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Lugar de Mulher

9 de Setembro de 2015, 21:14 , por Rodrigo Souto - | Ninguém está seguindo este artigo ainda.

As Minas e o RAP

mais de 1 ano, por Rodrigo Souto - 0sem comentários ainda

 

Veja como essa matéria saiu na versão impressa aqui no PDF.


Rima_mina

 

O dia-a-dia das mulheres pobres, majoritariamente negras, é labuta, trabalho explorado pelo patrão, ou pela patroa, trabalho dobrado em casa, e ainda ter que lidar com os padrões de beleza, de roupa, de agir... Pode até bater o cansaço, mas se juntar com outras mulheres e rimar o que acontece com a gente é poesia que alimenta a mente e fortalece o corpo para lutar. Cada vez mais novas, as meninas se jogam no RAP e gritam cheias de auto confiança, denúncias do trabalho, do racismo, do machismo que explora, marginaliza e machuca, afirmam o que precisa mudar. A rima, o processo criativo, especialmente quando compartilhado ou produzido coletivamente, fortalece a auto percepção das mulheres e nos indica o quanto somos mais fortes quando estamos juntas.


Jana_na_noblatAs ideias e experiências que o RAP propaga na periferia, fortalecem a autoestima e alertam para os problemas enfrentados pela população pobre. Com suas rimas, o RAP abre o diálogo sobre assuntos que muitas vezes são excluídos do debate na sociedade. Por isso é importante destacar o papel histórico das mulheres negras na denúncia e na luta por expressão no Hip Hop. Conquistando cada vez mais o seu espaço, as mulheres passam por cima das imposições de comportamento da sociedade e compartilham suas experiências, mandando o seu recado e batendo de frente com todas as formas de opressão. Aqui em Salvador não poderia ser diferente, conversamos com algumas minas que vem se articulando, fazendo rimas combativas, participando de batalhas, e promovendo diversos eventos desta cultura de resistência.


Priscila_sinaPriscila Sina Frenética, rapper de Salvador, afirma que “a cena de mulheres no RAP vem se ampliando”, e não apenas nas batalhas como também com outras propostas de trabalho. Recentemente, por exemplo, a abertura do show de Racionais em salvador foi com Cintia Savoli e Dj Nai Sena, integrantes do coletivo Rima Mina. Apesar disso, ainda é comum ver nas batalhas rimas de caráter homofóbico e machista, que subestimam a capacidade das mulheres de fazer uma rima de qualidade equiparada a dos homens já consagrados. Apesar de ser cultura de resistência, o RAP também reflete o machismo existente na sociedade. Porém, na medida em que as mulheres avançam, o machismo nos espaços vai retrocedendo. E como afirma Priscila, "Ser mulher no RAP é ser guerreira mesma, por que o machismo nos inibe e tende a nos afastar. Tem que lutar pelo seu espaço e respeito".

O Coletivo Rima Mina é um espaço de articulação e formação que atua em Salvador e junta vários elementos do Hip Hop para promover a troca de experiência entre mulheres. Possibilitando o encontro entre as mulheres que já estão no RAP e as de todas as idades que querem conhecer a cultura do hip hop e aprender a arte da rima. Mas não para por aí, como ressalta Sista Katia, integrante do coletivo, a ideia é que as mulheres aprendam e passem adiante, contribuindo no processo de empoderamento umas das outras, criando assim uma rede. As formações realizadas pelo coletivo, que contavam com oficinas de métrica, ritmo, tipos de beat, exercícios de freestyle para mulheres, dentre outros, culminaram na primeira batalha feminina de MC's baiana, da qual saiu Janaina Noblat enquanto representante da Bahia para a batalha feminina nacional.

 

“Se quiser falar de mim, ah, to nem ai, no comando da minha vida eu que mando nessa porra aqui, mãe solteira, na labuta, de segunda a sexta-feira, eu não tô de brincadeira e nem me estresso com besteira.”

(Sobrevivente da Rua – Cintia Savoli e Mirapotira)


Fora das periferias podemos ver em novelas, propagandas e programas, a apropriação de expressões, comportamento e estilo do Hip Hop, numa tentativa de ampliar o número de consumidores... enquanto isso, a população que cria e resiste na arte de rua continua sem reconhecimento e sem conseguir se sustentar através do RAP. A maioria das mulheres, inclusive a MiraPotira, rapper guerreira, destaque que desde 2004 está batalhando no RAP e no freestyle, ainda não consegue retirar seu sustento, atualmente é vendedora autônoma na Lapa, e é com esse trabalho que ela sobrevive. Cintia Savoli, rapper batalhadora, é professora de música em uma escola. Sista Katia, grafiteira, utiliza o grafite como um trabalho político, recebendo comercialmente só em trabalhos pontuais, faz vídeos e diversos trabalhos para sustento. Janaina trabalha ajudando a mãe vendendo lanche.

Os homens rappers conseguem articulação para gravação de cds ou tocar em mais espaços, essas oportunidades são menores para as mulheres.

 

"Avante! Revolução! O peso dos versos vão vir de acordo com a força da sua opressão!"

(Voz dos Excluídos - Cintia Savoli)

 

Sista Katia e Janaina sinalizam que as mulheres foram criadas para não serem das ruas, para estarem em casa, no espaço doméstico, participar da rua ainda é uma barreira. Janaina traz que o RAP permitiu e tem permitido à ela um processo de libertação, permite se ouvir. Mais ainda, permite falar, gritar e se colocar enquanto mulher no comando de si.


O hip hop é mais um espaço capaz de fortalecer as mulheres e colaborarem seu processo de formação e empoderamento, e o hip hop só cumpre sua função de resistência e denúncia se estiver aberto e atento às resistências específicas das mulheres. O elemento mais revolucionário do RAP é inspirar e fortalecer quem mais sofre na sociedade dominada pelos homens, brancos, empresários. Rap é compromisso, não é viagem.

 

SACA O SOM!

 

NegaGizza - Prostituta

Visãode Rua - Periferia é o Alvo

CRISSNJ - "De Guerreira"

Sharylaine- Brasileiras

MiraPotira - Conteúdo é o que vale

RPW - Talento não morre... Recicla!

Odisséiadas Flores - Não Não Não

SaraDonato - Peso Na Mente

BêO – Culpa minha?

NoBlah- Doce Ilusão

AtitudeFeminina - Rosas

SilKaiala - Eu Sou Neguinha

CintiaSavoli - Ateliê da Maldade

PriscilaSina - Freneética

 

Simbolo-feminismo



Na terra e no mar, nós vamos lutar!

aproximadamente 2 anos, por Rodrigo Souto - 0sem comentários ainda

Veja como essa matéria saiu na versão impressa aqui no PDF.


 

No Brasil, o direito das mulheres negras quilombolas e marisqueiras vêm sendo violado pelo estado há séculos. Nossas mulheres sofrem com a falta de políticas públicas, com a violência física, sexual, moral e com a destruição do seu ambiente natural, de seus modos de fazer, viver e criar tradicionais. As mulheres pescadoras e marisqueiras querem continuar nas águas dos rios, dos mares, dos manguezais e das lagoas, respeitando aquilo que a natureza pode oferecer, preservando a vida no ambiente, garantindo a alimentação de suas crianças e seu bem estar. Mulheres das águas têm o acúmulo necessário (fruto da experiência no enfrentamento da labuta de ser mulher, mãe, trabalhadora em casa e batalhadora da vida para garantir seu sustento) para denunciar e querer transformar o sistema em que vivemos que desapropria, marginaliza e mata a população pobre em nome do lucro de alguns grupos econômicos estrangeiros ou brasileiros.
 
Para Eliete Paraguaçu (Ilha de Maré), uma das mulheres que atua no Movimento de Pescadores e Pescadoras Artesanais: “O manguezal, por exemplo, é o berçário. Com o manguezal é que paga conta de água, é que paga conta de luz, o manguezal tem uma importância fundamental na vida da mulher pescadora, a gente cuida dele sabendo que cuidando do manguezal os nossos filhos tem alimentação garantida e a sociedade vai ter marisco de qualidade."
Essa qualidade e soberania alimentar, de que nos fala Eliete, está ameaçada pelos ditames econômicos capitalistas, já que "(...) nestes últimos tempos, esse modelo de desenvolvimento vem diferenciando e arrasando as áreas de mangue". O "modelo de desenvolvimento" denunciado por Eliete, promovido pelo Estado brasileiro a mando e desmando de empresários e fazendeiros, tem permitido a degradação do meio ambiente através de mega-projetos de incentivo ao agro e hidronegócio (quando vastas faixas de terra e água ao invés de livres para uso da população, vira um negócio lucrativo para uns poucos), inclusive nas áreas de preservação permanente, como manguezais e matas ciliares.

Esta política do Estado tem causado violência física, psicológica, sexual e afirmado a discriminação racial e social, além de utilizar ameaças de morte para amedrontar e expulsar a comunidade de seu território. O modelo capitalista de “desenvolvimento” cede lugar a grandes empreendimentos que, em nome do progresso, dizimam inúmeras comunidades tradicionais do campo, das águas e das florestas. Como exemplo, no caso das águas, este problema afeta pelo menos 1,5 milhões de pescadores e pescadoras artesanais, que são responsáveis por 70% do pescado no país.



Como foi dito, a violência do estado não incide apenas no meio ambiente, e como sempre, o corpo e a vida das mulheres são os primeiros a serem violados. São frequentes os casos de que quando as comunidades são ameaçadas, elas são as primeiras a sofrerem as perseguições. Essas perseguições ocorrem através de abusos sexuais, estupros, ameaças, e até mesmo a partir do adoecimento do corpo das mulheres. Eliete afirma que quando ocorrem derramamentos de óleo, decorrentes dos empreendimentos industriais locais, os corpos das mulheres marisqueiras ficam expostos e se contaminam. Além dos riscos de contaminação, ela relata que os corpos das mulheres pescadoras vem sendo abusados sexualmente porque quando as empresas se instalam no território trazem consigo “homens de fora” que trabalham por tempo determinado, e muitos desses homens, ao se depararem com áreas frequentadas apenas por mulheres, avançam e violam o corpo e vida destas mulheres  justificando através de uma subjetividade machista. Outro caso contado por essa marisqueira são dos corpos encontrados por pescadores nas áreas de pesca. Esses corpos pertencem a mulheres trabalhadoras do sexo que são atirados dos navios em alto mar. Estes fatos trazem insegurança e dificultam o trabalho destas mulheres e influenciam diretamente nas suas subsistências.

No Quilombo Rio dos Macacos, uma das comunidades mais antigas de resistentes da escravidão,  são públicas as falas das mulheres que sofreram estupros dos fuzileiros navais e outras violências como o espancamento, a tortura psicológica e o derrubamento de casas. Nas comunidades tradicionais, o ataque ao seu território significa também a invasão e a violência às mulheres.


Além das violências já apontadas, as mulheres moradoras de comunidades tradicionais não têm acesso às políticas públicas de saúde e educação. Apesar de compreendermos que as políticas sociais públicas não representam transformação na sociedade, estas são respostas que o Estado consegue dar à luta da classe trabalhadora, devendo portanto atender às necessidades desta classe ao invés de servir como mais um instrumento de violação das comunidades tradicionais. Em meio a esse contexto, Eliete questiona: Que modelo é esse que mata? Que modelo é esse que traz miséria? Ela mesma responde: "A intenção [desse modelo] é exterminar, é esconder a nossa origem, a nossa cultura, os nossos saberes e sabores".

É, portanto, para combater esse modelo capitalista, racista, feminicida (que mata sistematicamente mulheres) e todas as demais violações sofridas que as mulheres negras se organizam, a partir de princípios do cotidiano de solidariedade e o apoio mútuo. É nesse sentido que surge a Articulação Nacional de Pescadoras, segundo Maninha (pescadora organizada da ANP) "Vimos a necessidade de formar um grupo e nos fortalecer pela dificuldade de sempre estar indo de encontro em encontro. Formamos a ANP porque nada do que a gente falava era considerado por ninguém que não fôssemos nós mesmas. A dificuldade que sentimos foi porque eram poucas mulheres, pois seus companheiros não as deixavam sair para passar vários dias fora de casa. E ainda porque muitas não conheciam seus direitos". Dona Joana, pescadora organizada da ANP complementa: "A ANP surgiu quando o governo federal convidou as mulheres pescadoras do Brasil a participarem de um Congresso em Brasília para fazer discussões sobre a realidade das mulheres da pesca. Nós fizemos diversas propostas e nenhuma saiu do papel, por isso, resolvemos fundar a ANP, para que nossas pautas se fortalecessem e fossem conquistadas”.


As mulheres pescadoras atualmente se enfrentam com o Estado capitalista para garantir o direito de continuarem com seu modo de vida, através do território livre (que implica diretamente em autonomia financeira, moral, física e de seus corpos). Para os modelos de sociedade impostos pelos brancos-civilizados (capitalistas ou não), os modos de vida tradicionais são entraves para o desenvolvimento econômico brasileiro e precisam ser superados, assim as populações são dizimadas ou empurradas para as periferias das grandes cidades onde terão seu fazer, viver e criar destruídos.

Mesmo as comunidades tradicionais urbanas, como a Gamboa de Baixo, e a Chácara de Santo Antônio sofrem com esse movimento perverso civilizatório. Como afirma Eliete, "É uma pauta só: a vida das mulheres trabalhadoras do campo, das águas e das florestas estão ameaçadas por esse modelo que é perverso, que exclui, que assassina e que mata" e se o Estado considera as mulheres trabalhadoras tradicionais entraves para o desenvolvimento do país, afirmamos junto com Eliete, Maninha, Dona Joana e todas as mulheres que se organizam e lutam que "se entrave é garantia de território, a gente vai ser entrave" para defender não apenas o local de morada, mas também suas tradições afro-brasileiras, seu modo de vida e sua autoestima.