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Escalde o Plantão!

6 de Novembro de 2015, 1:42 , por Rodrigo Souto - | Ninguém está seguindo este artigo ainda.
O “Escalde o Plantão” é o espaço onde vocês terão a possibilidade de publicar matérias próprias, denúncias, divulgações de trabalhos libertários e autogeridos ou resistências populares e autônomas, desde que possuam relação com os objetivos do Café Preto e os nossos princípios! Também aceitaremos críticas, construtivas e destrutivas, sugestões ou dicas para o crescimento do próprio jornal. Qualquer dúvida, sugerimos a leitura do texto “Quem Somos”. Como construímos um veículo anarquista de informações, carregamos certos preceitos inegociáveis, como o a liberdade, apoio mútuo, solidariedade e a autonomia. Desta forma, possuiremos uma política editorial para análise dos textos do “Escalde o Plantão”, onde mensagens de cunho racista, machista, homofóbico, xenófobo, partidário, empresarial, religioso ou de qualquer viés autoritário ou opressor não serão publicadas. Ofensas e injúrias pessoais desconexas com os objetivos do Café Preto também não serão publicadas. Longe de estarmos instaurando uma censura no jornal, esta política editorial representa um cuidado com os nossos leitores e membros do Café Preto, que fielmente nos acompanha na expectativa de que sigamos firmes em nossos princípios libertários! Quaisquer vetos a publicações no “Escalde o Plantão” serão comunicados a suas/seus responsáveis com a respectiva justificativa, a fim de propiciar um melhor entendimento e diálogo entre as partes. Portanto, sentem-se, tomem um cafezinho preto, pelando e sem açúcar... e sintam fervilhar os seus corações, aquecer os seus neurônios, aguçar o sangue nos olhos e fortalecer o poder da sua voz! Escaldem tudo no plantão!!! Envie-nos seu material: contato@cafe-preto.org ;)

Nem criadas, nem mucamas. Trabalhadoras em luta!

4 meses, por Léo Lopes - 33 comentários

Por: Lika de Campos

 

Ama.gifO trabalho doméstico é uma das ocupações mais antigas da história do  Brasil e é praticamente impossível desvinculá-lo da  história da escravidão no país. Até o fim da escravidão, em 1888, esse era um trabalho realizado majoritariamente por escravas ou trabalhadoras livres e libertas pobres. Em Salvador, onde 2/3 da população foi considerada preta ou parda em 1872, o serviço doméstico era um trabalho majoritariamente negro e feminino. Apesar dos mais de cem anos que nos separam do fim da escravidão, muitas heranças persistem nas relações de trabalho e na forma como a sociedade enxerga estas trabalhadoras. Na realidade, a própria aceitação do trabalho doméstico como parte do mundo do trabalho sempre foi bastante problemática, tanto pelo Estado quanto pela sociedade.

No Império, a Constituição de 1824 impedia expressamente que os trabalhadores domésticos votassem e o Código Comercial de 1850 – legislação relativa a contratos de trabalho – não incluía as domésticas em suas determinações. Mesmo com o fim da escravidão e o início do período republicano as trabalhadoras domésticas continuaram sendo entendidas como uma categoria distinta dos demais trabalhadores: sua exclusão da CLT de 1943 e mesmo do parágrafo único na Constituição de 1988 – que excluía as domésticas de uma série de direitos trabalhistas – são prova disso.

E a precariedade das condições destas trabalhadoras não se restringem apenas às leis. As relações de trabalho entre patrões e empregadas são em sua maioria marcadas por subserviência e autoritarismo, muitas vezes disfarçados por uma relação afetiva: não é incomum ouvir de empregadores opressores que a empregada doméstica é “praticamente da família”. Em geral, as domésticas possuem espaços distintos para realizar suas refeições e não utilizam os mesmos sanitários dos empregadores; muitas casas de elite ou classe média ainda possuem as “dependências”, cubículos muitas vezes insalubres, escuros e pouco ventilados reservados ao uso das empregadas.

Muitas relações de trabalho ainda são pouco claras sobre quais tarefas a empregada deve exercer, o que acaba por muitas vezes sobrecarregá-la com diversas tarefas. Apesar de terem direito a dia de folga, o trabalho acumulado como louça, roupa ou casa suja nos dias de descanso acabam virando trabalho extra no dia seguinte. Ou seja, no fundo muitas empregadas acabam trabalhando dobrado na segunda-feira após a folga do fim de semana e isso não é considerado como carga de trabalho extra.

Boa Esperança - Emicida

Isso quando a precariedade não diz respeito também as condições de liberdade e assalariamento: os direitos trabalhistas conquistados pelas trabalhadoras ao longo dos séculos nem sempre são respeitados e assegurados. Trabalho infantil, mal pago ou não remunerado ainda fazem parte da realidade de algumas trabalhadoras domésticas no Brasil.

Apesar de todas as características que nos reportam a nossa herança escravista, seria errado dizer que nada mudou ao longo dos séculos. Já como ponto de partida, o próprio conceito de trabalho doméstico passou por transformações. No século XIX, esta era uma categoria que abrangia não só trabalhos relativos à limpeza em residências como também em estabelecimentos comerciais: assim, o trabalho em hotelarias, por exemplo, era incluído na alçada doméstica. Ou seja, se relacionava a natureza da atividade e não ao espaço em que ela era exercida. Outra questão diz respeito ao tipo de atividades que eram exercidas nas residências. Até o fim do século XIX e início do XX, muitas atividades que hoje são exercidas por companhias públicas e privadas não eram oferecidas até então. Devido à falta de estrutura urbana, cabia às trabalhadoras domésticas as tarefas de lavar roupas na mão, engomar, cuidar dos aparatos de iluminação, cozinhar sem fogão a gás, despejar dejetos, etc.

Outra diferença crucial diz respeito à organização destas trabalhadoras que não contavam com sindicatos nem outras organizações trabalhistas que defendessem coletivamente seus direitos. É verdade que os sindicatos das trabalhadoras domésticas ainda contam com menor número de filiados que outras categorias de trabalho, mas ainda assim foram fundamentais na conquista dos recentes direitos trabalhistas adquiridos. E a existência dos sindicatos também não exclui a organização de outras redes de sociabilidade e apoio: trabalhadoras que fazem o mesmo percurso de ônibus para o trabalho, ou que trabalham na mesma casa ou próximo a outras empregadas domésticas compartilham experiências e identidades comuns que são fundamentais na luta cotidiana por empoderamento e melhores condições de vida e trabalho.

Ama de Leite carregando um bebê branco - Bahia, 1870 Por fim, é preciso admitir as importantes transformações ocorridas no campo dos direitos trabalhistas das domésticas. Ainda que entre as leis e a prática cotidiana haja sempre uma distância, não podemos negar a importância dessas conquistas, sobretudo após a aprovação da Emenda Constitucional 72 (mais conhecida como PEC das domésticas) que excluiu o parágrafo único que as diferenciava dos demais trabalhadores e a Lei Complementar 150 de 2015 que regulamentou essas mudanças.

As discussões políticas a respeito dos direitos das trabalhadoras domésticas repercutem em diversos outros campos: o interesse pelo tema no âmbito acadêmico vem aumentando nas últimas décadas, dando visibilidade a setores antes excluídos da história. Também vem ganhando mais centralidade no campo das produções artísticas – duas produções cinematográficas ganharam destaque no cenário nacional: o documentário Domésticas – o filme (2001) de Fernando Meireles e o filme Que horas ela volta? (2015) de Anna Muylaert.

Mas se o cenário parece promissor em relação a conquista de direitos por parte das trabalhadoras domésticas, não podemos esquecer que elas foram fruto de muitos séculos de luta. A luta pela transformação das relações de trabalho não pode parar por aí: ainda há muito a ser feito para melhorar as condições de desigualdade no Brasil, sobretudo no que diz respeito às condições de vida e trabalho das empregadas domésticas. E nenhuma conquista está imune a tentativas de retrocesso: a história não caminha apenas em uma direção.

Mural-domestica



Carne Fraca, Campesinato, #ForaTemer e #SalvemAsBaleias - dissolvendo dicotomias

6 meses, por Bruno M. - 66 comentários

Opera-18 A mídia tem explorado exaustivamente o escândalo da Operação CARNE FRACA, deflagrada pela Polícia Federal. Neste grande esquemão, servidores do Ministério da Agricultura recebiam propina para fazer vistas grossas à venda de carne fora dos padrões exigidos para comercialização, como adulteração no peso por adição de água, a venda de produtos estragados disfarçadas com substâncias químicas e o reaproveitamento de carnes podres há mais de três meses para a produção de embutidos, como salsichas, hambúrgueres e linguiças. Houve até um lote de toneladas, contaminado com bactérias Salmonella que foi devolvido pela Itália e, quando de volta ao Brasil, virou motivo de debate entre os funcionários dos frigoríficos, que buscavam a melhor forma de reaproveita-lo no mercado nacional.

Na Carne Fraca, frigoríficos muitos bem conhecidos da população brasileira foram investigados, como os das empresas BRF- Brasil Foods S.A. (proprietária das marcas Perdigão e Sadia) e a gigante JBS S/A (proprietária da Friboi, Seara e Swift). A relação corrupta entre a indústria da carne e o Ministério da Agricultura não é de se espantar, basta lembrar que a JBS S./A. foi, em 2014, a maior doadora de financiamento para as campanhas eleitorais dos maiores partidos (PT, PSDB, PMDB etc.): 253 milhões de reais (dados do TSE, acesse aqui)! Somos tão acostumados a ouvir as palavras milhões e bilhões em esquemas de corrupção, que acabamos perdendo a noção do quanto isto representa. Para ter ideia, com este recurso doado só pela JBS S./A. para financiar campanhas partidárias e te enrolar por um voto, compraríamos 30 quilos de feijão para cada uma das quase um milhão de famílias de Salvador.

É importante demonstrar o poder econômico que possui a indústria da carne/pecuária no Brasil. Esta indústria movimenta no país cerca de 7 bilhões por ano e exporta carne para mais de 150 países, sendo o Brasil o maior exportador mundial de carnes com o maior rebanho bovino do mundo. Segundo relatório da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (ABIEC, acesse aqui), o país abateu mais de 24 milhões de bois e exportou cerca de um milhão e meio de toneladas de carne bovina só em 2016. Não é à toa que depois do escândalo da Carne Fraca, o governo tem concentrado muito mais esforços em não queimar o próprio filme com os outros países compradores da carne nacional do que investigar se houve problemas de saúde relacionados ao consumo de carnes estragadas, por exemplo. Basta ouvir meia hora do programa Voz do Brasil no seu radinho de pilha que não demorará a perceber o que estou falando. Mas prepare o estômago para engolir informação estragada!

O poder político da indústria da carne/pecuária também é assustador. Para bater o financiamento privado de campanhas feito somente pela JBS S/A, precisamos juntar o montante de dinheiro doado por todas as grandes empreiteiras/construtoras investigadas na Operação Lava-Jato (OAS, Queiroz Galvão, Odebrecht, UTC Engenharia e Camargo Correia), que doaram juntas cerca de 270 milhões de reais (dados do TSE, acesse aqui). A JBS S./A. foi, por exemplo, a maior financiadora de 21 dos 28 partidos políticos com representação na Câmara dos Deputados Federais, com maiores volumes de doação para o PT, PMDB e PSDB!

Mas qual o interesse dessas grandes empresas em financiar campanhas eleitorais? Isso é fácil de deduzir. Imagine que você é gerente de um grande negócio. Você doa rios de dinheiro para todos os partidos políticos que suspeita ter chances de ganhar as eleições. Você pouco se importa se está financiando partidos que até se dizem rivais, como o PT e o PSDB. O que interessa para você é garantir que os partidos eleitos tenham sido financiados por sua empresa. Ao final da eleição, se foi a sua empresa quem financiou o/a presidente (e o vice!) do país e também a maioria dos deputados federais e os demais cargos eleitos, você terá ao final da eleição toda a máquina do Estado em suas mãos. Você ganhará a maioria das grandes licitações públicas superfaturadas, estará inserido nos maiores esquemas rentáveis de corrupção e lavagem de dinheiro, terá todas as legislações necessárias ao seu lucro aprovadas, todas as estruturas executivas que possam barrar o seu caminho serão sucateadas (veja sobre a tentativa de extinção da CGPEG do IBAMA/RJ aqui e participe do abaixo assinado), todas as licenças ambientais (im)possíveis serão emitidas e por aí vai...

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E quem não aceita financiamento privado vira café com leite na brincadeira,  jamais vencerá coisa alguma e ficará brincando de PSol no playground, tomando Ninho Soleil (tem de maçã e de banana) e soltando nota na internet. O PSol, aliás, já andou recebendo para a campanha de Luciana Genro uma "doação" da empresa Taurus, fabricante das pistolas 380, .40 e2013125_37833 metralhadoras, utilizadas pelas forças policiais para tirar vidas de pretos e pretas nas periferias do Brasil e dos Estados Unidos (muito provavelmente a fabricante das armas utilizadas na Chacina do Cabula). O que será que o PSol daria em troca à empresa Taurus, caso ganhasse as eleições? Certamente, algo que tornaria ainda pior o bem viver nas periferias.

Vejamos a Operação Lava-Jato, por exemplo, que já nos fornece dados bem interessantes para mostrar como é lucrativo financiar campanhas eleitorais. As empreiteiras doaram 270 milhões de reais às campanhas eleitorais de 2014, como dito anteriormente, mas já receberam do Estado, pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do PT, um montante que ultrapassa dezenas de bilhões de reais em lucro, tudo isto misturado a esquemas sujos de corrupção e lavagem de dinheiro. Imagine então o que deve estar por trás do romance entre a indústria da carne/pecuária e a gestão do Estado brasileiro! O que acha?

Este jogo de cartas marcadas não termina apenas com a carne estragada na sua mesa. Há outro lado da moeda que é massivamente invisibilizado pela grande mídia e que precisa ser divulgado em todos os veículos de comunicação alternativos, como neste jornal anarquista que abre este plebeu espaço para leitores e leitoras como eu escaldar o plantão. Precisamos falar sobre o campesinato e meio ambiente!

O conluio entre Estado e indústria da carne/pecuária apoia um sistema produtivo altamente danoso para o meio ambiente. Para o leitor ter uma breve noção, dos 850 mil hectares do território brasileiro, mais de 200 milhões são ocupados por pastos para a criação extensiva de gado, distribuídos em grandes latifúndios concentradores de riqueza. A maioria do desmatamento das florestas no país é realizada para a abertura de grandes pastos, que emprega uma determinada quantidade de mão de obra no período de implantação (corte de árvores, queima do pasto sujo, instalação de currais, cercas etc.) e que depois é posta para a rua. A relação de empregados por área de pasto na pecuária é irrisória!

As relações entre latifundiários da pecuária e os povos do campo não mudaram muito desde o período colonial. A violência contra os campesinos é refletida na medalha de ouro que o Brasil ganha com muito mérito em assassinatos de camponeses e ambientalistas em conflitos territoriais. Segundo a organização Global Witness (acesse aqui), da Inglaterra, das 185 pessoas assassinadas nestes tipos de conflito em 16 países no ano de 2015, quase 30% (cerca de 50 pessoas) foram mortas no Brasil.

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Há outra medalha conquistada com primor que está estampada no peito da indústria da carne: segundo o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), a pecuária é a indústria campeã de trabalho escravo no país, sendo responsável por quase 70% dos flagrantes de escravidão, todos incidindo sobre os povos do campo, principalmente na região Norte do país. Muitos trabalhadores encontrados nesta situação executam suas tarefas em condições extremamente precárias, dormindo em “colocações” (em alusão às precárias instalações dos soldados da borracha na Amazônia) que mais se parecem senzalas, sem camas, colchões ou sanit 29137 ários, fazendo refeições de restos estragados de comida, sem garantia de direitos trabalhistas e, ainda por cima, tendo que pagar com parte de seus salários pela degradante hospedagem e alimentação oferecidas na fazenda. Por outro lado, à vida do boi (enquanto não chega a hora do cruel abate) são dedicadas consultas médicas, vacinas, rações turbinadas, água limpa, manutenção de currais etc. Ambos, gente e boi, são tratados com um único propósito: o lucro. E onde há lucro não há justiça. Ou se resiste ou se aguarda o abate.

É importante frisar que quando falo de campesinato neste texto, incluo pequenos agricultores, comunidades tradicionais, como quilombolas, indígenas, fundos e feixes de pasto, ribeirinhos, pescadores artesanais, marisqueiras, jangadeiros, seringueiros, quebradeiras de coco babaçu etc. São estes povos do campo, são estas comunidades tradicionais que, por mais que muitos não acreditem, seguram grande parte da biodiversidade brasileira ainda viva. Prova disto está na região no Brasil apelidada de arco de fogo ou arco do desmatamento, uma faixa de formato semi-circular envolvendo ao Sul o núcleo da Amazônia brasileira, onde há os maiores índices de desmatamento no Brasil, concentrando quase 80% de todo o desmatamento da Amazônia. Vejamos o caso...

Historicamente, foram muitas as políticas públicas que incentivaram a expansão das fronteiras agropecuárias para o interior da Amazônia. Tais políticas tornaram esta região, hoje chamada de arco do desmatamento, fortemente assediada por pecuaristas, sojeiros e empreiteiros, principalmente após a construção de grandes rodovias para transporte de insumos ou escoamento da produção agropecuária, como as grandes BRs financiadas pela ditadura militar na década de 1960 e pelo PAC I e II dos governos do PT (projeto que o Temer continua tocando igualzinho o governo anterior... aliás, são do mesmo governo, a mesma chapa... fiquei confuso).

No entanto, há também logo adiante a este arco uma espécie de freio “invisível” à expansão do desmatamento. Ao contrário do que muitos “ambientalistas” pensam, não há duendes ou elfos saltitando pelo bosque com a camisa do Greenpeace distribuindo “gratidão” e “salvem as baleias”, tocando magicamente os corações dos pecuaristas, impedindo a expansão do  grande business na Amazônia com palavras de afeto. AmazoniaO que há são inúmeras Terras Indígenas, territórios tradicionais ou unidades de conservação repletas de povos da floresta que fazem das tripas coração, de suas flechas e espingardas o último suspiro, para resistir e defender seus espaços de viver, seus laços com a terra, defender a saúde e a vida de seus entes queridos, de suas comunidades (ver no mapa o cinturão de Terras Indígenas e unidades de conservação freando a mancha rosada que forma o arco do desmatamento).

Parece ter havido uma espécie de paralisia da maioria dos movimentos/instituições ditas “ambientalistas” (umas até com nome de seringueiro), que preferiu estacionar em seus confortáveis lugares de ignorância, sustentados e protegidos por hegemônicos ideários colonizadores, muitas vezes copiados, recopiados e multiplicados exaustivamente pela Academia. Quando pensam em meio ambiente, se atinam logo a vomitar nomes científicos de plantas, vertebrados e invertebrados, fungos e bactérias, esquecendo quase sempre das pessoas. Tais ambientalistas (reiterando o meu asco ao termo) possuem afeição quase doentia por espécies ameaçadas, e quanto mais ameaçadas forem, maior a felicidade de suas organizações, pois maiores serão as chances de captar recursos para o funcionamento de seus projetos (e tirar boa parte da grana para o serviço “administrativo” da empresa). Tais ambientalistas propagam termos violentos e colonizadores como “mata virgem”, “mata intocada”, “áreas de uso restrito”, “floresta primária” ou, o que é pior, “selva”, como se houvesse em qualquer canto deste mundo uma floresta que não tenha sido manejada por alguma comunidade tradicional, como se a biodiversidade não fosse produto também de milhares de anos de indução através de culturas humanas altamente complexas e não atrasadas ou “selvagens”.

Retornando à pecuária, tais ambientalistas até engrossam as fileiras das campanhas contra o desmatamento, contra a expansão da pecuária, mas os seus argumentos estão geralmente centrados na salvaguarda de espécies não humanas, como mamíferos, pássaros, peixes, répteis, o minhocuçu etc. Pergunto-me se os pecuaristas, repentinamente, abandonassem a Amazônia. Tais ambientalistas seriam os primeiros, talvez, a engendrar os seus esforços para retirar as populações humanas de seus territórios a fim de restabelecer as suas míticas “matas virgens”.

Retirantes Outro enorme problema da pecuária é que com a ocupação de grandes latifúndios para a criação extensiva do gado, que como dito não gera quase nenhum emprego, há um deslocamento absurdo de famílias das zonas rurais para as grandes cidades. Aos urbanóides assolados pela fobópole, isto é visto como uma forte ameaça, pois professam que a migração dos povos do campo para a cidade agravarão os processos de favelização e o aumento dos índices de violência. Poucos serão aqueles que se preocuparão com a diminuição das culturas agrícolas tradicionais, que põem à mesa mais de 70% dos produtos de nossa dieta brasileira. Como serão pouquíssimos, quase raros, aqueles que se colocarão em lugar de empatia e solidariedade àqueles e àquelas que saíram de seus territórios tradicionais, locais onde enterraram seus pais, onde criaram seus filhos, onde aprenderam a nadar, a plantar, a colher, onde namoraram pela primeira vez, onde cada árvore, cada morro ou cada rio tinha um nome, onde cada entidade tinha uma morada. Estes raros conseguem imaginar o desespero de uma família tradicional ao aportar numa cidade grande, onde a terra foi substituída por concreto, os rios viraram esgotos, os morros viraram prédios e a mandioca nasce em isopores nos supermercados. Triste é saber também que, com a desestruturação desses povos tradicionais, perderemos também uma forte cultura comunal, de partilha, cuidado coletivo e solidariedade.

Não há como, ao se recapitular a História do Brasil (ou de qualquer outro lugar do mundo), acreditar que o Estado está aí para garantir direitos dos povos campesinos e não para proteger o Capital. Adicionado aos séculos de escravidão indígena e preta e à devastação dos ambientais naturais desde 1.500 no Brasil, gostaria de citar alguns fatos que afetaram diretamente os povos do campo e seus territórios em tempos recentes, mostrando que a divisão entre partidos de esquerda e de direita é meramente fruto de uma fantasia alieanda. A única divisão que há é entre os de cima e os de baixo.

Em 2004, houve uma Ação de Inconstitucionalidade (Nº 3239/2004) que contestava o poder de autoatribuição às comunidades quilombolas para identificar e caracterizar suas próprias terras. Esta Ação foi movida pelo partido dos Democratas (DEM), que teve sua campanha eleitoral financiada pela JBS. Há também a PEC 215/2012 que pretendia transferir para Charge_latifundioo Congresso Nacional a responsabilidade de aprovar a demarcação de terras indígenas e titulação de territórios quilombolas, ou seja, os processos parariam para sempre na burocracia da mais alta corte da politicagem. Esta PEC foi de autoria do PSDB, partido financiado pela JBS. Vamos relembrar também a PEC 71/2011 que dá direito à indenização pelas benfeitorias e também pela terra nua a "proprietários" de imóveis dentro de terras indígenas, ou seja, o Estado usaria dinheiro público para pagar aos ditos proprietários por terras que não são suas, mas que foram historicamente tomadas à força de comunidades originárias. A autoria desta PEC foi do PT, partido que mais recebeu recurso da JBS. Poderia citar páginas de absurdos como este, mas já dá para notar nestes pequenos exemplos que o interesse maior dos partidos é retribuir o “bem” que a indústria da carne trouxe aos cofres de suas facções. Querem mais?

Lembram da Kátia Abreu, famosa “Rainha Motosserra”, desmatadora voraz, latifundiária violenta e pecuarista? Ela, que chegou a dizer na mídia _95047887_hi037657424que "não existe mais latifúndio no país", foi nomeada a ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento durante o governo Dilma (PT). Com o governo Temer (PMDB), quem assumiu o lugar da Kátia Abreu foi o Blairo Maggi, conhecido “Rei da Soja”, também latifundiário e desmatador voraz. Estima-se que ele seja o responsável por metade dos desmatamentos da Amazônia entre 2003 e 2004. Seja de direita ou de esquerda, qualquer partido que tenha interesse em ganhar as eleições deverá flertar com a família real, com as rainhas e "reis do agronegócio" (ouça esta linda canção aqui).

Enfim, graves sãos os problemas gerados pela indústria bilionária da pecuária. Este modelo de uso e ocupação da terra, este modelo agrário de concentração de terras, esta violência contra os povos e comunidades tradicionais, esta destruição em massa dos recursos naturais, são todos parte de um grande modelo organizativo, onde o Estado (legislativo, executivo e judiciário), partidos, latifundiários e empresários estão numa mesma mesa de negociação, orquestrando os próximos passos de um genocídio programado dos povos do campo.

Este é o Estado e o seu papel histórico, já nos disse Kropotkin. Que cada movimento campesino se fortaleça na autonomia, que se articule em rede independente e reaja. Que cada comunidade fragmentada pela indústria da carne ou do agronegócio rebrote tal qual maniva, fortalecendo suas raízes até em terra beijada pelo fogo. Não adianta gritar #Foratemer, não adianta cantar #Voltadilma, #Voltalula ou #Salvem-as-baleias. São gritos perdidos no circo da ilusão. A cada hashtag, a cada voto, um coração campesino para de bater e uma carne podre deita à sua mesa.

Por uma Ecologia da Liberdade, por uma organização campesina autônoma e combativa.

 Curumim

Protesto-indigena



Do Amor Libertário

8 meses, por Léo Lopes - 22 comentários

Por Margareth Rago

Amorsub Quando, em 1980, fui pesquisar o tema do amor livre na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, encontrei a seguinte referência no fichário: “amor livre – vide prostituição”. Estran  ha correlação que, contudo, revela uma concepção muito difundida no censo comu  m, em geral, referente à mulher e não ao homem. Todavia, isto não merece maiores comentários, no final dos anos noventa. O que gostaria de fazer é trazer uma outra questão sobre o tema. Comumente, ao estudar anarquismo, ainda ouço a seguinte exclamação, quando se trata de falar do amor livre: “Os anarquistas pregavam, mas não praticavam. Eram todos monogâmicos”. Esta afirmação me faz pensar se para se praticar o amor livre seria preciso relacionar-se com muita gente. Confesso que não tenho a resposta definitiva.

A redescoberta do tema do amor livre, juntamente com todas as propostas libertárias de organização social, ocorre, aliás, em meados dos anos setenta, quando se vivia uma profunda critica ao autoritarismo dominante no país, ao mesmo tempo em que se processava uma forte modernização das relações de gênero. O feminismo e o movimento gay levantavam suas bandeiras, soavam os ecos do movimento hippie, da contra-cultura, da revolução sexual dos anos sessenta. Na novela da televisão, um casal praticava a “amizade colorida”.

É óbvio que, nesse contexto, o “amor livre” proposto pelos anarquistas foi imediatamente associado àquela forma de relacionamento amplamente divulgada pelos meios de comunicação. Contudo, uma leitura das fontes primárias parece indicar outras direções, mais interessantes, creio eu, de ser ler a interpretação libertária das relações amorosas, muitas décadas atrás.

Acima de tudo, parece-me que nos textos dos velhos militantes e nas páginas amareladas da imprensa anarquista dos inícios do século, está sendo colocada menos a proposta de variação de parceiros, do que a crítica à institucionalização dos sentimentos em formas rígidas e envelhecidas. Um questionamento da disciplinarização do amor e do sexo que vivia, então, a sociedade vitoriana, no Brasil e em outras partes do mundo, com a ascensão do poder médico. Já dizia a libertária mineira Maria Lacerda de Moura, criticando os bolcheviques, que “a vida não cabe dentro de um partido”.

Hoje que vivemos amplamente as “descontruções”, num momento pós-Foucault em que o conceito de “dispositivo da sexualidade” permitiu perceber as estreitas codificações das relações sexuais e “despervertizar o sexo”, é inevitável olharmos para os libertários que um século atrás faziam a crítica da “disciplina do amor”. Emma Goldman, nos Estados Unidos, questionava o mito da virgindade obrigatória da mulher, a maternidade também obrigatória porque fundamentada no discurso médico sobre a essência feminina, o casamento monogâmico eterno, enquanto Maria Lacerda perguntava se a mulher deveria ser considerada “degenerada” porque reivindicava prazer sexual. (Veja-se a respeito "A Mulher é uma degenerada?", título do seu livro publicado nos anos vinte). Como boas anarquistas, ambas defendiam o divorcio e insurgiam-se radicalmente contra a submissão sexual da mulher. A espanhola Frederica Montseny, por seu lado, defendia a legalização do aborto, prática que levou a cabo durante sua participação no Ministério da Saúde na Revolução Espanhola, entre 1936-39.

Aquarela_passarosEmbora ainda estejamos lutando pela descriminalização do aborto, ou pela aceitação do homoerotismo na sociedade, é claro que essas demandas já encontram um campo desbravado e plenamente configurado para serem debatidas publicamente e incorporadas, ao menos parcialmente, com amplas adesões. A sociedade se tornou, de certo modo, mais libertária e feminista. Há uma aceitação mais aberta das relações sexuais não institucionalizadas, muito embora se observe nos jovens uma tendência ao casamento nas formas tradicionais.

Não importa, parece-me que o mundo pós-moderno deve conviver com as diferenças, o que implica a coexistência de velhas e novas formas. Inevitavelmente, estamos mais abertos de modo geral para viver plenamente a sexualidade, o que não significa contudo que os problemas tenham sido resolvidos, pois outros se colocaram. É difícil compreender, por exemplo, por que a Revolução sexual dos anos 60 não acabou com a prostituição, por que depois de toda a crítica, os homens, ou melhor, vários continuam casando-se com a figura da “mãe”, enquanto se realizam sexualmente com a “degenerada nata” do Dr. Lombroso. Há quem diga que, na verdade, a modernização das relações de gênero não significou o fim das desigualdades sexuais e a construção do amor libertário. É bem possível, mas ainda assim, nós mulheres conseguimos muito mais espaço, inclusive nas formas de manifestação do desejo. Os artigos da imprensa discutem abertamente os temas que, no passado, só se encontravam na imprensa libertária, e certamente colocados de maneira diferente.

Em suma, não há duvida de que os anarquistas abriram as portas, já no século passado, para um repensar das práticas sexuais e das concepções da sexualidade que informavam o imaginário social. Discutiram questões fundamentais como o casamento monogâmico, o divorcio, a maternidade obrigatória, o aborto, a prostituição e propuseram o amor livre e o direito ao prazer. Problematizaram um campo de Aquarela-de-dois-papagaios-59322836temas-tabus que, naquele momento, estavam passando das mãos da Igreja para o poder médico, sem sofrer grandes alterações em sua normatividade, fenômeno que tem sido pouco discutido e, aliás, notado. Quando os médicos repunham a questão da sexualidade em termos científicos, preservando e até acentuando todos os preconceitos e concepções sexuais repressivas, construindo conceitos como o das “perversões sexuais”, os anarquistas defendiam o “amor livre”, isto é, a união entre duas pessoas baseadas exclusivamente no desejo. Ao reivindicar a publicização do privado, o que afeta certamente as questões da sexualidade, não há dúvida de que o feminismo contemporâneo retomou antigas lutas colocadas pelas/os libertárias/os, querendo ou não.

Mas, se hoje as sexualidades afloram em sua multiplicidade, ao desfazerem-se as tradicionais barreiras imaginarias de codificação dos sentimentos e desejos, não há duvida de que o mundo se complicou. Nesse sentido, está difícil acrescentar muita coisa ao debate. De um lado, as relações não estão mais livres, leves e soltas, como nos apresenta o filme “Denise está chamando”, ao focalizar o tema do amor virtual. De outro, a juventude atual é muito mais livre de que a das gerações passadas, enquanto que o corpo e o sexo foram incorporados como dimensões fundamentais da vida emocional e psíquica. Tendências contraditórias, opostas, multifacetadas. Parece que as cartas estão todas colocadas e embaralhadas. Da minha parte, vou ficar com o poeta, cantando “qualquer maneira de amor vale a pena, qualquer maneira de amor valerá”.

 Link original



Seduzido pela imagem da realidade.

8 meses, por Léo Lopes - 0sem comentários ainda

Por CrimethInc

Dias de Guerra, Noites de Amor

eles o têm na palma da sua mão.

  Quando eu olhava revistas quando eu era pequeno, costumava pensar que deveria existir em algum lugar um mundo mágico onde tudo parecia ― e era ― perfeito. Eu via imagens disto nessas páginas, o ar enevoado de salas pouco iluminadas, cheio de drama, onde as modelos relaxavam em roupas de marca. É que a emoção e a aventura estão, eu pensava, no mundo onde toda sala é impecavelmente decorada e o guarda-roupa de toda mulher é escolhido e combinado com ousadia e elegância. Eu resolvi ter minha própria vida de aventuras, e comecei a procurar imediatamente por essas salas e essas mulheres. E embora eu tenha descoberto que o romance e a emoção raramente andam lado a lado com suas imagens que nos são presenteadas ― normalmente o oposto é que é verdade, encontramos a aventura exatamente onde não há tempo ou energia para manter as aparências ― às vezes eu ainda me pego pensando que tudo seria perfeito se eu morasse naquela pitoresca cabana de madeira com tapetes combinando.

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  Por que pensamos tanto nessas imagens hoje, ao invés de nos concentrarmos na realidade, em nossas próprias vidas e emoções? Uma das razões pelas quais imagens ganharam tanta importância nesta sociedade é que, ao contrário da atividade, imagens são fáceis de vender. Publicidade e marketing, que são feitos para dar valores simbólicos a produtos para atrair consumidores, transformaram nossa cultura. Há gerações as corporações têm disseminado propaganda projetada para fazer-nos acreditar nos poderes mágicos de seus produtos: desodorante lhe dá popularidade, refrigerante dá juventude e energia, calças jeans lhe deixam sexy.   O que quer que estejamos procurando, nós tendemos a perseguir nossos desejos indo atrás de imagens: símbolos das coisas que desejamos. Compramos jaquetas de couro quando queremos perigo e rebeldia. Compramos carros rápidos não para dirigir a altas velocidades, mas para recapturar nossa juventude perdida. Quando queremos viver num mundo diferente, compramos panfletos políticos e adesivos de pára-choques. De alguma forma presumimos que possuir todos os acessórios certos nos dará as vidas perfeitas. E enquanto construímos nossas vidas, geralmente o fazemos de acordo com uma imagem, um padrão que nos foi oferecido: hippie, empresário, dona-de-casa, punk.

 Em nossos empregos, trocamos nosso tempo, energia e criatividade pela capacidade de comprar estes símbolos ― e nós os continuamos comprando, pois é claro que nenhuma quantidade de cigarros jamais dará sofisticação a alguém. Ao invés de satisfazer nossas necessidades, esses produtos as multiplicam: pois para adquirí-los, devemos vender nossas vidas. E nós continuamos repetindo, por não saber outra forma, esperando que o novo produto (livros de auto-ajuda, discos de punk rock, aquela cabana de férias com tapetes combinando) será aquele que deixará tudo certo.

 Somos facilmente persuadidos a perseguir estas imagens pois é muito mais fácil mudar o cenário à sua volta do que mudar sua própria vida. Quantos problemas, quantos riscos você evitaria se você pudesse tornar sua vida perfeita simplesmente colecionando os acessórios corretos! Sem precisar participar. A imagem vem para incorporar tudo aquilo que você deseja, e você gasta todo o seuClube_da_luta tempo e energia tentando acertar os detalhes (o boêmio tenta encontrar a perfeita boina preta e os perfeitos saraus para participar ― o universitário têm que ser visto com os amigos certos, nas festas certas, bebendo a cerveja certa e usando a camisa casual correta) ao invés de tentarem perseguir seus desejos pessoalmente ― pois é mais fácil se identificar com uma imagem pré-fabricada do que identificar exatamente o que você quer da vida. Mas se você realmente quer aventura, uma jaqueta australiana de caça não será suficiente ― e se você quer romance de verdade, jantar e cinema com a garota mais popular da sua escola podem não ser o bastante.

  Fascinados como somos por imagens, nossos valores passaram a girar em torno de um mundo que nunca podemos vivenciar de verdade. Não há como entrar nas páginas de uma revista, não há como ser o arquétipo punk ou o executivo perfeito. Estamos "presos" aqui fora no mundo real, para sempre. E mesmo assim continuamos buscando por vida em fotografias, em modas, e espetáculos de todos os tipos, qualquer coisa para colecionar ou assistir ― ao invés de fazer.

  Procuramos por vida na imagem da vida.


Link original



Empoderamento e Empreendedorismo: quando fomos cooptados?

11 meses, por Léo Lopes - 0sem comentários ainda

Por: anarcksattack

  Empoderamento é uma das categorias que tem ganhado relevância no cenário contemporâneo em virtude de trazer uma noção interessante acerca da conscientização e superação de determinadas relações sociais de poder. Empoderar-se remete a capacidade de se contrapor a uma relação de poder opressiva a partir do reconhecimento de que eu ou o grupo social ao qual pertenço também é dotado de poder.

 No entanto, esta categoria é utilizada muitas vezes de forma irrefletida de modo que algumas pessoas confundem representação com empoderamento e de uma maneira até mais perversa a ideia de empoderamento vem sendo justaposta a noção de empreendedorismo. Logo, a questão que quero colocar aqui é: como podemos refletir sobre o empoderamento? Ou melhor, quando estamos sendo cooptados a partir de uma noção que deveria, em tese, nos emancipar?

 Para refletir sobre empoderamento é preciso entender como se estrutura o nosso sistema social (a sociedade capitalista) e entender a capacidade que este possui de tornar inofensivo e de cooptar uma ideia aparentemente radical de contraposição. O que está em jogo é capacidade que o capitalismo possui de transformar um problema coletivo em um problema individual (esta é a chave  para entender a questão aqui colocada).Exemplos disso ficam explícitos na ideia de que indivíduos por si só empoderam outros indivíduos, ou que a estética e a representação (como também consumo de produtos associados a essa ideia) por si só cumpririam essa função.

 A primeira coisa que temos que ter em mente é que o empoderamento é um exercício de autonomia do indivíduo que ocorre de maneira conjunta com a reflexão coletiva acerca de como se estrutura as relações de poder na sociedade. Logo, o empoderamento é mais um caminho do que uma imposição (o que impossibilita que uma pessoa individualmente empodere outra). Empoderamento é uma descoberta de si na relação de poder (coletivamente forjada) e não um esclarecimento fornecido por pessoas iluminadas. Por isso não existe empoderamento que seja individual.

 No entanto, esta é a estratégia adotada pelo capitalismo para manter uma estrutura que seja favorável aos seus interesses sob o rótulo de empoderamento. Por isso algumas pessoas acreditam que a representação e a estética por si só já tornam as pessoas empoderadas sem refletir sobre a dimensão oculta nesta relação. Óbvio que estar representado e assumir esteticamente aquilo que é considerado marginal exerce um papel importante de contraposição. Pórem na maioria das vezes estes elementos tomados isoladamente recaem novamente na ideia de que existe um empoderamento que seja individual e isto vem com o bônus do que vou chamar aqui de empreendedorismo empoderado.

 O empreendedorismo emponderado é aquele em que elementos de contestação são usados a favor de uma estrutura empreendedora, está muito próxima daquele espírito capitalista tratado por Weber no clássico ‘A ética protestante e o espírito do capitalismo’, onde a moral protestante favorece o desenvolvimento do espírito capitalista. Isto fica evidente também contemporaneamente em alguns segmentos neopentecostais com a teologia da prosperidade  que prega a benção financeira, onde a igreja não doutrina mais trabalhadores e sim empreendedores, é que aponta o antropólogo Carlos Gutierrez (link aqui).

  De outro modo essa lógica passa a acometer determinados segmentos que acreditam que a saída emponderada para os problemas coletivos seria empreender, ou seja, vender produtos ou criar marcas que enalteçam um determinada estética e favoreça um representatividade (negros, homossexuais, mulheres, etc.). O grande problema aqui é que esta saída geralmente recai na ideia de um esforço individual e de mérito ocultando toda uma estrutura de opressão, e aí quando menos esperamos estamos sendo cooptados. Como diz a a filósofa Camila Jourdan (link aqui): “o que você quiser o capitalismo pode te vender,  menos o que não é vendível. Então, é como se ele procurasse o que pode negá-lo, construísse um fake palatável e vendesse no mercado. (…) Portanto, tenta tragar de modo espetacular para dentro de si o que o nega e se coloca como fora dele”. Quando menos esperamos o empoderamento virou um slogan, e sem querer estamos trabalhando na lógica daqueles que nos oprimem.

   A tentativa aqui é trazer uma reflexão que muitas vezes não é dada tanta importância, mas que no final das contas influencia no resultado final dos discursos acerca do empoderamento. Tampouco o objetivo foi atacar iniciativas de grupos ou pessoas que buscam viabilizar economicamente sua vida nesta sociedade perversa que é a capitalista, mas sim atentar para quais discursos estão justificando estas práticas. Empoderar-se certamente é encontrar saídas coletivas para problemas aparentemente individuais.

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Fonte: Empodere suas raízes (facebook)

 



Louvor a meritocracia: Black Mirror é aqui.

11 meses, por Léo Lopes - 22 comentários

Por: Daniel Rocha

A prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) talvez seja um dos eventos mais importantes do ano, em virtude de ser o rito de passagem daqueles que depois de um longo tempo estudando pretendem ingressar no tão sonhado nível superior. Isso tudo sempre a custa de muita dedicação, afinal de contas, foram horas de estudo – a vida inteira – para estar entre os selecionados.Twitter_black_mirror_2

Isso em tese, já que o modelo social vigente sempre cria uma aparência para legitimar uma certa visão de mundo, ou seja, aprofundando um pouco sabe-se que nem sempre o mais “dedicado” irá acessá-lo (o nível superior). Afinal de contas marcadores sociais limitam o acesso daqueles a serem selecionados. Os “privilégios” aqui são importantes (de raça, classe, gênero, e etc., ou até mesmo do próprio Estado, que fornece um número limitado de vagas, a universalidade do ensino como direito social só é garantida para algumas pessoas). Essa seria a expressão clara de uma sociedade que é meritocrática.
Avaliações e provas como formas de ingressos baseada em conteúdos pré-definidos.

O que é chocante é que a meritocracia alcançou um novo patamar, e tem se convertido em culto, o rito de passagem aqui tornou-se espetáculo/tragédia ganhando um conotação jocosa para aqueles que se converteram em plateia para ver os “atrasados no Enem”. Como é possível verificar num dos vídeos gravados na cidade de São Paulo, na entrada de um dos prédios em que aconteceria a prova. Aqui

Nesse meio tempo nas redes sociais um dos assuntos mais comentados é a nova temporada da série distópica Black Mirror, atualmente produzida pela Netflix. Mirror traduzido para o português se converte em espelho, uma metáfora interessante para analisarmos essa manifestação coletiva do culto a meritocracia (o título do texto que acompanha o vídeo anterior por sinal é Black Mirror SP).

Nas ciências sociais a metáfora do espelho é empregada pelo antropólogo Victor Turner para fazer alusão a capacidade que as sociedades possuem de vivenciar experiências liminares a partir de diferentes ângulos e refletir sobre estes eventos,ou seja, assim como no jogo de espelho, a reflexão propiciada seria carregada de imagens distorcidas, incoerentes, cheias de tensões e conflitos, evidenciando dimensões da vida social que não são percebidas cotidianamente ou não estão resolvidas.

Black-mirrorEstas dimensões não resolvidas e aparentemente imperceptíveis evocam o que seria o “estilhaçamento” deste espelho. O espelho trinca e o que restam são pedaços incoerentes que devem ser reconstruídos (por sinal a vinheta inicial da série Black Mirror é um espelho trincando) para encontrar naquilo que estava “oculto” (distorções, incoerências, conflitos) algum sentido, é o que diria, por exemplo, o sociólogo Walter Benjamin. A reconstrução destes estilhaços é o que guia aqui a colagem entre Enem, meritocracia, e a série Black Mirror.

Um dos episódios mais comentados da nova temporada (a terceira temporada), é o primeiro episódio em que pessoas vivem em uma sociedade em constante avaliação, onde tudo pode e deve ser avaliado para gerar um score ou um número que reflete a qualificação das pessoas em termos de nota. Esta nota serviria de parâmetro para se relacionar com outras pessoas e possuir coisas, eu posso avaliar os outros e escolher a partir da nota que eu recebo deles como vou me comportar e o que vou consumir para idealmente sempre possuir uma boa nota.

São entre 17 a 18 anos sendo avaliado somente na escola infantil ao ensino médio, quando não em casa por esta mesma nota, nossos boletins escolares são o atestado de inteligência e capacidade, na faculdade são mais 5 anos em que temos que provar e ganhar esta nota, e no trabalho não é diferente. As notas servem como parâmetro para definir entre aquele que é capaz e bem comportado e aquele que não está adequado e tem um comportamento desviante. São anos, digo, nossa vida toda. Isto porque só me ative ao termo “nota”, se formos para aqueles marcadores sociais que nos qualificam isto ganharia uma dimensão gigantesca (aparentemente surreal), mas na verdade, é bastante real, é o nosso cotidiano.Algumas pessoas comentaram também nas redes sociais o absurdo que seria se chegássemos a esse nível, e o quão chocante era este episódios já que parcialmente estaríamos vivenciando com todas estas tecnologias a era das avaliações (likes facebookianos, Uber, corações de instagram e etc.) Eu aqui pensando, me ative a termo “nota” e refleti sobre minha trajetória de vida, onde por certo tempo ainda nem existiam estas tais tecnologias, e posso afirmar, Black Mirror é aqui, e há muito tempo.

Enem

O Enem é a prova concreta disto uma avaliação meritocrática em que o esforço é sempre mediado pela capacidade/incapacidade individual de ter ou não uma boa nota, culpabilizando sempre o indivíduo e não uma estrutura. No Brasil esta estrutura é tão relativizada que se transforma em espetáculo e culto, daqueles, por sinal, que não precisam desta nota porque invariavelmente já carregam consigo a sua “nota como herança”, o status quo, e podem zombar daqueles que correm para ter aquela nota mínima para ir ao nível superior – aquele mais acima – onde se ganha um pouco mais ( mas nem sempre), e podem se converter quem sabe em plateia.

No entanto, a luz refletida pelo espelho é múltipla, enquanto uns são plateias e admiradores do espetáculo da meritocracia, outros estão construindo o caminho inverso ocupando escolas de forma horizontal, autogestionária, se reunindo em assembleias, contrariando esta realidade próxima da distopia que vivemos e construindo um novo caminho.Porque ao mesmo tempo que a distopia nos tangencia, um mundo guiado por nossas utopias e paixões nasce bem ao lado, todo dia.

 

 



Sobretrabalho

12 meses, por Léo Lopes

Por: Curumim

Era certo não dormiria. Nos momentos raros em que não havia obrigações,O_homem_e_a_casa
surpreendia-se com a avançada hora da madrugada. Ainda assim, estranhava
a calmaria. Fitava as sombras em volta da velha casa que nem era sua,
temendo que alguma delas saltasse de repente das paredes demandando-lhe
serviço, cobrando-lhe prazos ou entregando-lhe o reaviso de um boleto
ainda não quitado. Marcara o silêncio destes momentos com a lembrança de
persistentes nós que lhe doíam nos ombros. Nós que pareciam concentrar
todo o peso do trabalho em seus diminutos volumes, mostrando-lhe que sob
a rude tez talhada entre balanço de horas, dívidas e proventos, havia
ainda um sopro de vida enfermiço num organismo que resistia ao
automatismo. Deitado sobre a cama nada feita, contentava-se em saciar a
vontade de prazer qualquer com o terço do copo d’água que esquecera
sobre a mesa pela manhã, antes de ser sorvido por mais um dia de
trabalho na estrada. Aos goles frustrantes com sabor de poeira
umedecida, fechava os olhos que ardiam como brasas e brigavam ao toque
das densas pálpebras que deitavam invencivelmente sobre eles. Não
haveria forças para abri-los outra vez, mas a incompletude na alma
materializava-se em inquietas e incansáveis pernas em movimentos
doentios. Do lado de fora, psicóticos como ele brincavam de viver
enfileirando-se como mercadorias coloridas aguardando a vez de
enterrarem-se em estéreis urnas funerárias. Íntimo aos resultados,
executava diariamente a mortificante matemática da rotina. Dez, doze,
treze anos ainda. Os trinta e cinco, a mais visceral utopia do
trabalhador, chegariam em hora póstuma, quando o descanso em vida já não
jazeria mais necessário. Não sabia mais o significado das coisas, muito
menos de si próprio. Respirar era-lhe incômodo, por isto ofegava. Vencer
era-lhe impossível, por isto orava. Sentir era-lhe requinte, por isto
trabalhava. E por mais que todos os cantos de seu corpo cansado
gritassem em uníssono, por mais que todas as sombras tremulantes
Sobretrabalho_2sussurrassem em visceral tom, por mais que as paredes de seu quarto
reverberassem em desespero o milagroso mote de “A VIDA É UMA ORDEM!”... nada demovia o pobre trabalhador. E, deitando-se de lado, como um feto natimorto, era uma massa grosseira de encéfalo, fadiga e pensamentos confusos que repousava num amarrotado chumaço de suados lençóis. O mundo, ainda aos berros, avisava-lhe: “A VIDA É UMA ORDEM! A VIDA É UMA ORDEM! A VIDA É UMA ORDEM!”. Um sussurro longínquo, raquítico e amarelado fez-se presente e, não se sabe como (dizem por aí), o pobre trabalhador reagiu em último ato de bravura, fazendo emergir das entranhas as últimas forças de vida, o último sopro que não poderia ser gasto em vão. Entreabrindo nauseados olhos, curvou-se às sombras das paredes como quem clamasse por resposta, e disse, por fim, em fraca voz:
que é a vida? Mas já não lhe restava mais tempo.



Machismo na cena underground - Pode isso Bakunin?

aproximadamente 1 ano, por Léo Lopes - 99 comentários

Por: Jamile Marques

Sugestão: leia o texto ouvindo – Warlock – All We Are

Primeiramente, gostaria que vocês fizessem uma reflexão: Como foi que surgiu a cena underground? E, quais eram suas causas e lutas? Vamos lá: O underground surgiu como uma manifestação cultural que questionou os valores que conduziam grupos sociais e indivíduos em meio a uma sociedade em crise. O movimento underground (ou revolução underground) trouxe a superfície assuntos que eram marginalizados, até mesmo odiados e mantidos em “segredo” durante a constituição da sociedade moderna. Misticismo, sexualidade, agressividade, críticas ao modo de governo, loucura, filosofia, política, behaviorismo, misantropia e os demais temas eram um modo de crítica radical e uma forma de se contrapor com a sociedade. Digamos em boas palavras que o movimento underground criou o caos para desestabilizar e posteriormente rearranjar valores, condutas, identidades que eram e ainda são contra os moldes tradicionais e conservadores, e isso inclui machismo.

Então, partindo desse princípio, por que o machismo ainda impera numa cena onde ele não poderia existir? O Machismo_broxante_2movimento underground perdeu seus valores e propósitos de igualdade, é isso que aconteceu? Saindo dessa pequena introdução sobre o surgimento do underground percebemos que: o machismo não deveria ter espaço. Pois, se no seu âmago o movimento é de contrapor a sociedade em que vivemos. E, sabemos que mulheres e mais mulheres ao redor do mundo estão em lutas ferrenhas e diárias contra uma sociedade que nos minimiza, que não nos dá oportunidades igualitárias de trabalho e de estudos, que nos objetificam, que sempre nos tratou como um ser frágil e submisso as vontades masculinas e a lista é grande e não acaba aqui.

Lutamos para ter a oportunidade de nos educarmos, lutamos para votar e participar de decisões políticas de nosso país, lutamos ainda pela liberdade e conquista de território do nosso povo (Salve as mulheres curdas!!!). E em pleno século XXI ainda temos que lutar para garantir nosso espaço em uma cena que deveria nos acolher de braços abertos e extremamente calorosos, pois, também ajudamos a construir? Lembrem-se das primeiras mulheres que empunharam suas guitarras e assim, foi nascendo o rock, o jazz, o blues, não eram movimentos exclusivamente masculinos saibam disso, e, que também eram movimentos marginalizados até cair no mainstream ou como queiram, no famoso gosto popular e até um tanto elitista durante um tempo. Lembro também, que esses estilos nasceram a partir de críticas sociais, a partir de movimentos sociais e principalmente do movimento negro americano.

Por que ainda insistem em nos sufocar na cena underground? Aceitem vocês machistas, isso inclui também outras mulheres que perpetuam e propagam esse comportamento, dentro e fora da cena. Estaremos em todos os locais dessa cena!! Estaremos aqui eternamente! Saia do seu conservadorismo de merda... ou vai me dizer que o underground passou a ser tomado por convicções cristãs? É isso, o cristianismo e seu assombroso conservadorismo vai tomar conta dessa cena e propagar a submissão de nossas mulheres? Não era contra isso tudo que nosso movimento ia? Porque para mim, quem é conservador dentro do underground não sabe da história dele. Underground é IGUALDADE. Sim, igualdade de gênero também.

Pergunta: A quem as mulheres estão devendo em relação a participação em bandas? Produção de eventos? Produção de zines? Produção nas distros? Quem tem argumento para questionar a participação das mulheres em todos os setores dessa cena? Mesmo aquelas mulheres que são “apenas” consumidoras dos produtos do movimento: compram cds, apoiam bandas, divulgam eventos por redes sociais (e graças, temos internet, pois, no começo do movimento underground as pessoas tinham que sair de casa para ter contato com tudo isso que nós temos acesso no conforto de nossos lares e sem fazer esforço), comparecem aos shows. Isso é fazer parte! Isso é contribuir. Nos respeitem! Saibam que merecemos tanto quanto você que resiste a nossa presença por aqui...

Para você que ainda acha que isso é conto da carochinha, ou mimimi (como vocês adoram dizer), bem vindo ao mundo real e trago verdades em alguns relatos abaixo:

"menina no mosh tem que tomar pau mesmo, não quer ser tratada igual a homem?'' - uma mulher escutou isso em um show esse mês em Salvador (setembro/2016) – Bahia.

Outro relato de uma mulher que toca, produz eventos e etc:

“Até que você toca bem. Mulher utiliza dos seus privilégios para se fazer de vítima”, “Ahhh, vc toca na banda?”, “Você é namorada de quem na banda?” 

Momento em que ela entrou como cortesia para prestigiar amigos em um show. “Um homem olha para mim enquanto eu falava sobre a importância da participação feminina nos espaço e grita: 'Cale a boca!' Depois disso, no momento que fui tirar satisfação ouvi: 'Venha cá, você não respeita macho não?'

Vocês ainda acham que é fácil estar nessa cena? E escutar isso sempre? E tome mais relatos:

“Mulher não curte som ,ou está acompanhando o namorado ou veio só pra pegar homem”.

“Já me tiraram da roda a puxões de cabelos e me agrediram, porquê mulher não pode entrar em roda”.

“Já me agarraram no mosh”.

“Só pode ser lésbica entrando no mosh dessa forma”.

“A maioria das mulheres que vão em show de metal é pra arranjar homem".

Outro relato foi por a mina discordar em relação a uma banda:

“O cara começou a esculhambar falando que a banda é ótima que não temos direito de opinar , porque nós mulheres só curtimos metal por que é frequentado por "macho"”.

Bem, depois de tantRespeita_as_mina_2os relatos de diferentes mulheres, de diferentes estados e cidades, ainda acha que é história pra boi dormir? Não estamos aqui para fazer vitimismo. É para mostrar o quão contraditória é essa cena, pois, pensava que era uma meia dúzia de zé ruela que pensava assim, mas, ultimamente com os movimentos de empoderamento feminino nas redes sociais, pude ver que muita, mas, MUITA gente pensa dessa maneira torpe em relação as mulheres no underground. Somos feridas psicológicamente e emocionalmente... Como essas frases aí em cima nos relatos das minas. Somos atacadas fisicamente também... principalmente em meio aos moshs da vida. O cara usa de todas as formas para tirar a nossa presença daquele lugar, a nossa presença que incomoda, que é intolerável para o ego dos machistas, nos tiram a base da extrema violência, por abusos sexuais (a famosa mão boba, que de boba não tem nada, é mão criminosa mesmo), ou pela forma de “proteção” "é bonitinho", mas vela o estereótipo de mulher frágil que não vai aguentar ficar ali naquele “tumulto”. Deixa dizer uma coisa, se a mina entra no mosh ela sabe exatamente o que está fazendo. Para de tentar nos oprimir! Para de CLOSE ERRADO! Para de achar que mulher na cena tá desesperada por macho! Para de achar que mulher no underground é entretenimento para os sedentos machos incontroláveis! Pare de querer testar a todo tempo nosso conhecimento sobre bandas e afins! Pare de achar que mulher tem que dar mole para qualquer babaca que aparece!

 

Cada dia mais eu tenho mais orgulho das minas que pude conhecer dentro da cena... Cada dia mais respeito por saber o quanto temos que aguentar para nos manter na resistência! A coisa é tão crítica que temos as vezes de fazer manobras, logísticas para nossa proteção, marcar com amigos de extrema confiança para que a gente esteja mais confortável e protegida de ataques de extrema violência, ou de pessoas que tentem se aproveitar de nós pelo nível etílico ou outras coisas mais, temos medo em um local que merecemos estar e que não é exclusividade de homens. Que merda é essa? Isso não deveria acontecer Salve a todas as mulheres que lutam por esta cena! Salve as mulheres que estão em banda, na produção, no design, na poesia, na militância, no público, no mosh, na fotografia, no espaço do evento trabalhando, nos zines, nos coletivos!!

RESPEITA AS MINAS DO UNDERGROUND!!!!

Dedico esse texto: a todas as mulheres dentro o fora da cena underground, as minas que forneceram seus relatos, ao Coletivo Mosh like a Girl, ao Coletivo Crust or Die, as bandas: Krise, Mácula, Agnósia, P.U.S, Mercy Killing, Valhalla, Excruciation, Nervosa, Manger Cadavre, NervoChaos, Torture Squad, Sinaya, In Infernal War, Ocultan,Insanity Force, Miasthenia, Hatefulmurder, Mantilla, Mythic, Stigma, Pathology (Bélgica/Holanda), Arch Enemy, Walls of Jericho, Infinited Hate, Körgull The Exterminator, Phantom Blue, Warlock, Holy Moses, Marok, Purson, Estamira, Impetus Malignum, Abnormality, Las Brujas e todas as bandas com mulheres em suas formações!

Mina_mike

 



Ondas Indomáveis

aproximadamente 1 ano, por Léo Lopes - 0sem comentários ainda

Ondas_indom_veis



A saída é anti-autoritária e anti-capitalista.

mais de 1 ano, por Léo Lopes - 0sem comentários ainda

Por anônima roxa

De fato, a cisão entre os partidos sempre foi nas divergências em como operar o Estado. A justificativa tem como base a ideia de que as classes de trabalhadores são naturalmente desmobilizadas, despolitizadas (ou são pacificadas?) ou seja, não são capazes de se organizar e conduzir interesses coletivos nos espaços em que vivem e trabalham. Não podem apontar qual a melhor forma de organizar a política econômica, de se articular os transportes, proteger território, de relacionar centros educativos, locais estratégicos de postos de saúde, gerir seu espaço de trabalho com vistas ao bem público, exercer poder, enfim. Vimos e veremos que na história as posições políticas são resultado da prática política, é a justificativa da prática que tem conferido a legitimidade do poder.

Nas manifestações de junho já havia o sinal de que seja qual for a crise, vai ser resolvida com prisão e porrada. Mas esta mesma democracia, hoje, um apelo da “esquerda” e da direita, existe e precisa ser defendida apesar dos ataques que sofreu em toda a história política brasileira.Holly_motors

As perguntas que precisam ser respondidas são: quando que a população poderá decidir, a partir de própria experiência política, rumos do país? Quando que os instrumentos de reivindicação da classe trabalhadora vão defender os interesses de classe sem mediar valores com conchavos? Quando grupos de esquerda se organizarão numa perspectiva anticapitalista e contribuirão na articulação das reivindicações da classe trabalhadora? Como que o distanciamento das questões políticas vai permitir uma perspectiva consciente dos fenômenos sociais e políticos?

O que se vê é que a “esquerda”, há 14 anos, tem sentado tanto à mesa do parlamento e se deleitado com cargos institucionalizados ou burocráticos que perdeu total contato com a vida da classe mais pobre. A esquerda agora compõe uma classe conhecida, uma classe formada por intelectuais de renomadas universidades, jornalistas da grande mídia, políticos dos mais diversos partidos...a esquerda disputa ser a força discursiva resultante da classe intelectualizada, suas propostas são por dentro da instituição e buscam definir e redefinir o correr dos processos, selecionam eventos para compor o quadro conjuntural que justifica anos e anos de erros políticos. Hoje, na crise mundial econômica, período de grande instabilidade política no país, os descontentamentos com o governo se reduzem, na argumentação governista, à classe média e à elite ressentidas com um governo PT que defendeu "o povão". Todas as críticas da esquerda à forma de fazer política do PT e de sua militância, todas as críticas à coligação com o PMDB, se justificariam na argumentação governista a “uma esquerda que está num ninho de cobras (os espaços das figuras políticas do jargão boi, bala e bíblia) e se não é cobra, só pode ser a presa” Ou seja, quero dizer que o Partido dos Trabalhadores, por justificativas de conter o avanço neoliberal privatizante optou por solapar pouco a pouco direitos trabalhistas, os setores de educação e saúde públicos etc. O que não deixa de empurrar o país para um processo de privatização branda, esta que aos poucos terceiriza setores internamente, que concede a exploração de partes do território e de bens naturais a empresas estrangeiras. Talvez agora o Partido dos Trabalhadores e quem mais quiser testemunhar finalmente perceba que não existe qualquer possibilidade de transformação social ou do poder de longa data, muito menos estrutural, tendo por instrumento o Estado, apesar de haver um discurso oficial da esquerda que nega isto.

Está evidente que, de uma forma ou de outra, o Estado não deve ser um espaço disputável. Porque suas reformas tem prazo de validade. É um Estado instável. O Estado tem a tarefa de manter uma estrutura de divisão do trabalho e da propriedade e, portanto, toda sua estrutura foi montada para impedir qualquer transformação que seja estrutural. Prometer transformação social mediante o Estado é como tratar das instituições políticas e sociais como uma engrenagem, mecânica, troca-se as peças defeituosas e resolvido o problema. É esta ideia do Estado como uma estrutura 'que por si só' garante democracia que parece unificar hoje partidos de legendas (que parecem ser) antagônicas.
Bakunin
Democratas, Peessedebistas, Petistas se estapeiam na cidade para garantir eleição, para manter sua gestão, custe o que custar. Custe o que custar...é assim que na prática as mais diversas filiações partidárias em situação de governo operaram uma política de segurança análoga à ideia do Rui Costa, governador da Bahia, este considera que policial na favela é tipo um “artilheiro frente ao gol”. Na lógica dos governantes, cada morte se contabiliza como um gol e ainda, em geral, toda torcida parece querer ganhar de goleada.

Alguns instrumentos importante de luta das classes mais pobres, que deveriam cobrar e construir melhoras nas condições de vida de toda a população, são condicionados pelas direções, que atuam como freios e blindagem de partidos coligados.

Há crise política e há tempos, todo tipo de manifestação popular de reivindicação política ou é duramente reprimida ou é absurdamente cooptada pela instituições estatais. E esta crise mais estrutural faz parte das escolhas políticas feitas pela esquerda em congressos, nos acordões e politicagem para se manter no governo e garantir algumas reformas... Reformas importantes? Certamente. Reformas duráveis? Apenas o tempo em que o poder estiver sendo exercido para manutenção de privilégios de educação e propriedade. Deu crise, o setor mais fragilizado que quebra.

É, pegou para todo mundo, inclusive para quem nem chegou ainda, porque pela constante privatização de setores, consequente caça às bruxas de direitos trabalhistas e criminalização dos movimentos sociais temos uma articulação perfeita para a concentração de capital. O quadro é realmente pessimista e a classe que mais sofre estes impactos foi principalmente pacificada, um legado do PT e do PcdoB com sua política de consumo e  "facilidade" de crédito pra as classes pobres, na aparência pode-se até dizer que houve melhora, mas o resultado está na voraz concentração de capital que acirra conflitos sociais. A pacificação também se expressa através do sucateamento da educação e do seu papel sendo transferido para a política de segurança.

O papel de sindicatos, movimentos sociais, organizações autônomas nesta conjuntura política e em qualquer outra, é o de taticamente reivindicar melhoras nas suas condições (e qualidade) de vida e de trabalho às estruturas que competem e, principalmente, de forma estratégica, construir novos espaços de resistência. Sabem aquele discurso de que “O Brasileiro tem memória curta”?, então, acredito que a negação desse jargão popular está na ojeriza à política partidária, esta política que passa por cima de “alguns princípios” por um “motivo maior”. É assim que parece que os falseamentos, corrupções, propinas vão seguindo com protagonistas tanto da direita quanto da esquerda.

Em 1976, o DOI-Codi e dops, instrumentos da ditadura, invadiram uma casa, na Lapa (SP) e metralharam dirigentes do PCdoB e PCB, evento conhecido como a Chacina da Lapa. Em 2016, ainda famílias buscam justiça para os mortos da Chacina do Cabula (BA). Mas estes são mortos em uma democracia, como justificar isso? Polícia mata compulsoriamente nas periferias - mas o Estado implantou as cotas; A mortalidade de mulheres (por serem mulheres), o feminicídio, aumenta ano-a-ano - mas o Estado permitiu uma secretaria de políticas para mulheres. Expansão dos setores energético e industrial causando desastres sociais, como genocídio, e ambientais - mas o Estado garante a demarcação do território indígena. Pensar política e tomar postura de esquerda não pode se resumir aos argumentos e práticas que justificam a governabilidade, desenvolvimento e um equilíbrio, independente de quem esteja sofrendo com as regras do sistema.

A governabilidade justifica as articulações contraditórias, o desenvolvimento justifica a política social, e o equilíbrio sempre é a justificativa para o uso do cacete. Tudo isso para defender um “bem maior”. Não importa qual seja ele. Só argumentos que se hierarquizam em um “bem maior” que poderia colocar Renan Calheiros e PSTU pedindo eleições gerais. Vê. Será que a culpa é a plasticidade do PMDB?

Os governistas do PT, PcdoB, Consulta Popular, etc, que antes blindavam todas as críticas ao governo, agora as reconhecem no tom de que se as negassem estariam ainda mais fechados ainda em suas bolhas...Repress_o

Os governistas reconhecendo suas críticas, aderiram aos progressistas da Universidade “Contra o Golpe”. Os acadêmicos progressistas se perderam em estatísticas, dados, conceitos, processos institucionais, e por isso, se baseiam em números e história: a esquerda universitária está atuando com o olhar voltado para o passado sombrio da ditadura, o discurso é que tudo vai piorar com este impeachment. Não digo que não há semelhanças entre todo o processo da ditadura e nosso momento de democracia: ainda tem gente morrendo pelas mãos de latifundiários, nas cidades morrendo nos becos; o aprisionamento ainda domina como lógica de segurança. Na ditadura a maior parte da massa segue sua vida sendo convencida do sistema, e muita gente que não se encaixa ou se revolta pode ser morta. Em democracia representativa, a maior parte da massa segue sua vida sendo convencida do sistema, e muita gente que foi marginalizada ou se revolta pode ser morta. Nesta democracia, o Estado não precisa mais perseguir tanto comunistas, hoje, 'estes são mais razoáveis'. Quem é o marginalizado do sistema é quem pode desaparecer ou morrer.

É preciso olhar o presente, mas não sob olhos dos meios de comunicação de massa. Se percebermos que diante de uma crise econômica, o período é de acirramento de conflitos políticos e sociais e que precisamos estar organizados de forma antiautoritária e anticapitalista, construindo estratégias de luta cada vez mais articuladas, isso nos direciona para pensarmos nossa atuação nos locais em que estamos inseridos e o que podemos fazer a partir dos problemas gerados pela crise nestes locais.

O pressuposto dos "Governistas" é que com o “golpe” haverá um maior avanço neoliberal, de privatizações e perda de direitos, um caos político e social. A manutenção de Dilma no executivo é colocada como garantia do Estado democrático brasileiro. Parece que não contam com a arbitrariedade da estrutura estatal e o alinhamento do neoliberal/desenvolvimentista do governo petista. O governismo avalia que, na verdade, o PT age na contenção de um avanço neoliberal que sob outro governo seria mais intenso. Assim, a forma de lidar com a crise política é argumentar pela legalidade e ter a parcimônia, caso Dilma permaneça no executivo, porque “o povo brasileiro precisa enfrentar junto a agora admitida crise econômica mundial”.

O pressuposto dos "Golpistas" é que com o “impeachment”, e este deve ocorrer custe o que custar, o país se recuperará da crise política e econômica com mais rapidez, cortará ainda mais os gastos em setores públicos, “dinamizará” ou “privatizará” a gestão de setores e instituições. Parece crer que o impeachment de Dilma vai reestabilizar a política e assim poderá tomar as 'melhores' medidas para reestabilizar a economia. Mas ora, estas medidas são justamente o avanço maior neoliberal, de privatizações e perda de direitos, de onde emergem os conflitos sociais. Já o não impeachment gerará uma não-governabilidade, ou seja, um período de caos político no parlamento que também acirra conflitos sociais.
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O caos político e social parece que é inevitável. Mas precisamos nos organizar urgentemente de maneira mais articulada e voltados para o presente, para este exato momento de caos, para avaliarmos de que forma podemos verdadeiramente conter o avanço neoliberal. Numa perspectiva anarquista, sem o apego governista ou paragovernista ou golpismo neoliberal à legalidade burguesa. Infelizmente os progressistas em geral e a “esquerda” se posicionam, mais uma vez na história, a favor da manutenção do status quo. Desculpem, mas esta defesa toda à democracia e à legalidade só pode vir de quem tem um pouco mais de privilégio nela.

Sabe-se que não dá para fazer coro com o “golpismo neoliberal” e que também não dá para defender os moldes da democracia burguesa. Há uma aparente polarização no debate político, “Não vai ter golpe” e “Impeachment Já”, ambos os slogans tem por base a defesa do exercício da "representação democrática" por parte de grupos muito bem definidos em termos de classe social. Estas polarizações políticas, um vício do sistema eleitoral, continuam colocando para debaixo do tapete todas as contradições próprias do nosso formato de sistema político e econômico.

Ora, onde é que vai dar certo conciliar interesses antagônicos? Crise política faz parte: um bocado de elite em torno do poder centralizado para garantir seus interesses, um punhadinho que acredita que devem haver reformas progressistas (considerando que são qualitativamente distintos) e todos sob interesses de megaproprietários nacionais e internacionais? Democracia implica equilíbrio de interesses, aquela ideia de igualdade geral. Se não tem isso, é democracia de quê que se defende? Democracia de elites políticas?

Governistas utilizaram muito bem o discurso remontando o golpe de 64, assim conseguem mobilizar o sentimento de um grupo progressista, alguns “revolucionários” da época, que viveram e lutaram contra a ditadura, um grupo que perdeu o elo com o cotidiano das classes sociais mais pobres a ponto de achar que tem algo para ser defendido. Este grupo tem sua própria condição de classe, que promove o distanciamento da realidade de quem não é considerado mão de obra qualificada. Esta condição de classe é o resultado das exaustivas horas diárias de trabalho, dos variados artigos e relatórios de produtividade, do ritmo da produção que se acirra na medida em que se “enxuga o setor público”, da própria precarização do trabalho. Esta classe intelectualizada e progressista exerce um poder na sociedade e possui experiências sociais muito distintas de quem se encontra na “base da pirâmide”. Se a igualdade social e econômica são um pressuposto formal, democracia ainda é uma ideia.

Estamos reféns mesmo desta conjuntura, quase ninguém sabe ao certo a melhor forma de agir, alguns olham para o passado, outros para o bolso, e a maioria olha para a TV: o jornal nacional vai apresentar o próximo capítulo da novela política.

A informação de massas é capaz de criar (ou de dar sentido a) um clima de tensão política generalizada. Tensão, os mais pobres já são os primeiros a sentir: três vizinhos são demitidos, a empresa que trabalha vai à falência (ou muda de nome), o custo de vida vai aos céus. O jornal coloca uns papeis com destaques em negrito, um tom de voz confortável e relaciona de maneira parcial (claro) uma série de argumentos – a crise econômica é culpa da crise política. Quando, em geral, o que acontece são crise econômicas gerando crises ou oportunidades políticas.V_mito

Está todo mundo agindo em torno de uma disputa política que passa ao largo dos interesses da chamada classe trabalhadora. A solução sempre foi fortalecer sindicatos e não pacificar. Não montar candidaturas, esperanças de representação. Se deve instigar a participação.

As possibilidades mais debatidas hoje giram em torno de: se novas eleições forem convocadas será que projeto neoliberal ganha? Com este impeachment conseguimos tirar o Temer? se a Dilma permanecer quais setores sofrerão mais cortes?

Em quais destes contextos a militância governista vai assumir um erro histórico que afastou a atuação dos movimentos sociais e dos sindicatos da base, uma tecnocracia que não buscou se diferenciar da política de cooptação da direita. A guinada à esquerda defendida por alguns intelectuais é possível ou a militância petista só está para defender seus próprios interesses de se manter no poder?

Só depois de uma – programática e muito bem debatida - guinada à esquerda que se pode falar em unidade da esquerda. Promessa não mobiliza mais ninguém, por isso que tem tanto documento provando os atos de corrupção.

Defender o Impeachment implicaria defender um governo igualmente “corrupto” e neoliberal, o PMDB; Defender cegamente o Governo do PT e a democracia burguesa é desconsiderar suas vítimas precarizadas, marginalizadas ou mortas; Defender Eleições Gerais só troca os neoliberais no poder. O Estado vem apresentando velhas e novas políticas “de cima para baixo”. Enquanto o que deviamos estar fazendo é nos organizando e buscando formas de decidir de “baixo para cima”.

É preciso uma maior organização enquanto classe e combater a burocracia dos sindicatos e outras instâncias que funcionam mediante representação. Fortalecer movimentos sociais e políticos, na cidade, no estado, no país. Articular o campo combativo para troca de experiências e avaliações, local e extra local. Como vimos, o sindicato cumpriu o papel de acomodação política, pacificação, o que desorganizou os interesses da classe trabalhadora. E as alternativas não podem ser apenas as da socialdemocracia (governista ou paragovernista) e conservadora, mais liberal ou mais estatista. A organização dos mais diversos setores mais oprimidos da sociedade em seus lugares de estudo, trabalho e moradia sem blindagem governista. Ou seja, é preciso retomar as táticas de enfrentamento que foram pacificadas, não distrair as energias e forças políticas em campanhas e 'trabalhos de base' eleitoreiros. Há muito a ser feito para nós ficarmos nos distraindo com o que a história mostra que é instável e passageiro. A construção e articulação de assembleias populares pode ser parte de uma forma de envolver a população num debate mais amplo e plural que o discurso nas mídias “de massas”.

Não estou dependendo de aprovações, posso dizer, tranquilamente, que em qualquer destas conjunturas continuarei atuando politicamente. Não sou do tipo que passa por cima de princípios para a defesa de um “bem maior” que nem eu, nem outras milhares de pessoas no mundo não vêem. Isso porque princípios não são apenas individuais, princípios são um acordo coletivo. Anti-capitalismo, anti-racismo, anti-fascismo e anti-sexismo, não tem valor nenhum que vá relativizar as bases destes princípios. O Estado mata para manter o status quo e pouco importa para mim quem está operando no momento. Os meus princípios são construídos no dia-a-dia, me organizando, não recuando, vivendo e lutando contra desigualdade social que me cabe e convivendo e lutando contra as desigualdades sociais vividas por outros grupos. Com isso quero dizer o 'caminho' certamente não é negar os efeitos da desigualdade política, econômica e social, o caminho deve ser construído coletivamente para que não se defenda o indefensável.

 Marcha

“Preso à minha classe e a algumas roupas, vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias, espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me? (...)”

“(...)Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse(...)”

“(...)Vomitar este tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado(...)”

“(...) Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.(...)”

“(...)Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.(...)”

Quando que iremos criar e permitir o nascimento de uma flor na rua, para furar o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio?