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Rio dos Macacos

Confira as fotos da visita do Café Preto ao quilombo!

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Colé de Merma?

29 de Agosto de 2015, 18:25 , por Rodrigo Souto - | Ninguém está seguindo este artigo ainda.

Terra, Água e Mata

6 dias, por Rodrigo Souto - 0sem comentários ainda

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 Terra, Água e Mata
Quilombo Rio dos Macacos

Aproximávamos do Outono, às margens do rio a brisa era agradável e parecia carregar a esperança de dias melhores, a vara artesanal era mais que um instrumento de pesca, era a reivindicação da permanência, da manutenção da vida através de um modo de se relacionar com o meio a partir de outros valores, outros ritmos. Sobre o espelho d'água a luz refletia-se em três direções e parecia ali mesmo, naquele instante, apontar os horizontes essenciais da vida Quilombola: Terra, Água e Mata. Distraídos na vastidão do território, quase podíamos ouvir os tambores dos nossos ancestrais, a vida alimentando a vida, a força, o corpo do povo do Quilombo. Aos gritos de comemoração, ao som do riso fácil e do olhar convicto da luta, ouvimos: “Ninico pegou um peixe”. Bem Vindo ao Quilombo Rio dos Macacos!

Quilombo faixa

Localizados no município de Simões Filho-BA, os atuais moradores do Quilombo são descendentes dos povos negros que aqui foram escravizados como mão de obra para o trabalho, a partir do período colonial, no antigo Engenho Aratu, à época pertencente a Freguesia Nossa Senhora do Ó de Paripe. Ainda hoje, passados mais de um século da abolição dos grilhões da escravatura, os que hoje buscam manter suas tradições e seus hábitos de convivência com a terra, as águas e a floresta veem-se constantemente assediados e violentados pelos intermináveis embates travados com a Marinha do Brasil, os atuais senhores de engenho, agora camuflados sob novos uniformes. Acirram-se nos dias de hoje a guerra pela água, interesses distintos que conflitam divergentes racionalidades. Por um lado, o território como campo “estratégico” de defesa nacional, um espaço militarizado, por outro, a base material de re-existência, abrigo da vida de inúmeras famílias. Como denuncia Rosimeire:

“Hoje a gente está numa situação muito delicada, porque o Governo e a Marinha estão negociando com as nossas vidas, cercando o rio dos macacos, retirando toda água da comunidade.”

Desde a década de 1950, com a doação das terras do antigo Engenho para a Marinha do Brasil, que os quilombolas têm reivindicado a permanência no seu território. Como intrusa, a Marinha estabeleceu-se ali a partir da construção da Vila Militar e a posterior construção de uma barragem destinada ao abastecimento da Base Naval de Aratu, considerada por eles área de interesse estratégico nacional.

Quilombo levada do barco

Atribuindo outras “estratégias” e usos, o rio que dá nome a comunidade é fonte primordial de subsistência, ali historicamente mata-se a sede, banham-se os corpos, pesca-se a comida e praticam-se diferentes tradições religiosas. Ainda que constitua condição básica para a vida, os direitos das famílias ali localizadas continuam sendo desrespeitados, o cerco se fecha para os que ainda resistem naquele lugar.

“A marinha está sendo muito incisiva, o território foi delimitado com o RTID1 e desde essa época que a gente fala do uso compartilhado da barragem, desde a época dos nossos antepassados pra de usufruto geral”, conclui Rosimeire.

Contrários a uma lógica compartilhada de uso, a Marinha tenta impor, sobre as águas do Rio dos Macacos, as táticas mais diversas (e perversas) de controle, retirando assim o acesso básico dos moradores a um bem histórico. Como bem reflete Seu Raimundo, referindo-se a dimensão que o rio possui em sua vida: 

“Você vem aqui, faz uma terapia. Às vezes pega 10, 20 peixes no anzol e aí chega em casa né? Mas aí eles invadem, tomam na marra, tem o poder, tem a força e acham que eles podem fazer tudo. E além de fazerem isso, querem retaliar com as proibições. É o que eu digo, como pode, você chega num lugar, toma algo de alguém que já está e ainda impõe regras?”

Quilombo pesca e cachorro

O que se observa nesta realidade são extrativistas, pescadores e agricultores que veem brotar da terra suas fontes de riqueza, pois diferente do que geralmente se aceita, não são os bens que atribuem valores às práticas sociais, mas sim os diferentes saberes que no convívio com o meio, com os homens e mulheres na labuta diária atribuem valor ao patrimônio ancestral. Ao falar do processo de retirada do cupinzeiro para atrair os peixes até a isca, Seu William explica:

“É uma técnica que temos desde os nossos antepassados, pais, avós, tataravós,
nossa descendência mais antiga, a gente herda essa tradição e é viva nos dias de hoje.”

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Estamos assim a falar de um outro mundo, com práticas enraizadas num saber-fazer que no presente mostra a resistência dos antepassados. O aqui e agora carrega as memórias e atos de luta de uma história que ultrapassa o próprio tempo para fazer nascer no território novas resistências frente a antigas opressões.

“Eles tem a técnica deles, as táticas deles, e nós temos as nossas. Não vamos deixar de mão,
não vamos parar de lutar”, conclui convicto Seu William.

Experiências comunitárias como essas resgatam os embates travados em Palmares, o desejo de permanência na terra associa-se a própria identidade legada por pais, mães, irmãos e filhos ao longo do tempo. Cada um carrega nas lembranças e nas práticas os valores e experiências individuais e coletivas, encontrando nesse cruzamento suas identidades. Como afirma Rose.

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“Minha mãe teve 17 filhos aqui dentro, já cansou de entrar em trabalho de parto num balaio de peixe, porque meu pai vinha pra o Rio dos Macacos pra pescar e colocar comida dentro de casa e ela fazer a moqueca e em seguida ela parir. Então assim, é um bem histórico pra nós, é de geração em geração e não tem como largar isso aqui.”

Do outro lado do rio, já em terras altas, preparando o terreno para o plantio, Dona Maria, uma das anciães do Quilombo, nos conta sobre a produção da vida no local:

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“Se a gente sobrevive da terra, a gente tem que plantar tudo né? Tem que plantar. O que der deu,
o que não deu, paciência...Mas temos que lidar com tudo.”

É da roça que ela retira o amendoim, as ervas para tratamento medicinais, as folhas, sementes e raízes para a produção de xaropes caseiros, como as utilizadas partir dos arbustos do Fedegoso, as palhas do licuri para confecção de bolsas, os doces de banana, ou seja:

“A gente vive dessas coisas que fazemos na roça. É plantando e colhendo, a gente vende e a gente come”, conclui Dona Maria enquanto recupera fôlego pra continuar a empreitada de cuidado com a roça.

Entre as diferentes atividades que realiza, Seu William afirma:

“Eu planto aipim, milho, feijão de corda,o andu, amendoim, mandioca... Pra me ajudar e completar a minha renda também faço reciclagem.”

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Ao longo dos anos o território quilombola viu famílias divididas, grupos em marcha migrando para outros re-cantos, biodiversidade perdida, mas ao mesmo tempo, a convicção, por parte de cada um, de que as constantes batalhas impõem cada vez mais a urgência em se continuar lutando. Ainda hoje submetidos aos desmandos da Marinha, que controla até mesmo o acesso dos moradores aos seus lares, o Quilombo Rio dos Macacos demonstra que os conflitos alcançam cada vez mais o centro do debate público, expondo através das suas lutas as violações cometidas pelo Estado brasileiro sobre as comunidades tradicionais. Contra a imposição dos “modelos de desenvolvimento”, floresce a vida no chão de terra batida onde sangue não seca, onde o riso não se esconde, onde o corpo não esmorece, onde a solidariedade fortalece-se nos estar juntos.


 Curtiu a matéria? Veja um pouquinho mais da vida no Quilombo Rio dos Macacos na Galerla de Fotos!



Quilombolas em Luta!

mais de 1 ano, por Rodrigo Souto - 0sem comentários ainda

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 Quilombolas em Luta!
Autogestão e Resistência no Recôncavo Baiano

Nesse nosso mundão nos deparamos todos os dias com uma diversidade de situações, de paisagens, de ideias e ações. No entanto, você já percebeu quantos obstáculos encontramos quando queremos discutir os problemas existentes no interior do nosso modo de vida?

Tentam nos convencer de que as roupas que vestimos, os sabores que consumimos e as relações que estabelecemos só seriam aceitáveis se estiverem de acordo com a forma "autorizada" pelo capitalismo. Mais uma forma de controle no seu projeto histórico de transformação de todo e qualquer atributo da vida em mercadoria, mera etiqueta de boutique.

Na contramão dessa prisão cotidiana, há comunidades e grupos tradicionais que se colocam no presente enquanto resistências e impedem o domínio supremo de um modo de vida pré-formatado através do resgate à sua ancestralidade e às relações sociais de outros tempos. Esta luta se realiza em diversas frentes e de forma cotidiana. Expressa um outro contato com a natureza e entre homens e mulheres. Representa a autodeterminação do como queremos, podemos e lutamos para ser e atender nossas necessidades, através do resgate de valores silenciados ao longo da historia.
Nesta edição reservamos este espaço para dialogar, conhecer e valorizar as práticas e saberes das Comunidades Quilombolas existentes no Recôncavo baiano. Comunidades marcadas por uma trajetória de luta contra os grandes proprietários fundiários, empreendimentos, bem como contra o próprio Estado.

Ainda assim, estas comunidades reafirmam seus saberes e apontam novas trilhas por onde podemos fortalecer novas caminhadas através da ajuda-mútua, da solidariedade e articulação. Na 7º edição da Festa da Ostra, o Café-Preto marcou presença na comunidade quilombola do Kaonge, pra saber, e aí, Colé de Merma?

 


 

AnaniasCafé Preto: Sobre a Festa da Ostra, vocês podem nos contar um pouco do histórico, o porque do surgimento e os objetivos?

Ananias Viana: A festa da Ostra foi uma invenção que veio pra continuar aquilo que os nossos ancestrais deixaram pra gente. Quando começamos a criar ostra, em cativeiro, veio um problema. E agora? A gente tá produzindo, mas vai vender aonde? A gente não tem comércio, como é que vai vender, vai ficar assim? Vai desestimular a criação de ostra? Aí veio uma discussão, a única coisa, pensamos, é a gente fazer um evento e colocar o nome de Ostra, Festa da Ostra. De início era feito na semana santa, porque todos os filhos das pessoas das comunidades que estão em outros estados vêm visitar suas famílias. Aí a gente disse, vamos fazer o evento dentro das Comunidades Quilombolas do Vale do Iguape, vamos dar visibilidade.

Jorlane: É um projeto bom, não é montado. É um projeto que visibiliza a coletividade na comunidade e a renda.

Jucilene: A importância está na divulgação dos nossos produtos, para que as pessoas conheçam o potencial produtivo das nossas comunidades.

Café Preto: Existe uma integração entre os núcleos produtivos para potencializar a visibilidade?

Jucilene: Sim, o núcleo de Turismo de Base Comunitária, por exemplo, consegue agregar todos os núcleos de produções dentro dos seus roteiros, como a apicultura, o artesanato, o azeite de dendê... Mesmo com todas as nossas problemáticas, tentamos encontrar as soluções para que os moradores não saiam das suas comunidades, que a gente consiga resistir aqui.


Rota da Liberdade
Rota da Liberdade

Café Preto: Existe todo um desenvolvimento que tem origem no saber ancestral, tradicional...

Ananias Viana: Sim, os quilombos existem diretamente nas margens dos manguezais, dentro das matas ou nas margens dos rios. Porque no rio tem os peixes, na mata tem a caça, e nos manguezais tem os mariscos e moluscos, aí eles (acenstrais quilombolas) puderam sobreviver disso. Começaram a inventar as tecnologias sociais. Aqui nessa região teve uma invenção muito importante para eles, a maçaquara... Era uma madeira que eles colocavam nas margens dos manguezais e aquilo ali criava ostras pra sobrevivência. Depois veio a camboa de pau, que é uma arte mais indígena com quilombola. Um formato de copo que tem duas pernas, que pega além do peixe, o camarão e a ostra, então você vê como eram as invenções deles, que deram certo. Várias pessoas, com isso, criaram suas famílias, conhecem as tecnologias sociais, isso foi muito importante aqui.

Café Preto: Existe articulação entre as comunidades quilombolas? Como ela se realiza?

Jorlane: A necessidade de um quilombo é de todos. Então tem que ter organização. Pra você se organizar é necessário que você faça uma política voltada para a economia solidária, voltada para renda, tipo o banco quilombola do Iguape.


Moeda_solidariaCafé Preto:
Você pode contar um pouco para gente sobre esse banco?
 

Jorlane: A gente trabalha com duas políticas de crédito, o consumo e a produção. A pessoa solicita o empréstimo, o valor máximo hoje é de R$ 300,00. Isso é cultura, isso é vontade, isso é querer que a comunidade, a renda, gire em torno dela. Essa moeda local não tem juros.

Café Preto: Em relação aos núcleos produtivos, como são as relações de trabalho, existem patrões e empregados?

Jorlane: Eu não sei nem como é que se escreve esse nome ‘patrão’e 'empregado', porque a gente não usa essas palavras aqui nas nossas comunidades. A gente usa: “Vamos fazer?”. O vamos vem na frente de tudo. Comunidade quilombola, comunidade organizada, não significa ser ignorante, tem que ter ética. A gente faz os nossos objetivos e constrói, a gente não aceita objetivo pronto de cima pra baixo, a gente constrói de baixo pra cima.

Jucilene: Os núcleos de produção trabalham no coletivo, na base da economia solidária. Tem grupos, como o cultivo de ostra, por exemplo, que é no coletivo, mas na divisão cada ostreicultor tem a sua produção, cada um vende seu produto e a divisão dos valores é individual. Já no núcleo de turismo, o valor é repartido igualmente entre todos no grupo, assim como acontece em outros núcleos, o único que tem esse diferencial mesmo, dos valores individuais, é o de ostreicultura.

 

Feira_de_artesanato7ª Edição da Feira das Ostras 

Café Preto: Quais os principais problemas enfrentados aqui?

Jucilene: Quando uma pessoa passa mal, ainda temos a dificuldade de chegar no hospital, não temos uma estrada adequada, várias pessoas já faleceram por falta de um socorro adequado. Não temos ambulância, liga e não consegue, a gente tem que pegar o único carro da comunidade, que é o da Rota da Liberdade que acaba virando ambulância. Ainda temos dificuldade na área de educação, acesso à escola, os jovens ainda andam muito até chegar até o ponto, porque o transporte não entra na comunidade, assim muitos desistem. São tantas as dificuldades dentro de uma comunidade quilombola que é difícil até nomear todas elas.

Café Preto: Existem problemas com o Estado e com os empreendimentos dessaa região?

Jorlane: Depois que essas ONG's, governo, estaleiro naval e a hidrelétrica de Pedra do Cavalo chegaram, diminuiu muito a nossa pesca. Estamos tendo problema na água, antigamente meus ancestrais pescavam tranquilos, não se coçavam, mariscavam, vinham de manhã, voltavam de tarde e não tinham problemas. Hoje você não consegue ficar meia hora na maré, porque a água começa a coçar. Está nos prejudicando. Esse estaleiro desgraçou com a população. Estão sumindo os mariscos, então por isso que as nossas comunidades trabalham no coletivo para formar os núcleos produtivos. Os meus ancestrais me ensinaram a lutar, por várias coisas, não por uma coisa só. Quem vive de uma coisa só, infelizmente fica atrasado no mundo.

Café Preto: para marcar o final dessa conversa, o que é ser quilombola pra você?

 

JorlaneJucilene

 

 

 

 

"Ser quilombola é meu amanhecer, meu entardecer, meu anoitecer. Meu dia-a-dia, a minha cor, a minha origem, a minha ancestralidade, minha cultura, meu coração e minha consciência. Porque se eu não tiver minha consciência, eu não sei o que são esses nomes que falei" - Jorlane

"É você assumir sua identidade, lutar por aquilo que você quer, é você ter resistência, o reconhecimento dos seus valores, ter o saber e o fazer a todo momento, daquilo que você se identifica, daquilo que você quer, daquilo que você caminha" - Jucilene

 


 
SOBRE AS PESSOAS ENTREVISTADAS (POR ELAS MESMAS)

Jorlane: quilombola do Kaonge, conselheira quilombola do Vale do Iguape, Conselheira da Reserva Extrativista Baía do Igupae, apicultora, ostreicultura, agente de crédito do banco solidário, percussionista e mais um montão de coisas.

Ananias Viana: liderança Quilombola da Bacia do Vale do Iguape.

Jucilene: quilombola da comunidade do Kaonge, professora, ostreicultora, apicultora, artesã e muito mais.

O quilombo: o Territorio Quilombola Kaonge situa-se no municipio de Cachoeira, no Reconcavo Baiano, e é formado pelas comunidades do Kaonge, Engenho da Ponte, Engenho da Praia, Dendê e Calembá.



Chacina no Cabula

aproximadamente 2 anos, por Rodrigo Souto - 0sem comentários ainda

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Foram mais 12 meninos mortos na chacina do Cabula, e não podemos esperar do Estado e dos ricos nenhuma compaixão. Nesta primeira edição do "Colé de merma?", enquanto o Governador Rui Costa dizia as macabras palavras de que o policial era como um artilheiro em frente a um gol, demonstrando total desprezo com as vidas ceifadas no Cabula, fomos dar vozes às ruas, àqueles e àquelas que sentem no cotidiano o peso da repressão e do preconceito. Entrevistamos grafiteiros, poetas, produtores musicais e professores para tentarmos entender o que está por trás do assassinato destes jovens negros e como a rotina da violência policial em Salvador afeta a arte dos grafiteiros e poetas das periferias.

No dia 26 de fevereiro deste ano, a equipe do Café Preto compareceu na audiência pública sobre o genocídio no Cabula e as ações da RONDESP, e conseguimos em primeira mão uma entrevista com a professora Ametista Nunes. Quando perguntamos se há interesse real do Estado em resolver o genocídio contra o povo negro, a professora nos respondeu:

"Em hipótese alguma. Nós vivemos em um Estado eminentemente capitalista. Como nós sabemos, o projeto básico do capitalista é a luta do homem contra o próprio homem, ser humano. E estas leis são gestadas pelo capitalismo para proteger exatamente toda essa situação pública de um Estado, enquanto instituição, que não tem compromisso com a classe pobre, nem com os negros, nem com as mulheres." (Ametista Nunes)

Para entender melhor como pensava a população do Cabula, fomos encontrar no próprio bairro os artistas Zezé Olukemi e Dennissena. Sentamos em uma mesa de bar, numa rua tranquila do Cabula 1, e começamos a entrevista. Enquanto proseávamos sobre como a periferia é obrigada a conviver com essa violência todos os dias, o que acabou tornando este problema como algo “comum”, apesar de não menos importante para a comunidade, perguntamos aos dois:

Como é que essa chacina afetou o cotidiano local?

"Cara, a grande mudança que eu to vendo é que a comunidade tem tomado  atitude diante disso. No mesmo dia que teve a manifestação aqui (Cabula 1),eu entrei lá na E ngomadeira, eu tenho varias fotos aqui, e em todas as ruas tinham cartazes espalhados feitos a mão pela comunidade. Eles saíram com 10 a 15 faixas e todas as faixas penduradas na entrada da rua onde eles tinham falecido. Infelizmente, tinha um primo meu e nove co  nhecidos. E sendo que segundo as investigações somente dois tinham algum tipo de envolvimento, e nada justifica né? Afinal de contas, a gente dialoga do ponto de vista dos direitos humanos, o Artigo 5º da Constituição, que diz que todos nós temos direito à vida."

(Zezé Olukemi)

"Então, tá no dia a dia. Caiu no comum, né? Mas para mim não. Eu acredito na inclusão social. Eu acredito que todo jovem deve ter sua oportunidade. Mas só que nó s vivemos em um sistema em que a policia é o braço direito do governo. Para mim isso é genocídio, eles são genocidas. Já fui abordado duas vezes na Engomadeira de forma, assim, que mexeu muito comigo. Duas vezes... E na segunda, por exemplo, o cara me abordou, me encostou no carro, colocou a mão nos meus bolsos, na minha calça e disse: "Eu só tenho uma pergunta para você. Cadê a droga?". E eu respondi "mas eu não sou usuário". E ele falou "Hahaha, não é usuário... então está fazendo o que aqui?". E eu respondi "Cara, eu tenho amigos aqui". Então, assim, a repressão, e o constrangimento, sabe?" 

(Dennissena)

24h de grafite com Zezé Olukemi e outros grafiteiros na Ladeira da Preguiça.

Porque a morte preenche  também os muros do grafite? Os artistas não deveriam estar preocupados em pintar esperança para a periferia?

"Eu comecei a refletir, poxa, a gente tenta buscar o mundo lá fora, tenta buscar uma esperança lá fora com as pessoas que estão no poder e que dizem querer nos dar o poder. Mas eles sempre estão bo  tando uma burocracia a mais, sempre estão fechando mais uma porta. Então vamos fazer pela gente. Eu comecei a entender o mundo dos rapazes (da periferia). Eles precisavam ter uma forma de ganhar e a única forma que eles acharam era essa. Porque co  mo o "Racionais" fala "você vai correr atrás da realidade, mas qual a realidade? A que está mais próxima de você". É por isso que as vezes os meninos estouram a violência nas suas artes, porque é a realidade que está mais próxima da gente. Para que o outro jovem, o outro amigo, não venha a cair dessa forma também."

(Udison Santos)

"Esperança para mim nesse sentido ela soa como... e olha que eu sou poeta, ela soa com uma emotividade estranha, é muito sensível. Cai com uma emotividade que, do m  eu ponto de vista, ela estagna. Esperança, na minha cabeça agora cai como um esperar que as coisas aconteçam. Que as coisas melhorem. Ele tem fal  ado em ação, eu acredito na autogestão, eu acredito na sustentabilidade. E quem acredita na autogestão e na sustentabilidade, você tem que ter esperança pelo que você constrói. Se você não constrói e espera que aquele que te oprime construa melhorias para a sua vida, isso não é esperança, cara."

(Zezé Olukemi)

 

Grafite do artista Denissena em tela do Cabula.

Então para pensar a arte de resistência o mais importante é o artista saber para quem está falando. Os nossos grafiteiros falam para os jovens negros e negras da periferia, que são seus amigos, irmãos e irmãs. Mas contra toda resistência há uma retaliação por parte do Estado. Perguntamos:

Há uma perseguição policial aos grafiteiros, aos artistas de rua?

"Sim. Falo sempre em sabedoria. A sabedoria do grafite está em passar uma mensagem política e de resistência, mas de forma simbólica e subjetiva. Desse jeito, usando a linguagem e os símbolos certos, os símbolos da gente, a gente dialoga com o público específico que a gente quer, passa a nossa mensagem, para nossos vizinhos da comunidade, sem ser entendido direito por quem nos persegue. A gente precisa se comunicar, dialogar de forma engajada, mas também se proteger, né?"

(Denissena)

Pensando nos jovens negros, mandem uma mensagem para o nosso leitor. Colé de merma?

“O primeir  o manifesto é da alma, logo depois agir com sabedoria. Só haverá uma transfor  mação maior e eficaz quando o povo estiver politizado e lutar pelo seus direitos. Importante ir pra rua, dialogar e explorar as verdadeiras mídias. Lamen  tável aceitar_ que a juventude morra todos os dias. A maior arma é o con  hecimento. A arte por exemplo, transforma e revoluciona. Enquanto a educação não for prioridade,a opressão não terá fim.”

(Denissena)

“Bom o meu recado é o seguinte: tem aquilo de não desista de seus sonhos. Uma d as pessoas que usava aquela frase, o Marcos Garvei, 'o céu é o limite' e ele é o limite mesmo. Você pode fazer tudo o que você quiser. Então isso de o céu é o limite, para ser falado em 1914, 1915... Há muito pouco tempo antes a terra era quadrada. Então quer dizer que tem uma coisa aí que é infinita, né? Então pensar na arte nesse sentido, e a arte de resistência, a arte de incentivo à resistência, que é a arte que eu me proponho a fazer, é justamente essa. Não é a arte do acomode-se, não é  a arte do cale-se, é a arte do reaja. E aí reaja por todos os meios que te mantenha vivo e que mantenha a sua comunidade viva. Se for pelo meio educacional, vamos dialogar sobre educação. Se for pelo meio cultural , vamos dialogar sobre cultura. Se for pelo meio armado, vamos dialogar sobre isso? Vamos conversar ao menos sobre isso?”

(Zezé Olukemi)

Depois de segundos eternos de silêncio e reflexões, em meio a tantas pessoas de bem, jovens, adultos e idosos perambulando atentos e apreensivos em plena luz do dia no Cabula, encerramos nossas entrevistas com um único desejo em nossos corações:

 

 


 

Saiba Mais!

No dia 06 de fevereiro de 2015, 12 jovens da Vila Moisés, Cabula, foram mortos pela RONDESP, a tropa de operações especiais da Polícia Militar da Bahia. No relato da RONDESP está descrita uma suposta troca de tiros. A polícia alegou que foi necessário matá-los para garantir a segurança e a vida dos agentes da RONDESP, usando de um regulamento criado no período da Ditadura Militar para justificar o corrido como “resistência seguida de morte”, ou “auto de resistência”.

No dia 18 de maio de 2015, o Ministério Público da Bahia (MP-BA), após uma série de análises e de reivindicações de movimentos organizados, denunciou os nove policiais envolvidos na chacina, demonstrando que nos corpos das vítimas havia sinais de lesões típicas de quem tentou resistir a imobilizações. Segundo o MP-BA, os locais atingidos pela maioria dos tiros da RONDESP indicavam também que as vítimas estavam em posição inferior em relação ao atirador, evidenciando que os jovens estavam dominados e em posição de execução. Diversas testemunhas da Vila Moisés confirmam que os jovens foram torturados e executados. Foram contabilizados oitenta e oito tiros nos 12 corpos.

O comandante da ação foi o subtenente Júlio César Lopes Pitta, que já respondia processo judicial pela execução de cinco pessoas numa ação da polícia militar ocorrida em 2009. A versão do inquérito do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) da Polícia Civil, também instaurado no dia 18 de maio, nega as acusações do Ministério Público e nega o depoimento das testemunhas.

Em entrevistas da equipe do Café Preto, recebemos diversos relatos da presença ostensiva e violenta da RONDESP no bairro do Cabula após o dia da Chacina. Nas abordagens, a Polícia Militar, encapuzada e fortemente armada, pedia o silêncio da comunidade sobre o caso.

Todos os 12 jovens mortos eram negros e moradores locais. As vítimas tinham nomes: Caique Bastos dos Santos, 16 anos; Natanael de Jesus Costa, 17; Rodrigo Martins de Oliveira, 18; Tiago Gomes das Virgens, 19; Bruno Pires do Nascimento, 20; Agenor Vitalino dos Santos Neto, 20; Vitor Amorim de Araujo, 20; João Luis Pereira Rodrigues, 21; Adriano Souza Guimarães, 22; Jefferson Pereira dos Santos, 23; Evson Pereira dos Santos, 26; Ricardo vilas Boas Silva, 27. Apenas um possuía ocorrência policial por envolver-se numa briga nos carnavais de 2010 e 2011.

No Brasil, em cerca de 60% (Execuções Sumárias no Brasil, 1997-2003) dos casos de “auto de resistência” revisados são constatadas execuções sumárias, sendo a maioria de jovens de cerca de 20 anos, homens, negros e de bairros periféricos. Das polícias militares, a Bahia é um dos primeiros estados no ranking da que mais mata, sendo a RONDESP a maior envolvida em suspeitas de execuções ou desaparecimentos forçados. O caso ainda segue sem decisão judicial.