzadavea Rec 

 

 

Img ojuara

 

 



Hip Hop - A Periferia Segue em Resistência

mais de 1 ano, por Rodrigo Souto - 0sem comentários ainda

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Hip Hop
A Periferia Segue em Resistência

 

Desde pequenos somos treinados a não enxergar o que acontece sob nossos olhos, perspectivas pra valorizar o que nos empurram goela a baixo. Crescemos mal alimentados, ingerindo um cardápio que nos deixa resignados, alienados, produção em série de valores importados. Aos poucos e por diferentes caminhos enxergamos a malícia, a mentira fabricada. Assim, nos damos conta da importância em se enfiar o dedo na ferida. Nessa edição, um diálogo aberto com artistas da periferia, entendendo um pouco mais das dificuldades e das conquistas em resistir e produzir aquilo que verdadeiramente se acredita. No bairro de Cajazeiras, conversamos com Nid e Jhoy que compõem a Apologic MC's, e o Bboy Makito.

 

Nid_e_jhoy

 

Nid: A Apologic começou em 2009, a princípio a gente tinha uma ideia muito diferente do que é agora. Então foi um processo meio que lento, assim, de a gente tomar aquele choque de realidade. Através da caminhada, a gente observando os familiares próximos falecendo, a dor dos vizinhos com a opressão da polícia, o descaso do governo com o nosso bairro, a dificuldade que a gente enfrentava e enfrenta até hoje por ser negro e morar na periferia. A gente foi criando um senso de justiça, de estar podendo relatar esses acontecimentos através da música.

Makito: Há pouco tempo eu fiz um evento com um amigo chamado Nelson Vilaronga a gente fez um evento ali na barra chamado “Uma roda de conversa”. O tema era “Por uma cor a mais em minha alma” esse tema foi ele que bolou essa ideia. A gente tava com esse seguimento, de já ta desgastando já essa parada das intolerâncias, racial e de gênero, sabe? As pessoas não estão conseguindo respeitar o espaço das outras... E isso de certa forma vai criando movimentos como esse de trazer uma nova perspectiva, de mostrar a essas pessoas que existe todo um outro mundo diferente onde as pessoas se aceitam como elas são, sacou? A gente passou um video falando sobre uma tribo Pataxós daqui da Bahia mesmo, e ai foi muito interessante porque já trouxe coisas que eu não sabia, que essa tribo Pataxó já tinha passado por um massacre, que morreu mais de 50 cabeça dessa tribo. E eu vejo esse momento aqui dessa mesma forma. São os momentos pra gente pôr uma cor a mais a nossa alma mesmo, velho, de começar a entender o nosso colega e entrar na briga deles também, tá ligado?

Café Preto: Pensando no cenário underground hoje na Bahia, o que é que tem de tabu aí?

Nid: Rapaz eu acho que aqui o que impera muito é a hipocrisia, porque independente do estilo musical a galera tem aquela onda da rivalidade de "se eu ver um cara apresentando um som com qualidade eu não vou ficar feliz pela evolução dele e sim olhar ele como um concorrente". "Então o que eu tiver de novo eu não vou querer passar pra ele, porque ele pode aprender e melhorar ainda mais". Então existe esse receio de você fazer parceria com outras pessoas. Porque na minha visão, você podendo passar informação e receber outra é como se você adquirisse outra visão, é outro campo de visão você tá entendendo? Outro ponto de vista que você não teria enxergado, e que a pessoa já tem, e essa troca de informação poderia fazer esse núcleo crescer mais e mais. Mas enquanto essa galera ficar nessa de individualidade e olhar outro grupo como rival eu acho que isso aqui não vai crescer pra lado nenhum
Lata_spray

Jhoy: As vezes a gente acha que porque a galera tá gritando nosso nome, a gente tá em cima do palco, ou a gente tá promovendo alguns eventos, as vezes a gente acha que já tá no topo da cadeia, e sendo que a gente não tá fazendo porra nenhuma pela periferia que a gente diz que vai defender. Que a gente jurou defender, que a gente jurou lutar com as nossas letras e nossos beats. Hoje em dia o rap se define em bons flows, boas beats e esquecendo o conteúdo... tem que ser a beat mais louca, o estilo mais louco, a letra mais louca, e o conteúdo man? Como é que a gente vai reabilitar os moleques? Como é que a gente vai parar essa guerra que tá acontecendo?



Quem são os donos da festa?

quase 2 anos, por Rodrigo Souto

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Algumas das coisas mais interessantes da cidade do Salvador são as festas de largo e as festas populares em geral. Lavagem do Bonfim, festa de iemanjá, carnaval e muitas outras festas de rua fazem parte da cultura soteropolitana. Atualmente, vemos que muitas dessas manifestações culturais se transformaram ou estão se transformando em algo diferente de suas origens, se distanciando do seu caráter popular, se tornando cada vez mais elitistas e segregando as pessoas pobres cada vez mais. As festas não são mais do povo para o povo, são feitas pelas grandes empresas para a classe média e os turistas.

Não é necessário ser muito velho para se lembrar da época em que as festas de rua de Salvador eram realmente populares. Tais eventos faziam as pessoas ocupar as ruas com manifestações culturais sagradas e profanas onde a população, sobretudo, mais pobre era peça fundamental. Atualmente, após certas mudanças, muitas festas de rua estão cada vez mais “brancas” e estrangeiras.

Não é de hoje que as cordas dos blocos de carnaval separam a população. Porém, O isolamento da corda já não é mais suficiente para segregar as pessoas, e a burguesia, para se sentir diferente, investe em camarotes. O problema é que com essa migração da corda pro camarote, não restou quem financie o desfile dos trios. Por isso, esse elitismo fez a indústria do carnaval perder força, e hoje já se fala em uma crise nesse setor. Uma possível saída dessa crise seria apostar em blocos sem cordas financiados por patrocínios, pela prefeitura e pelo governo do Estado. Essa tendência já vem sendo praticada e foi um dos diferenciais do carnaval deste ano. A festa estaria voltando a ser popular. Mas será que é isso mesmo que está acontecendo?
Uma das características mais marcantes da gestão de ACM Neto é a sua especial atenção às festas populares. Mas devemos pensar como é dada essa atenção. As festas de rua de Salvador deixaram de ser populares, com portões de acessos, proibição do livre transito de comerciantes, exclusividade para empresas de cerveja, e sobretudo, extrema vigilância e truculência policial. O cidadão se torna consumidor, a pessoa já não pode mais andar livremente pela rua, existem portões e grades que delimitam o espaço que é controlado e vigiado. Por enquanto o carnaval ainda não é uma “festa fechada”, ainda não possui grades e portões, mas tal alternativa já é pensada e pode se tornar real no próximo ano.


 

O argumento que geralmente é usado pra justificar esse tipo de elitismo é a questão da segurança. Seria necessário cercar o espaço e enchê-lo de policiais porque a sociedade é violenta e as pessoas são mal educadas. Porém, o que ocorre na realidade é que a violência muitas vezes brota da própria polícia que é militarizada, que é preparada pra guerra e não pra lidar com pessoas. Enquanto isso, a empresa cervejeira que puder arrematar a festa, lucra milhões através das revistas de “segurança” que impedem que a pessoa entre com outra bebida no local. A justificativa da preocupação com a segurança sempre esteve ligada à criação de mecanismos de controle. Sempre que há um problema com violência ou algo do tipo, a solução sempre aparece através de mais vigilância e mais punição. Mas será que essas são soluções válidas?

O que se percebe na prática é que de tais medidas de proteção ocorrem duas coisas. Primeiramente, as ações de segurança visam um tipo especifico de pessoas. A nossa sociedade é racista, e a nossa polícia também. As abordagens à pessoas negras e que aparentem ser de bairros pobres são desumanas. A lógica se inverte e em vez de ser “inocente até que se prove o contrário” essas pessoas são “culpadas até que se prove o contrário”, e essa prova é sempre muito invasiva e humilhante. Por fim, a cidade privatiza seus espaços para as empresas patrocinadora dos eventos. Assim como foi durante os eventos da copa do mundo, as festas populares estão se tornando festas de empresas privadas, que monopolizam a distribuição de bebidas e até de comidas. O problema disso não é simplesmente que as pessoas não vão poder degustar sua marca de cerveja preferida, mas sim que muitos trabalhadores ambulantes são impedidos de trabalhar, ou devem se sujeitar à padronização da festa.

Dessa forma, o que acontece é que, em nome da “segurança” e do patrocínio, a prefeitura vem privatizando espaços e festas que deveriam ser populares. Com o espaço cercado, vigilância e cerceamento da liberdade, as festas deixam de ser populares, deixam de ser do povo e passam a ser das grandes empresas. A energia que cria e mantém as festas de rua está desaparecendo cada vez mais por conta dessas ações. Os donos da festa deixam de ser as pessoas, e passam a ser as empresas que alugam o espaço público para gerencia-lo como bem entender.