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Terra, Água e Mata

27 de Setembro de 2017, 0:00 , por Rodrigo Souto - 0sem comentários ainda | Ninguém está seguindo este artigo ainda.
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 Terra, Água e Mata
Quilombo Rio dos Macacos

Aproximávamos do Outono, às margens do rio a brisa era agradável e parecia carregar a esperança de dias melhores, a vara artesanal era mais que um instrumento de pesca, era a reivindicação da permanência, da manutenção da vida através de um modo de se relacionar com o meio a partir de outros valores, outros ritmos. Sobre o espelho d'água a luz refletia-se em três direções e parecia ali mesmo, naquele instante, apontar os horizontes essenciais da vida Quilombola: Terra, Água e Mata. Distraídos na vastidão do território, quase podíamos ouvir os tambores dos nossos ancestrais, a vida alimentando a vida, a força, o corpo do povo do Quilombo. Aos gritos de comemoração, ao som do riso fácil e do olhar convicto da luta, ouvimos: “Ninico pegou um peixe”. Bem Vindo ao Quilombo Rio dos Macacos!

Quilombo faixa

Localizados no município de Simões Filho-BA, os atuais moradores do Quilombo são descendentes dos povos negros que aqui foram escravizados como mão de obra para o trabalho, a partir do período colonial, no antigo Engenho Aratu, à época pertencente a Freguesia Nossa Senhora do Ó de Paripe. Ainda hoje, passados mais de um século da abolição dos grilhões da escravatura, os que hoje buscam manter suas tradições e seus hábitos de convivência com a terra, as águas e a floresta veem-se constantemente assediados e violentados pelos intermináveis embates travados com a Marinha do Brasil, os atuais senhores de engenho, agora camuflados sob novos uniformes. Acirram-se nos dias de hoje a guerra pela água, interesses distintos que conflitam divergentes racionalidades. Por um lado, o território como campo “estratégico” de defesa nacional, um espaço militarizado, por outro, a base material de re-existência, abrigo da vida de inúmeras famílias. Como denuncia Rosimeire:

“Hoje a gente está numa situação muito delicada, porque o Governo e a Marinha estão negociando com as nossas vidas, cercando o rio dos macacos, retirando toda água da comunidade.”

Desde a década de 1950, com a doação das terras do antigo Engenho para a Marinha do Brasil, que os quilombolas têm reivindicado a permanência no seu território. Como intrusa, a Marinha estabeleceu-se ali a partir da construção da Vila Militar e a posterior construção de uma barragem destinada ao abastecimento da Base Naval de Aratu, considerada por eles área de interesse estratégico nacional.

Quilombo levada do barco

Atribuindo outras “estratégias” e usos, o rio que dá nome a comunidade é fonte primordial de subsistência, ali historicamente mata-se a sede, banham-se os corpos, pesca-se a comida e praticam-se diferentes tradições religiosas. Ainda que constitua condição básica para a vida, os direitos das famílias ali localizadas continuam sendo desrespeitados, o cerco se fecha para os que ainda resistem naquele lugar.

“A marinha está sendo muito incisiva, o território foi delimitado com o RTID1 e desde essa época que a gente fala do uso compartilhado da barragem, desde a época dos nossos antepassados pra de usufruto geral”, conclui Rosimeire.

Contrários a uma lógica compartilhada de uso, a Marinha tenta impor, sobre as águas do Rio dos Macacos, as táticas mais diversas (e perversas) de controle, retirando assim o acesso básico dos moradores a um bem histórico. Como bem reflete Seu Raimundo, referindo-se a dimensão que o rio possui em sua vida: 

“Você vem aqui, faz uma terapia. Às vezes pega 10, 20 peixes no anzol e aí chega em casa né? Mas aí eles invadem, tomam na marra, tem o poder, tem a força e acham que eles podem fazer tudo. E além de fazerem isso, querem retaliar com as proibições. É o que eu digo, como pode, você chega num lugar, toma algo de alguém que já está e ainda impõe regras?”

Quilombo pesca e cachorro

O que se observa nesta realidade são extrativistas, pescadores e agricultores que veem brotar da terra suas fontes de riqueza, pois diferente do que geralmente se aceita, não são os bens que atribuem valores às práticas sociais, mas sim os diferentes saberes que no convívio com o meio, com os homens e mulheres na labuta diária atribuem valor ao patrimônio ancestral. Ao falar do processo de retirada do cupinzeiro para atrair os peixes até a isca, Seu William explica:

“É uma técnica que temos desde os nossos antepassados, pais, avós, tataravós,
nossa descendência mais antiga, a gente herda essa tradição e é viva nos dias de hoje.”

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Estamos assim a falar de um outro mundo, com práticas enraizadas num saber-fazer que no presente mostra a resistência dos antepassados. O aqui e agora carrega as memórias e atos de luta de uma história que ultrapassa o próprio tempo para fazer nascer no território novas resistências frente a antigas opressões.

“Eles tem a técnica deles, as táticas deles, e nós temos as nossas. Não vamos deixar de mão,
não vamos parar de lutar”, conclui convicto Seu William.

Experiências comunitárias como essas resgatam os embates travados em Palmares, o desejo de permanência na terra associa-se a própria identidade legada por pais, mães, irmãos e filhos ao longo do tempo. Cada um carrega nas lembranças e nas práticas os valores e experiências individuais e coletivas, encontrando nesse cruzamento suas identidades. Como afirma Rose.

Img 1402

“Minha mãe teve 17 filhos aqui dentro, já cansou de entrar em trabalho de parto num balaio de peixe, porque meu pai vinha pra o Rio dos Macacos pra pescar e colocar comida dentro de casa e ela fazer a moqueca e em seguida ela parir. Então assim, é um bem histórico pra nós, é de geração em geração e não tem como largar isso aqui.”

Do outro lado do rio, já em terras altas, preparando o terreno para o plantio, Dona Maria, uma das anciães do Quilombo, nos conta sobre a produção da vida no local:

Img 1372

“Se a gente sobrevive da terra, a gente tem que plantar tudo né? Tem que plantar. O que der deu,
o que não deu, paciência...Mas temos que lidar com tudo.”

É da roça que ela retira o amendoim, as ervas para tratamento medicinais, as folhas, sementes e raízes para a produção de xaropes caseiros, como as utilizadas partir dos arbustos do Fedegoso, as palhas do licuri para confecção de bolsas, os doces de banana, ou seja:

“A gente vive dessas coisas que fazemos na roça. É plantando e colhendo, a gente vende e a gente come”, conclui Dona Maria enquanto recupera fôlego pra continuar a empreitada de cuidado com a roça.

Entre as diferentes atividades que realiza, Seu William afirma:

“Eu planto aipim, milho, feijão de corda,o andu, amendoim, mandioca... Pra me ajudar e completar a minha renda também faço reciclagem.”

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Ao longo dos anos o território quilombola viu famílias divididas, grupos em marcha migrando para outros re-cantos, biodiversidade perdida, mas ao mesmo tempo, a convicção, por parte de cada um, de que as constantes batalhas impõem cada vez mais a urgência em se continuar lutando. Ainda hoje submetidos aos desmandos da Marinha, que controla até mesmo o acesso dos moradores aos seus lares, o Quilombo Rio dos Macacos demonstra que os conflitos alcançam cada vez mais o centro do debate público, expondo através das suas lutas as violações cometidas pelo Estado brasileiro sobre as comunidades tradicionais. Contra a imposição dos “modelos de desenvolvimento”, floresce a vida no chão de terra batida onde sangue não seca, onde o riso não se esconde, onde o corpo não esmorece, onde a solidariedade fortalece-se nos estar juntos.


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