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Empoderamento e Empreendedorismo: quando fomos cooptados?

17 de Novembro de 2016, 17:41 , por Léo Lopes - 0sem comentários ainda | Ninguém está seguindo este artigo ainda.
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Por: anarcksattack

  Empoderamento é uma das categorias que tem ganhado relevância no cenário contemporâneo em virtude de trazer uma noção interessante acerca da conscientização e superação de determinadas relações sociais de poder. Empoderar-se remete a capacidade de se contrapor a uma relação de poder opressiva a partir do reconhecimento de que eu ou o grupo social ao qual pertenço também é dotado de poder.

 No entanto, esta categoria é utilizada muitas vezes de forma irrefletida de modo que algumas pessoas confundem representação com empoderamento e de uma maneira até mais perversa a ideia de empoderamento vem sendo justaposta a noção de empreendedorismo. Logo, a questão que quero colocar aqui é: como podemos refletir sobre o empoderamento? Ou melhor, quando estamos sendo cooptados a partir de uma noção que deveria, em tese, nos emancipar?

 Para refletir sobre empoderamento é preciso entender como se estrutura o nosso sistema social (a sociedade capitalista) e entender a capacidade que este possui de tornar inofensivo e de cooptar uma ideia aparentemente radical de contraposição. O que está em jogo é capacidade que o capitalismo possui de transformar um problema coletivo em um problema individual (esta é a chave  para entender a questão aqui colocada).Exemplos disso ficam explícitos na ideia de que indivíduos por si só empoderam outros indivíduos, ou que a estética e a representação (como também consumo de produtos associados a essa ideia) por si só cumpririam essa função.

 A primeira coisa que temos que ter em mente é que o empoderamento é um exercício de autonomia do indivíduo que ocorre de maneira conjunta com a reflexão coletiva acerca de como se estrutura as relações de poder na sociedade. Logo, o empoderamento é mais um caminho do que uma imposição (o que impossibilita que uma pessoa individualmente empodere outra). Empoderamento é uma descoberta de si na relação de poder (coletivamente forjada) e não um esclarecimento fornecido por pessoas iluminadas. Por isso não existe empoderamento que seja individual.

 No entanto, esta é a estratégia adotada pelo capitalismo para manter uma estrutura que seja favorável aos seus interesses sob o rótulo de empoderamento. Por isso algumas pessoas acreditam que a representação e a estética por si só já tornam as pessoas empoderadas sem refletir sobre a dimensão oculta nesta relação. Óbvio que estar representado e assumir esteticamente aquilo que é considerado marginal exerce um papel importante de contraposição. Pórem na maioria das vezes estes elementos tomados isoladamente recaem novamente na ideia de que existe um empoderamento que seja individual e isto vem com o bônus do que vou chamar aqui de empreendedorismo empoderado.

 O empreendedorismo emponderado é aquele em que elementos de contestação são usados a favor de uma estrutura empreendedora, está muito próxima daquele espírito capitalista tratado por Weber no clássico ‘A ética protestante e o espírito do capitalismo’, onde a moral protestante favorece o desenvolvimento do espírito capitalista. Isto fica evidente também contemporaneamente em alguns segmentos neopentecostais com a teologia da prosperidade  que prega a benção financeira, onde a igreja não doutrina mais trabalhadores e sim empreendedores, é que aponta o antropólogo Carlos Gutierrez (link aqui).

  De outro modo essa lógica passa a acometer determinados segmentos que acreditam que a saída emponderada para os problemas coletivos seria empreender, ou seja, vender produtos ou criar marcas que enalteçam um determinada estética e favoreça um representatividade (negros, homossexuais, mulheres, etc.). O grande problema aqui é que esta saída geralmente recai na ideia de um esforço individual e de mérito ocultando toda uma estrutura de opressão, e aí quando menos esperamos estamos sendo cooptados. Como diz a a filósofa Camila Jourdan (link aqui): “o que você quiser o capitalismo pode te vender,  menos o que não é vendível. Então, é como se ele procurasse o que pode negá-lo, construísse um fake palatável e vendesse no mercado. (…) Portanto, tenta tragar de modo espetacular para dentro de si o que o nega e se coloca como fora dele”. Quando menos esperamos o empoderamento virou um slogan, e sem querer estamos trabalhando na lógica daqueles que nos oprimem.

   A tentativa aqui é trazer uma reflexão que muitas vezes não é dada tanta importância, mas que no final das contas influencia no resultado final dos discursos acerca do empoderamento. Tampouco o objetivo foi atacar iniciativas de grupos ou pessoas que buscam viabilizar economicamente sua vida nesta sociedade perversa que é a capitalista, mas sim atentar para quais discursos estão justificando estas práticas. Empoderar-se certamente é encontrar saídas coletivas para problemas aparentemente individuais.

Foto_escalde

Fonte: Empodere suas raízes (facebook)

 


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