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Por uma greve geral de base e combativa

7 de Junho de 2018, 13:06 , por Rodrigo Souto - 0sem comentários ainda | Ninguém está seguindo este artigo ainda.
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Por mil campos roxos

 

O presidente mais desaprovado da história do país é o fator central do cacoete mais difundido na atual conjuntura política: o “Fora Temer” unifica tanto ávidos defensores de uma intervenção militar quanto os setores da extrema esquerda. Aos compromissados com a construção das condições objetivas e subjetivas da revolução social (anti-capitalista, é importante frisar), uma série de tarefas se apresentam, precisamos avançar na disputa ideológica em nossos lugares de atuação apontando para a organização e para a construção da greve geral.

Com a greve dos caminhoneiros pudemos ver a importância do setor de distribuição de mercadorias e as dificuldades de se atuar num movimento plural. Grande parte da esquerda demonstrou sua incapacidade de disputa e como o auto-retrato realista de Courbet, ficou com a mão na cabeça e olhos arregalados. O partido de massas verticalizado se mostrou ineficiente (sem aproveitar o momento político) em pautar interesses históricos mediante o nosso maior instrumento de luta: a greve geral.

 

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O PT, como um representante do que se chama partido de massas, com cerca de 1.584.000 filiados e influência política forte em diversos sindicatos, ao invés de construir a greve geral para os próximos anos ofusca as pautas com palavras de ordem “Lula Livre e Fora Temer” para capitanear votos nas eleições de 2018 e pior, entorno de uma candidatura impugnável. Em Maio de 2018, a Federação Única dos Petroleiros (FUP), ligada à CUT, com 13 sindicatos da categoria, junto à Federação Nacional dos Petroleiros (FNP), com 5 sindicatos, puxaram uma greve do setor, a FUP defendendo que durasse apenas 3 dias e a FNP defendendo que fosse por tempo indeterminado. As duas federações cancelaram a greve depois da definição do TST de multa de 2 milhões por dia de greve e que autoriza a perseguição de dirigentes sindicais. A decisão do Tribunal Superior do Trabalho nos informa o quanto para o Estado são bem vindas as reivindicações dos trabalhadores. As pautas do movimento são justas: a não-privatização da Petrobrás,  redução dos preços do gás de cozinha e dos combustíveis, a não-demissão de trabalhadores, fim das importações dos derivados e retomada da produção interna, contra a atual política de preços e pela saída do Pedro Parente da presidência da empresa (que pediu demissão no primeiro dia de Junho). Por fragilidade, o movimento não prosseguiu e o novo presidente da empresa, o Ivan Monteiro, segue a mesma política do Parente. A greve petroleira deixou a expectativa de que este suspiro do movimento sindical não seja o último antes da sua morte, ao contrário, que este final de mandato da chapa Dilma-Temer seja período de organização de lutas para dar o tom do próximo governo, seja este qual for.

O “Fora Temer” nesta altura do campeonato é uma pauta vazia, quando se muda o presidente as coisas não se transformam como passe de mágica. O que impede que a esquerda hegemônica, organizada em partidos, construa a greve geral? Podemos pensar pelo menos duas alternativas: na primeira considera-se que o PT, apesar de partido de massas, está tão distante de sua base que mesmo que definisse a construção da greve geral como ação coletiva do partido não conseguiria influenciá-la; na segunda considera-se que como o objetivo do partido é o fortalecimento da base eleitoral e não o engajamento da classe trabalhadora, é melhor manter “estas forças ingovernáveis” pacificadas, como uma forma de garantir a estabilidade política. Nestas duas abordagens uma questão fica óbvia: não podemos depender do PT para nos colocarmos contra a reforma trabalhista, os desmontes de políticas sociais, o congelamento dos gastos públicos por 20 anos, a perseguição dos ativistas dos direitos indígenas, a mudança na regulamentação fundiária, o entreguismo na política econômica externa, a desestruturação do sistema único de saúde e o fortalecimento da política de internamento de usuários da saúde mental. Solidariedade de classe é um princípio que precisa ser exercido!

Nas relações internacionais é difícil fazer previsões econômicas e sociais, os mercados financeiros podem gerar mais recessões, as desigualdades podem ser aprofundadas, guerras também são pouco previsíveis. O que pode ser adiantado é que o Brasil vai demorar para se recuperar dos efeitos da crise econômica. Neste sentido, rechaçamos os eleitoráveis que apontam para saídas fáceis e fórmulas genéricas de superação deste quadro: é pura retórica. A militância petista insiste na candidatura de Lula, que está na dianteira com cerca de 23% das intenções de voto, e dado o nível de desaprovação do Temer vencerá a melhor crítica contra este governo: arrisco o oráculo de que, ainda, qualquer candidatura apoiada por Lula levará o cargo mais cobiçado da administração pública.

Mas precisamos estar preparados para todos os possíveis resultados: se o candidato apoiado pelo PT vencer não poderá apresentar uma panaceia que resolva o problema da alta taxa de desemprego no país ao mesmo tempo em que revoga a reforma trabalhista, que resolva a sangria do dinheiro público que corre em direção ao bolso de banqueiros: vocês ouviram o PT se comprometendo a isto? Se Bolsonaro vencer, está com cerca de 16% das intenções de voto, não conseguirá governar a menos que se instaure um parlamentarismo ou que o índice de renovação do Congresso seja muito maior que o esperado, mas aí já é outra questão. Alckmin (13% das intenções de voto), Ciro (9% das intenções de voto), Boulos (0% ou 1% das intenções de voto) e Marina (10% das intenções de voto) são outros que dependem das coalizões que vão se formar. Para além da questão eleitoreira, “estar preparados” se refere mais a nossa capacidade de auto organização que quais são nossas preferências individuais de voto. Em épocas de eleição é importante o apoio “À outra campanha” que faz uma crítica à democracia burguesa e fomenta a participação política em grupos políticos anti-capitalistas e horizontalizados.

Mas o que está acontecendo na sociedade? Há uma efervescência social, por conta da crise econômica e política, e precisamos estar atentos aos rumos que os argumentos entorno da mudança social vão tomar. As defesas nacionalistas estão na ordem do dia, como se todo território brasileiro fosse formado por uma massa única com interesses convergentes. Se fosse este o caso não seria difícil imaginar que a defesa da Petrobras enquanto estatal fosse um valor universal já que sua produtividade é chave para o PIB e que por sua vez financia os serviços públicos. No entanto, a greve dos petroleiros acabou em seu segundo dia sem grande comoção nacional.

 

Neste sentido, a nossa tarefa é agir como se a política fosse nossa vocação e construirmos as bases de um movimento que talvez consiga dar resposta aos retrocessos em médio prazo. É apenas a prática política que é capaz de nos fornecer a experiência que será necessária nos próximos anos. Não são os líderes construídos que resolverão este quadro. Em um dia destes, numa aula de política, uma pessoa falou do que perturba sua consciência: era “quando surgiria um líder capaz de unir massas como o Lula o faz”. Como por um instinto retruquei que Freud explicava tal inquietação: não é possível que depois de tantas contradições políticas o maior dilema enfrentado por alguém seja a espera de um líder. Sejamos nossos líderes em pesquisa e prática política! Assumirmos nossa posição de classe trabalhadora ou filhxs desta nos coloca num papel histórico de transformação.

maginando que nos próximos anos a ideia de “mudança social” estará na retórica política é interessante pensar qual a qualidade de tal mudança. Os movimentos classistas foram enfraquecidos historicamente pelas organizações políticas governistas, a militância foi reduzida à atuação de uma classe média, que se considera “ativista” de pautas específicas. Assim, houve um deslocamento da crítica que se fazia ao capitalismo para o que se pode retirar de ganhos numa democracia burguesa. Toda a questão política passa a ser uma questão de representatividade e não de transformação estrutural, o voto é reforçado mediante uma propaganda política que dialogue com os grupos específicos. Não podemos apelar para o voluntarismo das classes médias nas mudanças políticas e sociais, seu apoio é volátil. Qualificar nossos militantes, comprometidos com a construção do socialismo libertário, para enfrentar as retóricas adeptas “da política do menos pior” é uma das formas de dar resposta nesta conjuntura.

 

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É comum, em época de pré-eleição, a defesa de que durante o governo PT estávamos numa mar de rosas, na verdade, qualquer governo que se compare ao de Temer corre o risco de ser considerado melhor. Mas não podemos nos deixar cair nesta armadilha argumentativa, pois sua intenção única é a construção de uma candidatura para as próximas eleições. Nós anarquistas nos posicionaremos sempre como oposição ao governo, porque enquanto existir governo, existe o monopólio da violência em proteção do Capital.

Nós anarquistas estamos atuantes para que haja a lembrança de que nós somos capazes de nos organizar de forma autônoma e horizontal contra todas as opressões e explorações. Neste sentido, compomos movimentos sociais e organizações políticas para lutarmos pela redução da jornada de trabalho sem rebaixamento salarial ou perda de direitos; pela ampliação da educação e de sua qualidade, não para atender aos interesses do mercado, mas sim para atuarmos de forma solidária e combativa na sociedade; por uma saúde universal, pública, preventiva, que respeite as diferenças e esteja preparada para o cuidado e não um atendimento impessoal e massificado; por um território livre, pelo direito de moradia e subsistência, contra a privatização de recursos naturais e do espaço rural e urbano que serve para atender os lucros dos mega-proprietários; pela socialização e auto-gestão dos meios de produção e entendemos os sindicatos e movimentos de trabalhadores sem-terra como um exemplo de células capazes de simular as federações que organizarão a produção numa sociedade mais igualitária; pela construção de organizações que não neguem a voz de mulheres, negrxs, indígenas porque suas experiências na opressão e exploração são extremamente relevantes para superarmos nossos limites coletivos. Temos tantas pautas quantas são possíveis no mundo de nossas relações sociais e políticas e apenas nossa prática política pode desvelá-las.

A forma como defendemos nossas pautas são igualmente relevantes. No anarquismo os princípios não são um despacho, são compromissos coletivamente acordados: é necessário o nivelamento do conhecimento nas organizações e rotatividade de tarefas mantendo a finalidade para o social e não acumulação individual - a horizontalidade e autogestão; a definição de ação política mediante amplo debate interno pautando atuações não apenas dentro das instituições sociais consagradas – democracia e ação direta; a articulação entre organização em instâncias territoriais diferentes até nível internacional atendendo aos primeiros quatro princípios citados – o federalismo. São estes princípios que devem ser disputados na construção da greve geral. Estamos desejosos que novos ventos venham de baixo e do sul.

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