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Escalde o Plantão!

6 de Novembro de 2015, 1:42 , por Rodrigo Souto - | Ninguém está seguindo este artigo ainda.
O “Escalde o Plantão” é o espaço onde vocês terão a possibilidade de publicar matérias próprias, denúncias, divulgações de trabalhos libertários e autogeridos ou resistências populares e autônomas, desde que possuam relação com os objetivos do Café Preto e os nossos princípios! Também aceitaremos críticas, construtivas e destrutivas, sugestões ou dicas para o crescimento do próprio jornal. Qualquer dúvida, sugerimos a leitura do texto “Quem Somos”. Como construímos um veículo anarquista de informações, carregamos certos preceitos inegociáveis, como o a liberdade, apoio mútuo, solidariedade e a autonomia. Desta forma, possuiremos uma política editorial para análise dos textos do “Escalde o Plantão”, onde mensagens de cunho racista, machista, homofóbico, xenófobo, partidário, empresarial, religioso ou de qualquer viés autoritário ou opressor não serão publicadas. Ofensas e injúrias pessoais desconexas com os objetivos do Café Preto também não serão publicadas. Longe de estarmos instaurando uma censura no jornal, esta política editorial representa um cuidado com os nossos leitores e membros do Café Preto, que fielmente nos acompanha na expectativa de que sigamos firmes em nossos princípios libertários! Quaisquer vetos a publicações no “Escalde o Plantão” serão comunicados a suas/seus responsáveis com a respectiva justificativa, a fim de propiciar um melhor entendimento e diálogo entre as partes. Portanto, sentem-se, tomem um cafezinho preto, pelando e sem açúcar... e sintam fervilhar os seus corações, aquecer os seus neurônios, aguçar o sangue nos olhos e fortalecer o poder da sua voz! Escaldem tudo no plantão!!! Envie-nos seu material: contato@cafe-preto.org ;)

Ondas Indomáveis

mais de 2 anos, por Léo Lopes - 0sem comentários ainda

Ondas_indom_veis



A saída é anti-autoritária e anti-capitalista.

aproximadamente 3 anos, por Léo Lopes - 0sem comentários ainda

Por anônima roxa

De fato, a cisão entre os partidos sempre foi nas divergências em como operar o Estado. A justificativa tem como base a ideia de que as classes de trabalhadores são naturalmente desmobilizadas, despolitizadas (ou são pacificadas?) ou seja, não são capazes de se organizar e conduzir interesses coletivos nos espaços em que vivem e trabalham. Não podem apontar qual a melhor forma de organizar a política econômica, de se articular os transportes, proteger território, de relacionar centros educativos, locais estratégicos de postos de saúde, gerir seu espaço de trabalho com vistas ao bem público, exercer poder, enfim. Vimos e veremos que na história as posições políticas são resultado da prática política, é a justificativa da prática que tem conferido a legitimidade do poder.

Nas manifestações de junho já havia o sinal de que seja qual for a crise, vai ser resolvida com prisão e porrada. Mas esta mesma democracia, hoje, um apelo da “esquerda” e da direita, existe e precisa ser defendida apesar dos ataques que sofreu em toda a história política brasileira.Holly_motors

As perguntas que precisam ser respondidas são: quando que a população poderá decidir, a partir de própria experiência política, rumos do país? Quando que os instrumentos de reivindicação da classe trabalhadora vão defender os interesses de classe sem mediar valores com conchavos? Quando grupos de esquerda se organizarão numa perspectiva anticapitalista e contribuirão na articulação das reivindicações da classe trabalhadora? Como que o distanciamento das questões políticas vai permitir uma perspectiva consciente dos fenômenos sociais e políticos?

O que se vê é que a “esquerda”, há 14 anos, tem sentado tanto à mesa do parlamento e se deleitado com cargos institucionalizados ou burocráticos que perdeu total contato com a vida da classe mais pobre. A esquerda agora compõe uma classe conhecida, uma classe formada por intelectuais de renomadas universidades, jornalistas da grande mídia, políticos dos mais diversos partidos...a esquerda disputa ser a força discursiva resultante da classe intelectualizada, suas propostas são por dentro da instituição e buscam definir e redefinir o correr dos processos, selecionam eventos para compor o quadro conjuntural que justifica anos e anos de erros políticos. Hoje, na crise mundial econômica, período de grande instabilidade política no país, os descontentamentos com o governo se reduzem, na argumentação governista, à classe média e à elite ressentidas com um governo PT que defendeu "o povão". Todas as críticas da esquerda à forma de fazer política do PT e de sua militância, todas as críticas à coligação com o PMDB, se justificariam na argumentação governista a “uma esquerda que está num ninho de cobras (os espaços das figuras políticas do jargão boi, bala e bíblia) e se não é cobra, só pode ser a presa” Ou seja, quero dizer que o Partido dos Trabalhadores, por justificativas de conter o avanço neoliberal privatizante optou por solapar pouco a pouco direitos trabalhistas, os setores de educação e saúde públicos etc. O que não deixa de empurrar o país para um processo de privatização branda, esta que aos poucos terceiriza setores internamente, que concede a exploração de partes do território e de bens naturais a empresas estrangeiras. Talvez agora o Partido dos Trabalhadores e quem mais quiser testemunhar finalmente perceba que não existe qualquer possibilidade de transformação social ou do poder de longa data, muito menos estrutural, tendo por instrumento o Estado, apesar de haver um discurso oficial da esquerda que nega isto.

Está evidente que, de uma forma ou de outra, o Estado não deve ser um espaço disputável. Porque suas reformas tem prazo de validade. É um Estado instável. O Estado tem a tarefa de manter uma estrutura de divisão do trabalho e da propriedade e, portanto, toda sua estrutura foi montada para impedir qualquer transformação que seja estrutural. Prometer transformação social mediante o Estado é como tratar das instituições políticas e sociais como uma engrenagem, mecânica, troca-se as peças defeituosas e resolvido o problema. É esta ideia do Estado como uma estrutura 'que por si só' garante democracia que parece unificar hoje partidos de legendas (que parecem ser) antagônicas.
Bakunin
Democratas, Peessedebistas, Petistas se estapeiam na cidade para garantir eleição, para manter sua gestão, custe o que custar. Custe o que custar...é assim que na prática as mais diversas filiações partidárias em situação de governo operaram uma política de segurança análoga à ideia do Rui Costa, governador da Bahia, este considera que policial na favela é tipo um “artilheiro frente ao gol”. Na lógica dos governantes, cada morte se contabiliza como um gol e ainda, em geral, toda torcida parece querer ganhar de goleada.

Alguns instrumentos importante de luta das classes mais pobres, que deveriam cobrar e construir melhoras nas condições de vida de toda a população, são condicionados pelas direções, que atuam como freios e blindagem de partidos coligados.

Há crise política e há tempos, todo tipo de manifestação popular de reivindicação política ou é duramente reprimida ou é absurdamente cooptada pela instituições estatais. E esta crise mais estrutural faz parte das escolhas políticas feitas pela esquerda em congressos, nos acordões e politicagem para se manter no governo e garantir algumas reformas... Reformas importantes? Certamente. Reformas duráveis? Apenas o tempo em que o poder estiver sendo exercido para manutenção de privilégios de educação e propriedade. Deu crise, o setor mais fragilizado que quebra.

É, pegou para todo mundo, inclusive para quem nem chegou ainda, porque pela constante privatização de setores, consequente caça às bruxas de direitos trabalhistas e criminalização dos movimentos sociais temos uma articulação perfeita para a concentração de capital. O quadro é realmente pessimista e a classe que mais sofre estes impactos foi principalmente pacificada, um legado do PT e do PcdoB com sua política de consumo e  "facilidade" de crédito pra as classes pobres, na aparência pode-se até dizer que houve melhora, mas o resultado está na voraz concentração de capital que acirra conflitos sociais. A pacificação também se expressa através do sucateamento da educação e do seu papel sendo transferido para a política de segurança.

O papel de sindicatos, movimentos sociais, organizações autônomas nesta conjuntura política e em qualquer outra, é o de taticamente reivindicar melhoras nas suas condições (e qualidade) de vida e de trabalho às estruturas que competem e, principalmente, de forma estratégica, construir novos espaços de resistência. Sabem aquele discurso de que “O Brasileiro tem memória curta”?, então, acredito que a negação desse jargão popular está na ojeriza à política partidária, esta política que passa por cima de “alguns princípios” por um “motivo maior”. É assim que parece que os falseamentos, corrupções, propinas vão seguindo com protagonistas tanto da direita quanto da esquerda.

Em 1976, o DOI-Codi e dops, instrumentos da ditadura, invadiram uma casa, na Lapa (SP) e metralharam dirigentes do PCdoB e PCB, evento conhecido como a Chacina da Lapa. Em 2016, ainda famílias buscam justiça para os mortos da Chacina do Cabula (BA). Mas estes são mortos em uma democracia, como justificar isso? Polícia mata compulsoriamente nas periferias - mas o Estado implantou as cotas; A mortalidade de mulheres (por serem mulheres), o feminicídio, aumenta ano-a-ano - mas o Estado permitiu uma secretaria de políticas para mulheres. Expansão dos setores energético e industrial causando desastres sociais, como genocídio, e ambientais - mas o Estado garante a demarcação do território indígena. Pensar política e tomar postura de esquerda não pode se resumir aos argumentos e práticas que justificam a governabilidade, desenvolvimento e um equilíbrio, independente de quem esteja sofrendo com as regras do sistema.

A governabilidade justifica as articulações contraditórias, o desenvolvimento justifica a política social, e o equilíbrio sempre é a justificativa para o uso do cacete. Tudo isso para defender um “bem maior”. Não importa qual seja ele. Só argumentos que se hierarquizam em um “bem maior” que poderia colocar Renan Calheiros e PSTU pedindo eleições gerais. Vê. Será que a culpa é a plasticidade do PMDB?

Os governistas do PT, PcdoB, Consulta Popular, etc, que antes blindavam todas as críticas ao governo, agora as reconhecem no tom de que se as negassem estariam ainda mais fechados ainda em suas bolhas...Repress_o

Os governistas reconhecendo suas críticas, aderiram aos progressistas da Universidade “Contra o Golpe”. Os acadêmicos progressistas se perderam em estatísticas, dados, conceitos, processos institucionais, e por isso, se baseiam em números e história: a esquerda universitária está atuando com o olhar voltado para o passado sombrio da ditadura, o discurso é que tudo vai piorar com este impeachment. Não digo que não há semelhanças entre todo o processo da ditadura e nosso momento de democracia: ainda tem gente morrendo pelas mãos de latifundiários, nas cidades morrendo nos becos; o aprisionamento ainda domina como lógica de segurança. Na ditadura a maior parte da massa segue sua vida sendo convencida do sistema, e muita gente que não se encaixa ou se revolta pode ser morta. Em democracia representativa, a maior parte da massa segue sua vida sendo convencida do sistema, e muita gente que foi marginalizada ou se revolta pode ser morta. Nesta democracia, o Estado não precisa mais perseguir tanto comunistas, hoje, 'estes são mais razoáveis'. Quem é o marginalizado do sistema é quem pode desaparecer ou morrer.

É preciso olhar o presente, mas não sob olhos dos meios de comunicação de massa. Se percebermos que diante de uma crise econômica, o período é de acirramento de conflitos políticos e sociais e que precisamos estar organizados de forma antiautoritária e anticapitalista, construindo estratégias de luta cada vez mais articuladas, isso nos direciona para pensarmos nossa atuação nos locais em que estamos inseridos e o que podemos fazer a partir dos problemas gerados pela crise nestes locais.

O pressuposto dos "Governistas" é que com o “golpe” haverá um maior avanço neoliberal, de privatizações e perda de direitos, um caos político e social. A manutenção de Dilma no executivo é colocada como garantia do Estado democrático brasileiro. Parece que não contam com a arbitrariedade da estrutura estatal e o alinhamento do neoliberal/desenvolvimentista do governo petista. O governismo avalia que, na verdade, o PT age na contenção de um avanço neoliberal que sob outro governo seria mais intenso. Assim, a forma de lidar com a crise política é argumentar pela legalidade e ter a parcimônia, caso Dilma permaneça no executivo, porque “o povo brasileiro precisa enfrentar junto a agora admitida crise econômica mundial”.

O pressuposto dos "Golpistas" é que com o “impeachment”, e este deve ocorrer custe o que custar, o país se recuperará da crise política e econômica com mais rapidez, cortará ainda mais os gastos em setores públicos, “dinamizará” ou “privatizará” a gestão de setores e instituições. Parece crer que o impeachment de Dilma vai reestabilizar a política e assim poderá tomar as 'melhores' medidas para reestabilizar a economia. Mas ora, estas medidas são justamente o avanço maior neoliberal, de privatizações e perda de direitos, de onde emergem os conflitos sociais. Já o não impeachment gerará uma não-governabilidade, ou seja, um período de caos político no parlamento que também acirra conflitos sociais.
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O caos político e social parece que é inevitável. Mas precisamos nos organizar urgentemente de maneira mais articulada e voltados para o presente, para este exato momento de caos, para avaliarmos de que forma podemos verdadeiramente conter o avanço neoliberal. Numa perspectiva anarquista, sem o apego governista ou paragovernista ou golpismo neoliberal à legalidade burguesa. Infelizmente os progressistas em geral e a “esquerda” se posicionam, mais uma vez na história, a favor da manutenção do status quo. Desculpem, mas esta defesa toda à democracia e à legalidade só pode vir de quem tem um pouco mais de privilégio nela.

Sabe-se que não dá para fazer coro com o “golpismo neoliberal” e que também não dá para defender os moldes da democracia burguesa. Há uma aparente polarização no debate político, “Não vai ter golpe” e “Impeachment Já”, ambos os slogans tem por base a defesa do exercício da "representação democrática" por parte de grupos muito bem definidos em termos de classe social. Estas polarizações políticas, um vício do sistema eleitoral, continuam colocando para debaixo do tapete todas as contradições próprias do nosso formato de sistema político e econômico.

Ora, onde é que vai dar certo conciliar interesses antagônicos? Crise política faz parte: um bocado de elite em torno do poder centralizado para garantir seus interesses, um punhadinho que acredita que devem haver reformas progressistas (considerando que são qualitativamente distintos) e todos sob interesses de megaproprietários nacionais e internacionais? Democracia implica equilíbrio de interesses, aquela ideia de igualdade geral. Se não tem isso, é democracia de quê que se defende? Democracia de elites políticas?

Governistas utilizaram muito bem o discurso remontando o golpe de 64, assim conseguem mobilizar o sentimento de um grupo progressista, alguns “revolucionários” da época, que viveram e lutaram contra a ditadura, um grupo que perdeu o elo com o cotidiano das classes sociais mais pobres a ponto de achar que tem algo para ser defendido. Este grupo tem sua própria condição de classe, que promove o distanciamento da realidade de quem não é considerado mão de obra qualificada. Esta condição de classe é o resultado das exaustivas horas diárias de trabalho, dos variados artigos e relatórios de produtividade, do ritmo da produção que se acirra na medida em que se “enxuga o setor público”, da própria precarização do trabalho. Esta classe intelectualizada e progressista exerce um poder na sociedade e possui experiências sociais muito distintas de quem se encontra na “base da pirâmide”. Se a igualdade social e econômica são um pressuposto formal, democracia ainda é uma ideia.

Estamos reféns mesmo desta conjuntura, quase ninguém sabe ao certo a melhor forma de agir, alguns olham para o passado, outros para o bolso, e a maioria olha para a TV: o jornal nacional vai apresentar o próximo capítulo da novela política.

A informação de massas é capaz de criar (ou de dar sentido a) um clima de tensão política generalizada. Tensão, os mais pobres já são os primeiros a sentir: três vizinhos são demitidos, a empresa que trabalha vai à falência (ou muda de nome), o custo de vida vai aos céus. O jornal coloca uns papeis com destaques em negrito, um tom de voz confortável e relaciona de maneira parcial (claro) uma série de argumentos – a crise econômica é culpa da crise política. Quando, em geral, o que acontece são crise econômicas gerando crises ou oportunidades políticas.V_mito

Está todo mundo agindo em torno de uma disputa política que passa ao largo dos interesses da chamada classe trabalhadora. A solução sempre foi fortalecer sindicatos e não pacificar. Não montar candidaturas, esperanças de representação. Se deve instigar a participação.

As possibilidades mais debatidas hoje giram em torno de: se novas eleições forem convocadas será que projeto neoliberal ganha? Com este impeachment conseguimos tirar o Temer? se a Dilma permanecer quais setores sofrerão mais cortes?

Em quais destes contextos a militância governista vai assumir um erro histórico que afastou a atuação dos movimentos sociais e dos sindicatos da base, uma tecnocracia que não buscou se diferenciar da política de cooptação da direita. A guinada à esquerda defendida por alguns intelectuais é possível ou a militância petista só está para defender seus próprios interesses de se manter no poder?

Só depois de uma – programática e muito bem debatida - guinada à esquerda que se pode falar em unidade da esquerda. Promessa não mobiliza mais ninguém, por isso que tem tanto documento provando os atos de corrupção.

Defender o Impeachment implicaria defender um governo igualmente “corrupto” e neoliberal, o PMDB; Defender cegamente o Governo do PT e a democracia burguesa é desconsiderar suas vítimas precarizadas, marginalizadas ou mortas; Defender Eleições Gerais só troca os neoliberais no poder. O Estado vem apresentando velhas e novas políticas “de cima para baixo”. Enquanto o que deviamos estar fazendo é nos organizando e buscando formas de decidir de “baixo para cima”.

É preciso uma maior organização enquanto classe e combater a burocracia dos sindicatos e outras instâncias que funcionam mediante representação. Fortalecer movimentos sociais e políticos, na cidade, no estado, no país. Articular o campo combativo para troca de experiências e avaliações, local e extra local. Como vimos, o sindicato cumpriu o papel de acomodação política, pacificação, o que desorganizou os interesses da classe trabalhadora. E as alternativas não podem ser apenas as da socialdemocracia (governista ou paragovernista) e conservadora, mais liberal ou mais estatista. A organização dos mais diversos setores mais oprimidos da sociedade em seus lugares de estudo, trabalho e moradia sem blindagem governista. Ou seja, é preciso retomar as táticas de enfrentamento que foram pacificadas, não distrair as energias e forças políticas em campanhas e 'trabalhos de base' eleitoreiros. Há muito a ser feito para nós ficarmos nos distraindo com o que a história mostra que é instável e passageiro. A construção e articulação de assembleias populares pode ser parte de uma forma de envolver a população num debate mais amplo e plural que o discurso nas mídias “de massas”.

Não estou dependendo de aprovações, posso dizer, tranquilamente, que em qualquer destas conjunturas continuarei atuando politicamente. Não sou do tipo que passa por cima de princípios para a defesa de um “bem maior” que nem eu, nem outras milhares de pessoas no mundo não vêem. Isso porque princípios não são apenas individuais, princípios são um acordo coletivo. Anti-capitalismo, anti-racismo, anti-fascismo e anti-sexismo, não tem valor nenhum que vá relativizar as bases destes princípios. O Estado mata para manter o status quo e pouco importa para mim quem está operando no momento. Os meus princípios são construídos no dia-a-dia, me organizando, não recuando, vivendo e lutando contra desigualdade social que me cabe e convivendo e lutando contra as desigualdades sociais vividas por outros grupos. Com isso quero dizer o 'caminho' certamente não é negar os efeitos da desigualdade política, econômica e social, o caminho deve ser construído coletivamente para que não se defenda o indefensável.

 Marcha

“Preso à minha classe e a algumas roupas, vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias, espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me? (...)”

“(...)Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse(...)”

“(...)Vomitar este tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado(...)”

“(...) Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.(...)”

“(...)Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.(...)”

Quando que iremos criar e permitir o nascimento de uma flor na rua, para furar o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio?

 



Por uma desestruturação da sociedade racista

aproximadamente 3 anos, por Léo Lopes - 0sem comentários ainda

Por Joel Carlos

Vindos em um navio negreiro, os negros africanos estavam prestes a ter a pior fase de suas vidas, foram escravizados, tiveram sua cultura demonizada, ou seja, foram colocados como base, apenas quando era para lucro alheio, mas de resto o único lugar que os cabiam eram as senzalas.

Foram mais de 400 anos, resistindo e resistindo ao colonialismo implantado por brancos e hoje a história se repete, se recicla e precisa de um fim imediato. Foram 21 anos de uma Ditadura Civil Militar, onde todos direitos fundamentais à vida foram deixados de lado e cada vez mais as periferias foram sendo povoadas por pessoas que não conseguiam viver no centro, por causa do método de 'limpeza social'. Nada foi feito para a segurança, saúde ou educação dessas comunidades.

Hoje, a resistência bate no peito dos filhos do ventre escuro de um porão de um navio e  a revolta cresce a cada dia, pois há uma necessidade de se acabar com todo esse sofrimento que só persegue os negros, pois todos os dias a comunidade negra é alvo do Estado através da polícia, das padronizações impostas nas instituições, da fé na constituição e cada vez mais seus direitos são usurpados sem dó e piedade.

Nunca conseguiram calar a voz dos oprimidos, e eles vão continuar resistindo e é assim que vão vencer. Eles vão baixar onde sempre tiveram a entrada negada, eles vão guerrear com fé, corpo e alma, e sim, eles vão mostrar a justiça de guerreiro.

 

 



Abandono afetivo parental: vamos falar sobre isso?

mais de 3 anos, por Léo Lopes - 0sem comentários ainda

Por Jamile Marques 

  Permita-me que me apresente: sou Jamille Marques, 27 anos e juntamente com meus irmãos passamos pelo abandono afetivo de forma paternal-filial. Não vou usar a palavra sofri, pois, ser cuidada apenas por minha mãe e meus irmãos mais velhos, exercendo muitas vezes o papel de pais, ajudando na minha formação e educação como uma cidadã, não me fez uma pessoa revoltada com a vida e etc. Porém, me fez uma pessoa intrigada com este fato: o que fizemos para merecer o abandono afetivo por parte dos nossos pais? Qual a justificativa do pai para o abandono de um filho? Desde a infância fui muito questionada onde estava o meu pai e me dava nós na cabeça por não saber responder. Datas comemorativas como Dia dos Pais era um horror, pois observava os meus coleguinhas fazendo cartões com declarações de amor para os pais. Os meus cartões eram direcionados a minha mãe sempre! Mas, somente depois de muitos anos fui entender com clareza toda essa situação.

  A sociedade em que vivemos não sabe lidar com as crianças e adolescentes que vivem o abandono afetivo, tanto pelo lado paterno-filial quanto o materno-filial, porém, essa última ainda é observada com menos frequência. A sociedade acha “feio” uma mãe lutar pelos direitos e sobrevivência dos filhos (vou usar aqui neste texto a figura materna como provedora única, pois faço uso da experiência vivida por mim). Desde sempre escuto que é OBRIGAÇÃO da mulher cuidar da casa e dos filhos. Observamos isso incutido em nossa massa cinzenta há séculos, que mães solteiras são a escória da humanidade, que alguma coisa de ruim elas têm para terem sido abandonadas e jogadas ao vento pelo homem. A sociedade impera e marca a pele das mulheres como se fossem gados de que elas são inferiores, são vagabundas, são vadias, são dignas de pena, que são mulheres que precisam constantemente de consolo, que não podem ser financeiramente independentes e que são fracas.

  Te pergunto: qual o papel do homem? Apenas ser provedor de coisas materiais quando são cobrados? O papel do homem se limita em “derramar” teus fluidos orgânicos e, assim, dar origem a uma nova vida neste planeta, sem se preocupar com as necessidades dessa criança, partilhar da formação e educação? E não estamos falando da obrigatoriedade da instituição casamento, pois é um outro tópico que a humanidade ainda tenta nos empurrar goela a abaixo. E também nem nos métodos contraceptivos. Abordarei aqui quando já há a existência de uma criança. Mas, e a oferta de apoio, afeto, ser pai e ser responsável também juntamente com a mulher? Você pode me questionar, mas nem todo mundo deveria ser ou quer ser pai ou mãe. Sim. Claro! Temos escolhas. Porém, devemos ser cruéis e “castigar” uma criança por nossas escolhas nesta vida? Será que temos o direito de destinar um pequeno ser a esse suplício: o abandono?  Portanto, te pergunto uma outra coisa: o mundo preparou o homem para exercer as funções paternas com toda a dignidade e com toda beleza que isso é? Será que a sociedade simplesmente roubou essa possibilidade do homem? O que vemos hoje em dia é um disparate de machos que não podem expressar emoções. Porém, não oferecemos a oportunidade de se desesperarem de vez em quando, de sentirem tristeza, de ficarem inertes, sempre cobramos atitudes, força e imponência. E, muitos se aproveitam dessa brecha... E somem! E aí toda a responsabilidade com aquele novo ser recai sobre a mulher, mas, não tão simples, não tão sutil assim, vem com toda a carga que já citamos no início do texto. Não podemos forçar ninguém ao amor. Porém, não podemos punir alguém inocente. Podemos fazer diferente do que a sociedade dita e grita todos os dias.

  Fui colocada no mundo por uma grande mulher! Hoje sou uma mulher agradecida. Agradeço essa grande mulher que abdicou de grande parte dos seus sonhos para dar um mundo melhor para nós. Agradeço as mulheres que serviram de inspiração para esse texto. Agradeço toda a força que tiveram para superar todos os obstáculos para garantir um presente, um futuro e uma história para teus filhos. Mesmo com essa sociedade suja, que fazem com que se sintam envergonhadas, constrangidas, inferiores, minimizadas perante a outras mulheres e ao mundo. Lutaremos até o fim para desconstrução desses paradigmas impostos sobre nós mulheres. Não estaremos sozinhas enquanto compartilharmos a nossa luta, nossa dor e isto tudo servir para que mulheres abandonem relacionamentos abusivos, servir de inspiração em que nada pode abalar nosso equilíbrio e que nada pode derrubar o nosso espírito e o nosso amor próprio e o amor que tem origem do nosso ventre ou não.

  Agradeço também a minha priminha de 4 anos pelo “insight” dado para a construção desse texto com suas palavras enquanto brincava com suas bonecas: "Na minha brincadeira não tem pai. Porque tem mães que só tem a filha mesmo e não é um problema em não ter o pai. A mãe faz tudinho". 

  Essa temática ainda é rodeada por muitas questões que ainda geram polêmicas. Isso aqui é apenas a ponta do iceberg... Temos muito o que fazer! Temos muito o que lutar! Vamos hastear nossa bandeira e seguir em frente.  

 



A peleja da ética anarquista na política do cotidiano

mais de 3 anos, por Léo Lopes - 55 comentários

Um olhar aos infinitamente pequenos de Piotr Kropotkin. Por Curumim

              Conheci o anarquismo não através de companheirxs, mas por um pequeno trecho de um livro de História do segundo grau da minha irmã mais velha, que dizia que os anarquistas eram socialistas utópicos, sem propostas bem fundamentadas e que, muitas vezes, faziam jus à alcunha de bagunceiros. Dizia de forma rasa que os anarquistas queriam fundar uma sociedade livre e solidária através da derrubada do Estado, mas que não tinham ou não tiveram importância histórica alguma. Eu tinha apenas 13 anos, mas apesar da pouca idade, consegui perceber que após ler trinta páginas caprichosamente escritas sobre o que seria o marxismo, meia página elaborada de forma tão chula sobre o anarquismo só poderia carregar implicitamente alguma coisa de tão baixa que ainda não conseguia compreender muito bem. Neste trecho sobre o anarquismo, eram citados de forma desdenhada dois anarquistas: Bakunin e Kropotkin, nomes que guardei com curiosidade. Esta disparidade de tratamentos entre marxismo e anarquismo me fez crer que aquele livro de História me escondia algo. Questionei professores, inclusive um professor de História que com suas aulas verborrágicas, suas barbichas de Marco Polo e suas bolsas de couro a tira colo, pagava uma de esquerdista revolucionário. Recebi uma resposta sobre o anarquismo à altura do texto chulo do livro didático. Perdi o prazer pela leitura do livro e pelas aulas de História e após quase um ano de procuras, encontrei no Sebo Brandão, no Centro Histórico de Salvador, um livro caindo aos pedaços chamado “A Conquista do Pão”, do pensador russo Piotr Kropotkin. O livro tinha as páginas amareladas, já não tinha mais capa e quando eu passava as suas páginas, elas se dissolviam nas pontas ao mínimo manuseio de minhas mãos. Foi amor à primeira lida. Não conseguia mais parar de ler Kropotkin todos os dias, enquanto o professor de História dava um golpe nxs colegas durante a greve para virar coordenador pedagógico da escola.

   Minha cabeça, aos 15 anos de idade, estava atordoada. Cada doce e poética frase de Kropotkin era como um     soco no estômago e uma fagulha de esperança. Ler Kropotkin me trazia um misto de amor e náuseas: “Mas      que  direito tinha eu a gozar de uma ordem elevada, quando tudo que me rodeava não era mais que miséria e  luta  por uma triste porção de pão, quando por pouco que fosse o que eu gastasse para viver naquele mundo de  agradáveis emoções, havia por necessidade de arrancá-lo da mesma boca dos que cultivavam o trigo e não  tinham suficiente pão para seus filhos?”. Lia, relia e reescrevia tudo que encontrava de Kropotkin, que trouxe  contribuições tão valiosas e atuais sobre geografia, botânica, ecologia, evolução, ajuda mútua, o papel histórico  do Estado, as prisões, a formação e a produção do espaço nas cidades e no campo, sobre a rotina de operários  e camponeses, sobre os absurdos da Revolução Russa, sobre a filosofia do anarquismo... E o livro que me  marcou para sempre foi “A Conquista do Pão”, que com sua linguagem simples, realista, porém forte foi o  propulsor de uma importante mudança na minha vida.

    Até que um dia li algo de Kropotkin que falava sobre os “infinitamente pequenos”, que o anarquismo deveria  ser pensado e praticado desde ou até se chegar aos infinitamente pequenos, que seriam nada mais que os  próprios indivíduos. Enquanto outros teóricos socialistas viam os indivíduos mais como forças  econômicas  produtivas, Kropotkin clamava por pensar numa filosofia que desse também lugar às  paixões, às vontades de  liberdade, aos sentimentos, sensações e desejos de cada parte infinitamente  pequena que compõe as  sociedades. Outrxs anarquistas já haviam falado sobre isto, mas Kropotkin deu  elevada e calorosa relevância ao  assunto. Confesso que não dei tanta importância. Mas que viagem louca desse  Kropotkin - pensei eu! E as coisas  infinitamente grandes? E o Estado? E o capitalismo liberal?  E o capitalismo de Estado? E o monopólio das  Igrejas? O neoliberalismo, as grandes guerras, o desastre de Chernobyl, o genocídio das comunidades  originárias, a luta de classes... Olhar de forma tão rigorosa para o infinitamente pequeno me parecia um  chamado perigoso, que poderia resultar numa perda de foco às grandes coisas importantes! Então disse a mim  mesmo: Kropotkin, suas obras mudaram a minha vida, mas você anda muito esotérico e quântico ultimamente,  com essa paranoia de infinitamente pequenos! Hasta La vista, Piotr! E então parti para a leitura de outros  anarquistas como Proudhon, Reclus, Bakunin, Emma Goldman, Rudolf Rocker, Chomsky, dentre outros.  Infelizmente, as obras dxs anarquistas brasileirxs mal chegavam por aqui em Salvador, com exceção dos textos  de Maria Lacerda de Moura. Li as boas análises de Marx sobre o capital (apesar de o manifesto comunista ser  uma piada de muito mau gosto) e também os seus seguidores mais modernos, li as filosofias de boteco de  Hobbes e Locke, li até bula de remédio para saber que medicamento prescrever para alguns tipos de anarquistas  que só pensavam na derrubada do Estado e que entrariam em profunda depressão se o Estado desaparecesse.

 Fui destrinchando cirurgicamente tudo que era infinitamente grande, tentando entender como estas grandes quimeras foram formadas, como funcionavam, o que as sustentava e as filosofias que as justificavam. Mas os anos foram se passando e eu ia percebendo que por mais que compreendesse um pouco sobre tudo isto dos infinitamente grandes, não conseguia me olhar no espelho como um infinitamente pequeno e dizer de consciência tranquila que havia adotado, de fato, um ethos anarquista, seja lá o que isso quisesse dizer. Sentia que o que tinha aprimorado de conhecimento sobre as grandes estruturas (que ainda é muito pouco), não tinha sido acompanhado pela minha evolução pessoal enquanto anarquista. Percebia que minhas relações interpessoais eram autoritárias, que minhas experiências passadas, meus problemas familiares e minhas fraquezas me faziam inconscientemente manipular as pessoas para que elas ficassem ao meu lado; tinha ciúmes, muita vaidade, carregava cargas de machismo, racismo, homofobia, capacitismo, reproduzia comportamentos autoritários dos meus pais ou professores sem sequer perceber, tinha traços pesados da minha educação infantil cristã de querer carregar a culpa por qualquer coisa, de não me importar de me privar do prazer, de sofrer hoje para ser feliz num suposto amanhã que nunca chegava... Lógico que ainda carrego muito de tudo isso e a luta é extirpar estes valores a cada dia. E quanto mais me conheço, mais percebo o quanto estou longe do fim. Narrei parte da história de como conheci  o anarquismo para demonstrar como é fácil e doce ser encantado pela luta contra os infinitamente grandes e esquecer-se da política do cotidiano, uma das mais difíceis de ser travada.

   E à medida que eu me organizava com outrxs anarquistas, via que todxs estávamos no mesmo barco. Claro! – pensei - somos um bando de pessoas, paridas por uma cultura cheia de autoritarismos, querendo construir um novo ethos, deixar uma nova moral anarquista. É inevitável carregar estas contradições entre o que se é e o que se pretende ser, estas contradições de ter um pé enraizado na substância daquilo que se quer destruir e outro pé tateando o novo mundo que se pretende criar! E é nesta tensão que reside a mais sutil e perigosa armadilha que tem assolado muitxs anarquistas.

    Praticar na política do cotidiano – usando-me do termo de Roberto Freire e  Fausto Brito – um ethos que comporte os princípios anarquistas é estar sempre  vigilante às expressões da nossa inevitável educação autoritária. E então nos  deparamos com um aparente paradoxo: os anarquistas devem lutar contra os  próprios anarquistas? Sim, devem! Devemos auxiliar solidariamente todxs xs  companheirxs a identificar seus traços autoritários, demonstrando de forma  colaborativa e libertária maneiras de suprimir tais comportamentos e extinguir  os privilégios a eles associados. Devemos abrir espaços ordinários dentro das  organizações para conversarmos livremente sobre isto, sobre as relações  interpessoais, sobre as relações amorosas, sobre a família, as relações de trabalho, a assunção das tarefas assumidas na organização, o comprometimento  com o coletivo, o cuidado com xs companheirxs e o cuidado consigo mesmx.  Tudo bem, identificar isto no outro ou outra parece ser fácil, pois quando estes  expressam suas doses de violência, somos nós quem sofremo-las na lida  cotidiana. Mas e quando somos nós a sermos apontadxs?

  Inevitavelmente, ser apontadx nos traz a uma atmosfera de julgamento (não estou falando de tribunais, apesar de certos grupos fazerem os seus tribunais ritualísticos), que invariavelmente nos remeterá a qualquer tipo de consequência, desde as mais leves, como pequenas indisposições em nossas relações dentro de um grupo, ou até as mais graves, como o banimento ou um racha, por exemplo. E é então que xs anarquistas, compreensivelmente com um pé no que se quer destruir e outro no que se quer criar, se veem numa terrível encruzilhada: a de ser interpelado! E é então que, ao ser interpeladx, sentimos a necessidade de contarmos a história de nós mesmxs, história muito mais erigida sobre solo autoritário que sobre relações e experiências livres e solidárias.

   Nos moldes violentos e punitivos da sociedade atual, contar história de si nunca é fácil, pois os tribunais espreitam por todas as partes, em todas as pessoas e em todos os olhares. Por isto, sempre digo que deveria haver um esforço de qualquer coletivo anarquista em promover um ambiente de diálogo franco, onde a preocupação com o que se é discutido e a preocupação com o crescimento do coletivo e seus componentes sejam muito maiores do que a vontade de defender as vaidades pessoais ou do que o medo de exercer a própria autonomia se dispondo honestamente ao diálogo. Não se pode apenas responsabilizar um companheiro ou uma companheira de não assumir os próprios autoritarismos e erros quando os olhares de todos do próprio coletivo são inquisidores, e não acolhedores. Promover esta atmosfera de fala franca e de acolhimento é também construir uma moral pautada numa prática pedagógica libertária, é praticar a anarquia na política do cotidiano. No entanto, não podemos confundir jamais acolhimento com aceitação ou resignação ao autoritarismo.

            Os mais “perigosos anarquistas”, ao serem interpelados, são os primeiros a fugirem da sociedade que dizem almejar. Fogem da fala franca dentro do coletivo, se furtam da prática libertária, se omitem da anarquia, assim como os padres fugiam de Bakunin. A prática comum ou é afastarem-se, envolverem o coletivo num clima tenso, porém velado, de discórdia, ou formarem sub-grupos cooptados para fortalecerem discursos retóricos dentro da organização, que mais beiram a disputa covarde de egos do que a um diálogo franco e honesto. Estes preferem estabelecer uma espécie de “reality show” dentro do coletivo do que expor as questões abertamente em reuniões ou assembleias. São estes a quem chamo de pastores, e o que faz um pastor é a existência de ovelhas...       

   Outros, cegos por não assumirem suas próprias raízes autoritárias, parecem viver e enxergar-se nas    projeções de sua mítica revolução anarquista, esquecendo que esta se faz principalmente no cotidiano.  E  é aí que ressuscito os infinitamente pequenos de Kropotkin, que hoje me fazem bastante sentido. Tais  anarquistas esquecem as relações libertárias interpessoais, estes infinitamente pequenos laços  libertários, esta liga solidária que permanece entre companheiros e companheiras, estes cuidados  coletivos e calorosos, pois estão demasiadamente preocupados com destruir as estruturas infinitamente  grandes, que acabam por equivocadamente totalizar as suas lutas, por mais que legítimas, pensando  que estas conseguem magicamente captar também tudo que é infinitamente pequeno.

   Uma horda de fiéis pelo mundo se vulnerabiliza à dominação fiando-se indiscriminadamente a mitos  sagrados como forma de sentirem-se amparados e perdoados por uma força transcendente, ou ainda  outros bilhões transferem este sagrado religioso para a crença no nacionalismo e no funcionamento dos  Estados (o moderno sagrado “desencantado”). Enquanto isto, alguns anarquistas – por negarem a fé que  subjuga, o nacionalismo e o Estado – parecem necessitar cobrir este vazio que em sua educação  autoritária sempre esteve preenchido e depositar o seu gosto pelo “sagrado” em alguma outra coisa como forma de alcançar a agradável “consciência limpa” prometida tanto pelas religiões, como pelo mito do “bom cidadão patriota” vangloriado pelo Estado. Gerard Brenan, por exemplo, em sua obra El laberinto Español sugere que muitos trabalhadores de Andaluzia tornaram-se anarquistas após terem sido abandonados pelas autoridades eclesiásticas durante a Guerra Civil. E sempre me pergunto: qual diferença faz entre um cristão que agride sua companheira e pede perdão a um padre num confessionário – “reze mil ave marias e deus te livrará dos pecados” – e um anarquista que agride sua companheira, mas se esconde e limpa a própria consciência por “lutar mil vezes contra o Estado”? Em ambos os casos, o sagrado opera da mesma forma.

            Já ouvi milhares de vezes companheiros assumirem, por exemplo, que não são machistas porque lutam contra a opressão do Estado, porque possuem consciência de classe, lutam no sindicato, porque fazem ativismo de bairro, mesmo que dentro das paredes de seus lares monopolizem emocionalmente as suas companheiras sem nem se darem conta disto (já fui um desses, e espero jamais ser novamente). Utilizam-se da luta contra as grandes estruturas como uma fantasia para travestir de libertárias e esconder as desgraças feitas em seus cotidianos, para justificar o descompromisso, o descuido consigo e com os outros, seus vícios pequeno-burgueses e ainda purpurinar-se de créditos por se sentirem os grandes revolucionários anarquistas ou os grandes intelectuais libertários. Parecem querer todos virar mito! A estes vaidosos, que seguem os seus mitos sagrados cegamente como forma de auto-salvação, costumo chamar de anarcisistas, uma nova religião que se expande, sacralizando o próprio anarquismo para que os mesmos se coloquem nos púlpitos de suas igrejas invisíveis! É preciso descolonizar, dessacralizar e desmitificar o anarquismo, o mais rápido possível.

   Os anarcisitas costumam depreciar os “infinitamente pequenos” de uma forma ainda mais perversa. Ouvi, certa feita, com muita tristeza, que um tal coletivo não teria muito futuro, pois na luta anarquista contra os “infinitamente grandes” é necessária extrema organização; e como havia muita amizade entre os integrantes do coletivo, as coisas certamente não dariam certo. Foi um explícito pedido de “vivamos sem amizade, pois só assim conseguiremos ser organizados o suficiente para promover a luta anarquista!”. Estes se valem de qualquer absurdo para justificarem suas próprias desorganizações, inclusive negando os próprios princípios anarquistas, o da ajuda mútua e da solidariedade. Não! A amizade não desorganiza. O que desorganiza é falta de maturidade ou de um ethos libertário. O que seria a amizade se não a expressão máxima dos vínculos de solidariedade, do próprio amor conceituado por Malatesta? Surpreende-me muito quando estes mesmos anti-amizade enaltecem de forma poética a beleza dos vínculos comunitários e de amizade nas populações tradicionais, nas periferias das cidades, no povo curdo, nos indígenas e quilombolas do Brasil, nos Mapuces ou Zapatistas; mas são incapazes de valorizar estes mesmos sentimentos entre seus próprios pares. Não me surpreende que são estes mesmos anarcisistas que não conseguem estabelecer vínculos profundos de amizade nos coletivos e acabam pautando suas relações na base do pavoneamento e da vaidade, ou pior, na aglutinação de indivíduos pela motivação do julgar e depreciar, pois, para estes, estabelecer vínculos afetivos é ver-se no espelho do outro, que geralmente é muito mais sincero, cru, duro, real e menos passivo que o nosso próprio espelho. “Espelho, espelho meu... existe alguém mais anarcisista do que eu?”.

            Precisamos também nos lançar à experiência e ao engrandecimento de assumirmos nossas bases históricas autoritárias, ouvir atentamente quando formos interpelados, mesmo que isto nos desça amargo como um café-preto, pelando e sem açúcar (referência a este Jornal, a quem agradeço o espaço). A reflexão também deve ser franca e libertária, para que a admissão do autoritarismo ou então a defesa de si mesmo sejam honestas e pautadas numa ótica anarquista. Ao sermos interpelados, ou seja, ao sermos requisitados a relatarmos a nossa história, devemos ter minuciosa cautela para nos expormos tal como somos, e não reconfigurarmo-nos ficticiamente para escondermos nossas fraquezas segundo a conveniência do contexto. Demonstrar nossas fraquezas aos companheiros e companheiras anarquistas não é escancarar o nosso peito ao fuzilamento (se o coletivo anarquista não for um tribunal ou um pelotão de fuzilamento); é abrir uma janela de oportunidade para o apoio mútuo, para aprofundarmos nossos vínculos de solidariedade e liberdade, para a compreensão do coletivo sobre as limitações de cada um, para vivenciarmos em cada passo do nosso caminhar, aqui e agora, a sociedade que, como disse Durruti, trazemos em nossos corações.

            Por ora, são estas as minhas reflexões transitórias sobre a moral anarquista e a política do cotidiano, que são fruto da colaboração e do aprendizado recebidos de queridos e queridas amigas anarquistas, sempre dispostxs a aprimorar o entendimento sobre este tema com muita franqueza, sinceridade, confissões amargas, abraços e interpelações. Espero que o texto ao menos suscite um bom debate, para que transformemos cada vez mais a luta libertária numa prática também do cotidiano. Lanço-me então inexperiente nesta lida. Que não percamos de vista os infinitamente grandes em nossas batalhas, mas que os infinitamente pequenos estejam sempre pautados em nossas políticas cotidianas.

 

 



Ser Machão

mais de 3 anos, por Rodrigo Souto - 1Um comentário

Esse é um guia de treinamento prático feito de homem para homem que irá lhe ensinar como se tornar machão.

Ser machão não é uma tarefa fácil. Exige bastante esforço, dedicação e aprendizado. Diferente do que muitos acreditam, todo homem está apto a se tornar um machão de primeira categoria, mesmo que para alguns o processo possa ser mais difícil do que para outros. Ainda que seja árduo, você verá que uma vez machão, você nunca mais  irá querer voltar a ser o zé ruela que era antes. 

O primeiro passo, e mais importante, no caminho do desenvolvimento da sua machonilidade é perceber, que como homem (especialmente se for hétero), você já começou no negativo do seu nível de machão. Desde pequeno você sempre teve todos os elogios, direitos, privilégios, consentimentos e oportunidades para tudo que você precisasse fazer na sua vida. Isso lhe fez pensar que você era melhor, mais forte, mais inteligente, mais concentrado, menos emocional e mais racional (viiiixee!), mais adaptado, mais consciente, mais responsável. E você, sendo esse titã astral que você era, sua mãe tinha mais é que fazer a sua comida mesmo para não atrapalhar a sua evolução meteórica, sua mulher tinha que lhe satisfazer na hora que você quisesse (afinal o seu tempo é muito importante!), as mulheres na rua estavam sempre ao seu dispor para você mexer ao seu bel prazer e para lhe garantir uma vasta amplitude de experiências enriquecedoras e você estava fazendo um favor para a sua sobrinha ao lhe presentear com a magnificência do seu corpo (mesmo que ela não tivesse consciência ainda disso).

Se você se identificou com qualquer um desses traços ou similares, seu estado é bastante grave. Esses tipos de pensamentos e atitude são extremamente prejudiciais para a sua formação como machão. Agora se você não se identificou, seu problema é maior ainda! Seu nível de coragem está beirando o zero absoluto e, a essa altura do campeonato, se você ainda tem medo de se olhar no espelho, honestamente meu querido, "Volte para o início do tabuleiro!".

Eu sei que nesse momento você já deve estar preocupado com a sua machitude,   percebendo  o quão atrás você está nessa corrida. Você já deve estar pensando que está tudo perdido e você nunca será o machão que você esperava, mas você ainda tem cura!

Todas essas merdas que você acumulou na sua cabeça, todas as merdas subsequentes que você colocou na cabeça de outras pessoas e todas as merdas (as maiores) que você ajudou a causar na forma de dor, sofrimento, violência, submissão, apatia, depressão, abuso, desrespeito e morte estão ao seu dispor para lhe ajudar a acordar o machão que tem dentro de você.

Tá hora da segunda etapa do seu treinamento. Todo machão precisa treinar dia-e-noite seu cérebro a fim de alcançar um estupendo desenvolvimento mental para ser capaz de superar a sua burrice desenvolvida ao longo de anos e começar a aprender todos os problemas concretos que o seu modo de vida não-macho causou na vida das pessoas, principalmente na das mulheres (problemas estes que ele nem teve a oportunidade de aprender pois lhe foi poupado toda a vida. Óóóó...coitadinho!). Isso vai exigir observação, leitura, estudo, ouvidos abertos, boca fechada, autocrítica até o cú fazer bico (e além). Enfim, maternalzinho aqui vamos nós! Essa etapa é eterna.

Muito machões padawan ao chegar nesse estágio acabam tendo um lapso de fraqueza que os leva a recaídas aos velhos hábitos da sua vida não-macha e entram numa espécie de esquizofrenia autoinfligida que lhes faz acreditar que eles já leram e estudaram o bastante (Olha que bunitu! Fez a lição de casa!) ao ponto de querer ensinar às mulheres o que elas devem fazer para combater a opressão que elas sofrem da sociedade não-macha. Esse fenômeno é bastante recorrente e muitos ou acabam a vida nessa ilusão ou se dão conta de que regrediram toda a sua evolução machêsca sem perceber. Com força de vontade e treinamento, o machão em formação alcança um nível tão elevado de machêza que tal iluminação lhe confere a capacidade de perceber que ele é limitado e incapaz de descobrir ou julgar como as mulheres devem enfrentar a sua luta. Essa percepção é crucial para a próxima etapa do treinamento (e para você passar um pouco menos de vergonha).

OBS: Outro bônus dessa epifania é notar que todas as mulheres já passaram com êxito e recomendação em todas as etapas do treinamento machão.

Mas isso não impede o machão de se tornar mais macho ainda! Em paralelo à segunda etapa, começa a terceira, última e também eterna, etapa do treinamento macho.  Uma vez consciente das implicações da não-macheza e fortificado pelo treinamento que ele vem fazendo, o machão em formação precisa por em prática seus aprendizados! Tá na hora de: expor e enfrentar os não-machos, seja numa mesa de bar, num almoço de família, num debate e, é claro, em situações de abuso, violência ou agressão; identificar outros machões e se organizar, trocar ideias (e carinhos machos), aprender novas machêzas, bolar ações para encorajar/incentivar outros homens a se machificarem; acompanhar, divulgar, disseminar o que as mulheres têm feito contra os não-machos (você é macho o suficiente para isso!) e identificar como você,  homem machão ridículo limitado, pode fortalecer e ajudar essa luta.

Se você conseguiu chegar ler esse texto até o fim, você já conseguiu a sua medalha de "Machão Iniciado". Vamos arregaçar essas mangas e começar a correr atrás do prejuízo! Venha você também orgulhar seu pai se tornando ESSE machão que ele sempre quis!!

Beijos amorosos de um machão em treinamento!

Jurandir Mercury