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Chacina no Cabula

29 de Agosto de 2015, 19:04 , por Rodrigo Souto - 0sem comentários ainda | Ninguém está seguindo este artigo ainda.
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Veja como essa matéria saiu na versão impressa aqui no PDF.


 

Foram mais 12 meninos mortos na chacina do Cabula, e não podemos esperar do Estado e dos ricos nenhuma compaixão. Nesta primeira edição do "Colé de merma?", enquanto o Governador Rui Costa dizia as macabras palavras de que o policial era como um artilheiro em frente a um gol, demonstrando total desprezo com as vidas ceifadas no Cabula, fomos dar vozes às ruas, àqueles e àquelas que sentem no cotidiano o peso da repressão e do preconceito. Entrevistamos grafiteiros, poetas, produtores musicais e professores para tentarmos entender o que está por trás do assassinato destes jovens negros e como a rotina da violência policial em Salvador afeta a arte dos grafiteiros e poetas das periferias.

No dia 26 de fevereiro deste ano, a equipe do Café Preto compareceu na audiência pública sobre o genocídio no Cabula e as ações da RONDESP, e conseguimos em primeira mão uma entrevista com a professora Ametista Nunes. Quando perguntamos se há interesse real do Estado em resolver o genocídio contra o povo negro, a professora nos respondeu:

"Em hipótese alguma. Nós vivemos em um Estado eminentemente capitalista. Como nós sabemos, o projeto básico do capitalista é a luta do homem contra o próprio homem, ser humano. E estas leis são gestadas pelo capitalismo para proteger exatamente toda essa situação pública de um Estado, enquanto instituição, que não tem compromisso com a classe pobre, nem com os negros, nem com as mulheres." (Ametista Nunes)

Para entender melhor como pensava a população do Cabula, fomos encontrar no próprio bairro os artistas Zezé Olukemi e Dennissena. Sentamos em uma mesa de bar, numa rua tranquila do Cabula 1, e começamos a entrevista. Enquanto proseávamos sobre como a periferia é obrigada a conviver com essa violência todos os dias, o que acabou tornando este problema como algo “comum”, apesar de não menos importante para a comunidade, perguntamos aos dois:

Como é que essa chacina afetou o cotidiano local?

"Cara, a grande mudança que eu to vendo é que a comunidade tem tomado  atitude diante disso. No mesmo dia que teve a manifestação aqui (Cabula 1),eu entrei lá na E ngomadeira, eu tenho varias fotos aqui, e em todas as ruas tinham cartazes espalhados feitos a mão pela comunidade. Eles saíram com 10 a 15 faixas e todas as faixas penduradas na entrada da rua onde eles tinham falecido. Infelizmente, tinha um primo meu e nove co  nhecidos. E sendo que segundo as investigações somente dois tinham algum tipo de envolvimento, e nada justifica né? Afinal de contas, a gente dialoga do ponto de vista dos direitos humanos, o Artigo 5º da Constituição, que diz que todos nós temos direito à vida."

(Zezé Olukemi)

"Então, tá no dia a dia. Caiu no comum, né? Mas para mim não. Eu acredito na inclusão social. Eu acredito que todo jovem deve ter sua oportunidade. Mas só que nó s vivemos em um sistema em que a policia é o braço direito do governo. Para mim isso é genocídio, eles são genocidas. Já fui abordado duas vezes na Engomadeira de forma, assim, que mexeu muito comigo. Duas vezes... E na segunda, por exemplo, o cara me abordou, me encostou no carro, colocou a mão nos meus bolsos, na minha calça e disse: "Eu só tenho uma pergunta para você. Cadê a droga?". E eu respondi "mas eu não sou usuário". E ele falou "Hahaha, não é usuário... então está fazendo o que aqui?". E eu respondi "Cara, eu tenho amigos aqui". Então, assim, a repressão, e o constrangimento, sabe?" 

(Dennissena)

24h de grafite com Zezé Olukemi e outros grafiteiros na Ladeira da Preguiça.

Porque a morte preenche  também os muros do grafite? Os artistas não deveriam estar preocupados em pintar esperança para a periferia?

"Eu comecei a refletir, poxa, a gente tenta buscar o mundo lá fora, tenta buscar uma esperança lá fora com as pessoas que estão no poder e que dizem querer nos dar o poder. Mas eles sempre estão bo  tando uma burocracia a mais, sempre estão fechando mais uma porta. Então vamos fazer pela gente. Eu comecei a entender o mundo dos rapazes (da periferia). Eles precisavam ter uma forma de ganhar e a única forma que eles acharam era essa. Porque co  mo o "Racionais" fala "você vai correr atrás da realidade, mas qual a realidade? A que está mais próxima de você". É por isso que as vezes os meninos estouram a violência nas suas artes, porque é a realidade que está mais próxima da gente. Para que o outro jovem, o outro amigo, não venha a cair dessa forma também."

(Udison Santos)

"Esperança para mim nesse sentido ela soa como... e olha que eu sou poeta, ela soa com uma emotividade estranha, é muito sensível. Cai com uma emotividade que, do m  eu ponto de vista, ela estagna. Esperança, na minha cabeça agora cai como um esperar que as coisas aconteçam. Que as coisas melhorem. Ele tem fal  ado em ação, eu acredito na autogestão, eu acredito na sustentabilidade. E quem acredita na autogestão e na sustentabilidade, você tem que ter esperança pelo que você constrói. Se você não constrói e espera que aquele que te oprime construa melhorias para a sua vida, isso não é esperança, cara."

(Zezé Olukemi)

 

Grafite do artista Denissena em tela do Cabula.

Então para pensar a arte de resistência o mais importante é o artista saber para quem está falando. Os nossos grafiteiros falam para os jovens negros e negras da periferia, que são seus amigos, irmãos e irmãs. Mas contra toda resistência há uma retaliação por parte do Estado. Perguntamos:

Há uma perseguição policial aos grafiteiros, aos artistas de rua?

"Sim. Falo sempre em sabedoria. A sabedoria do grafite está em passar uma mensagem política e de resistência, mas de forma simbólica e subjetiva. Desse jeito, usando a linguagem e os símbolos certos, os símbolos da gente, a gente dialoga com o público específico que a gente quer, passa a nossa mensagem, para nossos vizinhos da comunidade, sem ser entendido direito por quem nos persegue. A gente precisa se comunicar, dialogar de forma engajada, mas também se proteger, né?"

(Denissena)

Pensando nos jovens negros, mandem uma mensagem para o nosso leitor. Colé de merma?

“O primeir  o manifesto é da alma, logo depois agir com sabedoria. Só haverá uma transfor  mação maior e eficaz quando o povo estiver politizado e lutar pelo seus direitos. Importante ir pra rua, dialogar e explorar as verdadeiras mídias. Lamen  tável aceitar_ que a juventude morra todos os dias. A maior arma é o con  hecimento. A arte por exemplo, transforma e revoluciona. Enquanto a educação não for prioridade,a opressão não terá fim.”

(Denissena)

“Bom o meu recado é o seguinte: tem aquilo de não desista de seus sonhos. Uma d as pessoas que usava aquela frase, o Marcos Garvei, 'o céu é o limite' e ele é o limite mesmo. Você pode fazer tudo o que você quiser. Então isso de o céu é o limite, para ser falado em 1914, 1915... Há muito pouco tempo antes a terra era quadrada. Então quer dizer que tem uma coisa aí que é infinita, né? Então pensar na arte nesse sentido, e a arte de resistência, a arte de incentivo à resistência, que é a arte que eu me proponho a fazer, é justamente essa. Não é a arte do acomode-se, não é  a arte do cale-se, é a arte do reaja. E aí reaja por todos os meios que te mantenha vivo e que mantenha a sua comunidade viva. Se for pelo meio educacional, vamos dialogar sobre educação. Se for pelo meio cultural , vamos dialogar sobre cultura. Se for pelo meio armado, vamos dialogar sobre isso? Vamos conversar ao menos sobre isso?”

(Zezé Olukemi)

Depois de segundos eternos de silêncio e reflexões, em meio a tantas pessoas de bem, jovens, adultos e idosos perambulando atentos e apreensivos em plena luz do dia no Cabula, encerramos nossas entrevistas com um único desejo em nossos corações:

 

 


 

Saiba Mais!

No dia 06 de fevereiro de 2015, 12 jovens da Vila Moisés, Cabula, foram mortos pela RONDESP, a tropa de operações especiais da Polícia Militar da Bahia. No relato da RONDESP está descrita uma suposta troca de tiros. A polícia alegou que foi necessário matá-los para garantir a segurança e a vida dos agentes da RONDESP, usando de um regulamento criado no período da Ditadura Militar para justificar o corrido como “resistência seguida de morte”, ou “auto de resistência”.

No dia 18 de maio de 2015, o Ministério Público da Bahia (MP-BA), após uma série de análises e de reivindicações de movimentos organizados, denunciou os nove policiais envolvidos na chacina, demonstrando que nos corpos das vítimas havia sinais de lesões típicas de quem tentou resistir a imobilizações. Segundo o MP-BA, os locais atingidos pela maioria dos tiros da RONDESP indicavam também que as vítimas estavam em posição inferior em relação ao atirador, evidenciando que os jovens estavam dominados e em posição de execução. Diversas testemunhas da Vila Moisés confirmam que os jovens foram torturados e executados. Foram contabilizados oitenta e oito tiros nos 12 corpos.

O comandante da ação foi o subtenente Júlio César Lopes Pitta, que já respondia processo judicial pela execução de cinco pessoas numa ação da polícia militar ocorrida em 2009. A versão do inquérito do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) da Polícia Civil, também instaurado no dia 18 de maio, nega as acusações do Ministério Público e nega o depoimento das testemunhas.

Em entrevistas da equipe do Café Preto, recebemos diversos relatos da presença ostensiva e violenta da RONDESP no bairro do Cabula após o dia da Chacina. Nas abordagens, a Polícia Militar, encapuzada e fortemente armada, pedia o silêncio da comunidade sobre o caso.

Todos os 12 jovens mortos eram negros e moradores locais. As vítimas tinham nomes: Caique Bastos dos Santos, 16 anos; Natanael de Jesus Costa, 17; Rodrigo Martins de Oliveira, 18; Tiago Gomes das Virgens, 19; Bruno Pires do Nascimento, 20; Agenor Vitalino dos Santos Neto, 20; Vitor Amorim de Araujo, 20; João Luis Pereira Rodrigues, 21; Adriano Souza Guimarães, 22; Jefferson Pereira dos Santos, 23; Evson Pereira dos Santos, 26; Ricardo vilas Boas Silva, 27. Apenas um possuía ocorrência policial por envolver-se numa briga nos carnavais de 2010 e 2011.

No Brasil, em cerca de 60% (Execuções Sumárias no Brasil, 1997-2003) dos casos de “auto de resistência” revisados são constatadas execuções sumárias, sendo a maioria de jovens de cerca de 20 anos, homens, negros e de bairros periféricos. Das polícias militares, a Bahia é um dos primeiros estados no ranking da que mais mata, sendo a RONDESP a maior envolvida em suspeitas de execuções ou desaparecimentos forçados. O caso ainda segue sem decisão judicial.


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