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As Minas e o RAP

11 de Maio de 2016, 0:07 , por Rodrigo Souto - 0sem comentários ainda | Ninguém está seguindo este artigo ainda.
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Rima_mina

 

O dia-a-dia das mulheres pobres, majoritariamente negras, é labuta, trabalho explorado pelo patrão, ou pela patroa, trabalho dobrado em casa, e ainda ter que lidar com os padrões de beleza, de roupa, de agir... Pode até bater o cansaço, mas se juntar com outras mulheres e rimar o que acontece com a gente é poesia que alimenta a mente e fortalece o corpo para lutar. Cada vez mais novas, as meninas se jogam no RAP e gritam cheias de auto confiança, denúncias do trabalho, do racismo, do machismo que explora, marginaliza e machuca, afirmam o que precisa mudar. A rima, o processo criativo, especialmente quando compartilhado ou produzido coletivamente, fortalece a auto percepção das mulheres e nos indica o quanto somos mais fortes quando estamos juntas.


Jana_na_noblatAs ideias e experiências que o RAP propaga na periferia, fortalecem a autoestima e alertam para os problemas enfrentados pela população pobre. Com suas rimas, o RAP abre o diálogo sobre assuntos que muitas vezes são excluídos do debate na sociedade. Por isso é importante destacar o papel histórico das mulheres negras na denúncia e na luta por expressão no Hip Hop. Conquistando cada vez mais o seu espaço, as mulheres passam por cima das imposições de comportamento da sociedade e compartilham suas experiências, mandando o seu recado e batendo de frente com todas as formas de opressão. Aqui em Salvador não poderia ser diferente, conversamos com algumas minas que vem se articulando, fazendo rimas combativas, participando de batalhas, e promovendo diversos eventos desta cultura de resistência.


Priscila_sinaPriscila Sina Frenética, rapper de Salvador, afirma que “a cena de mulheres no RAP vem se ampliando”, e não apenas nas batalhas como também com outras propostas de trabalho. Recentemente, por exemplo, a abertura do show de Racionais em salvador foi com Cintia Savoli e Dj Nai Sena, integrantes do coletivo Rima Mina. Apesar disso, ainda é comum ver nas batalhas rimas de caráter homofóbico e machista, que subestimam a capacidade das mulheres de fazer uma rima de qualidade equiparada a dos homens já consagrados. Apesar de ser cultura de resistência, o RAP também reflete o machismo existente na sociedade. Porém, na medida em que as mulheres avançam, o machismo nos espaços vai retrocedendo. E como afirma Priscila, "Ser mulher no RAP é ser guerreira mesma, por que o machismo nos inibe e tende a nos afastar. Tem que lutar pelo seu espaço e respeito".

O Coletivo Rima Mina é um espaço de articulação e formação que atua em Salvador e junta vários elementos do Hip Hop para promover a troca de experiência entre mulheres. Possibilitando o encontro entre as mulheres que já estão no RAP e as de todas as idades que querem conhecer a cultura do hip hop e aprender a arte da rima. Mas não para por aí, como ressalta Sista Katia, integrante do coletivo, a ideia é que as mulheres aprendam e passem adiante, contribuindo no processo de empoderamento umas das outras, criando assim uma rede. As formações realizadas pelo coletivo, que contavam com oficinas de métrica, ritmo, tipos de beat, exercícios de freestyle para mulheres, dentre outros, culminaram na primeira batalha feminina de MC's baiana, da qual saiu Janaina Noblat enquanto representante da Bahia para a batalha feminina nacional.

 

“Se quiser falar de mim, ah, to nem ai, no comando da minha vida eu que mando nessa porra aqui, mãe solteira, na labuta, de segunda a sexta-feira, eu não tô de brincadeira e nem me estresso com besteira.”

(Sobrevivente da Rua – Cintia Savoli e Mirapotira)


Fora das periferias podemos ver em novelas, propagandas e programas, a apropriação de expressões, comportamento e estilo do Hip Hop, numa tentativa de ampliar o número de consumidores... enquanto isso, a população que cria e resiste na arte de rua continua sem reconhecimento e sem conseguir se sustentar através do RAP. A maioria das mulheres, inclusive a MiraPotira, rapper guerreira, destaque que desde 2004 está batalhando no RAP e no freestyle, ainda não consegue retirar seu sustento, atualmente é vendedora autônoma na Lapa, e é com esse trabalho que ela sobrevive. Cintia Savoli, rapper batalhadora, é professora de música em uma escola. Sista Katia, grafiteira, utiliza o grafite como um trabalho político, recebendo comercialmente só em trabalhos pontuais, faz vídeos e diversos trabalhos para sustento. Janaina trabalha ajudando a mãe vendendo lanche.

Os homens rappers conseguem articulação para gravação de cds ou tocar em mais espaços, essas oportunidades são menores para as mulheres.

 

"Avante! Revolução! O peso dos versos vão vir de acordo com a força da sua opressão!"

(Voz dos Excluídos - Cintia Savoli)

 

Sista Katia e Janaina sinalizam que as mulheres foram criadas para não serem das ruas, para estarem em casa, no espaço doméstico, participar da rua ainda é uma barreira. Janaina traz que o RAP permitiu e tem permitido à ela um processo de libertação, permite se ouvir. Mais ainda, permite falar, gritar e se colocar enquanto mulher no comando de si.


O hip hop é mais um espaço capaz de fortalecer as mulheres e colaborarem seu processo de formação e empoderamento, e o hip hop só cumpre sua função de resistência e denúncia se estiver aberto e atento às resistências específicas das mulheres. O elemento mais revolucionário do RAP é inspirar e fortalecer quem mais sofre na sociedade dominada pelos homens, brancos, empresários. Rap é compromisso, não é viagem.

 

SACA O SOM!

 

NegaGizza - Prostituta

Visãode Rua - Periferia é o Alvo

CRISSNJ - "De Guerreira"

Sharylaine- Brasileiras

MiraPotira - Conteúdo é o que vale

RPW - Talento não morre... Recicla!

Odisséiadas Flores - Não Não Não

SaraDonato - Peso Na Mente

BêO – Culpa minha?

NoBlah- Doce Ilusão

AtitudeFeminina - Rosas

SilKaiala - Eu Sou Neguinha

CintiaSavoli - Ateliê da Maldade

PriscilaSina - Freneética

 

Simbolo-feminismo


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