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Sobretrabalho

3 de Outubro de 2016, 13:38 , por Léo Lopes - | Ninguém está seguindo este artigo ainda.
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Por: Curumim

Era certo não dormiria. Nos momentos raros em que não havia obrigações,O_homem_e_a_casa
surpreendia-se com a avançada hora da madrugada. Ainda assim, estranhava
a calmaria. Fitava as sombras em volta da velha casa que nem era sua,
temendo que alguma delas saltasse de repente das paredes demandando-lhe
serviço, cobrando-lhe prazos ou entregando-lhe o reaviso de um boleto
ainda não quitado. Marcara o silêncio destes momentos com a lembrança de
persistentes nós que lhe doíam nos ombros. Nós que pareciam concentrar
todo o peso do trabalho em seus diminutos volumes, mostrando-lhe que sob
a rude tez talhada entre balanço de horas, dívidas e proventos, havia
ainda um sopro de vida enfermiço num organismo que resistia ao
automatismo. Deitado sobre a cama nada feita, contentava-se em saciar a
vontade de prazer qualquer com o terço do copo d’água que esquecera
sobre a mesa pela manhã, antes de ser sorvido por mais um dia de
trabalho na estrada. Aos goles frustrantes com sabor de poeira
umedecida, fechava os olhos que ardiam como brasas e brigavam ao toque
das densas pálpebras que deitavam invencivelmente sobre eles. Não
haveria forças para abri-los outra vez, mas a incompletude na alma
materializava-se em inquietas e incansáveis pernas em movimentos
doentios. Do lado de fora, psicóticos como ele brincavam de viver
enfileirando-se como mercadorias coloridas aguardando a vez de
enterrarem-se em estéreis urnas funerárias. Íntimo aos resultados,
executava diariamente a mortificante matemática da rotina. Dez, doze,
treze anos ainda. Os trinta e cinco, a mais visceral utopia do
trabalhador, chegariam em hora póstuma, quando o descanso em vida já não
jazeria mais necessário. Não sabia mais o significado das coisas, muito
menos de si próprio. Respirar era-lhe incômodo, por isto ofegava. Vencer
era-lhe impossível, por isto orava. Sentir era-lhe requinte, por isto
trabalhava. E por mais que todos os cantos de seu corpo cansado
gritassem em uníssono, por mais que todas as sombras tremulantes
Sobretrabalho_2sussurrassem em visceral tom, por mais que as paredes de seu quarto
reverberassem em desespero o milagroso mote de “A VIDA É UMA ORDEM!”... nada demovia o pobre trabalhador. E, deitando-se de lado, como um feto natimorto, era uma massa grosseira de encéfalo, fadiga e pensamentos confusos que repousava num amarrotado chumaço de suados lençóis. O mundo, ainda aos berros, avisava-lhe: “A VIDA É UMA ORDEM! A VIDA É UMA ORDEM! A VIDA É UMA ORDEM!”. Um sussurro longínquo, raquítico e amarelado fez-se presente e, não se sabe como (dizem por aí), o pobre trabalhador reagiu em último ato de bravura, fazendo emergir das entranhas as últimas forças de vida, o último sopro que não poderia ser gasto em vão. Entreabrindo nauseados olhos, curvou-se às sombras das paredes como quem clamasse por resposta, e disse, por fim, em fraca voz:
que é a vida? Mas já não lhe restava mais tempo.