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A Saideira

29 de Agosto de 2015, 18:26 , por Rodrigo Souto - | Ninguém está seguindo este artigo ainda.

Dois Enganos Sobre o Anarquismo

aproximadamente 4 horas, por anarcksattack - 0sem comentários ainda

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                        Dois enganos sobre o anarquismo   t tulo

  Por: Ricardo Líper

A liberdade não é dada, ela é
conquistada. Não é só fazer o
que se gosta, porque até
uma cama macia pode fazer
você ser escravo dela.

 

A palavra anarquismo sempre foi alvo de interpretações muito diversas. Na maioria das vezes, veio associada à ideia da ausência de ordem e da bagunça. Logo, os anarquistas seriam aqueles que eram contra todo tipo de ordem, moral, ética etc. Mas a realidade que vemos é outra. O que vemos é que o anarquismo e os anarquistas propõem o oposto disso. A bagunça, a desordem, a falta de respeito ao outro e, portanto, nenhum tipo de ética, tendem a ocorrer quando não existe o anarquismo e os anarquistas.Desorganização, sob a ilusão de organização pelo terror, foi o nazismo, fascismo, stalinismo e, atualmente, são as Coreias e outros países como o nosso. A organização da corrupção e da miséria. Se lermos os escritores anarquistas mais conhecidos como Bakunin, Kopotkin, Malatesta, Emma Goldman e muitos outros, o que vamos encontrar é uma defesa sistemática da liberdade. A rejeição de qualquer dominação, sob qualquer pretexto, do homem pelo homem. Para efetuar e garantir essa liberdade, aquele que é anarquista deve passar pela importante transformação de praticar uma ética pessoal rigorosa. A liberdade de si não é só não ser escravo de outro, é também não ser escravo de si mesmo. E o que é ser escravo de si mesmo?

 

Se lermos os escritores
anarquistas mais conhecidos
o que vamos encontrar é uma
defesa sistemática da
liberdade.

 

A liberdade não é dada, ela é conquistada. E para se conquistar a liberdade é necessário se autogerir. Não é só fazer o que se gosta, porque até uma cama macia pode fazer você ser escravo dela. O mais importante não é só não ser escravo dos outros, mas também não ser escravo de si mesmo. Pior ainda é ser escravo das coisas através de si. Esse aprofundamento do anarquismo é que forma de fato o anarquista. Ser anarquista é saber ser livre dos dominadores, da natureza (quando ela é hostil) e de si mesmo, para não cair nas armadilhas das coisas. Pode ser desde uma cama macia, uma preguiça momentânea e até ser dominado pelo açúcar, sal, álcool, alimentos etc. Não é só a natureza. O homem descobre e cria, também para explorar o outro, todo tipo de coisas que ficam conspirando a cada minuto para fisgá-lo, como peixes, para possuí-lo e dominá-lo.

 

 

                                                                                             Dois enganos  tirirnha

  

Por isso a autoeducação libertária sempre foi tão importante para os anarquistas. Aprender a autogerir-se sendo o mestre e chefe de si mesmo. Isto não é muito fácil nem muito agradável. Até o açúcar e o sal podem se tornar nossos senhores. Não precisa ser um Hitler ou Mussolini, podem ser meros condimentos de cozinha. E aí talvez você me diga, mas e os prazeres de viver? O supremo prazer de viver é exatamente ser livre em relação ao açúcar, o sal e todo tipo de coisa que invada você o escravizando. E não podemos mais nem comer sal e açúcar? Podemos, se os ingerir quando quiser e não sentir falta deles. Isso porque treinou e lutou, como luta contra as injustiças sociais e quem lhe domina. Por incrível que pareça, o que pode dar o maior prazer é quando você diz: eu me governo. E quem se governa em geral vence.

 

Devido a isto, o anarquista deve ser inicialmente auto em tudo, porque é ele que determina a partir da autodisciplina, autodidatismo, autocontrole emocional e estratégia nas suas ações, a sua autogestão. Não entendam errado. Autodidata não é não ir às escolas ou universidades. Autodidata é ter autodisciplina para estudar por si. As escolas não anarquistas são autoritárias e você sendo disciplinado, emocionalmente controlado e estratégico, as atravessa e adquire os diplomas. Mas se ficar só nelas, fica ignorante porque quase todas nada ensinam. O diploma é uma convenção como a carteira de identidade. O resto você vai aprender por você mesmo e nos espaços libertários como bibliotecas comunitárias ou centros de cultura.

 

Através da organização
social horizontal e livre de
relações de dominação, é
possível a vida em sociedade
de forma coletiva e
igualitária.

 

A filosofia foi, em grande parte, a busca dessa autodisciplina. A ideia de se controlar os medos e desejos de maneira que o estado de prazer seja estável e equilibrado, com um consequente estado de tranquilidade e de ausência de perturbação é uma teoria filosófica grega conhecida como Epicurismo. Já a ideia de que as emoções destrutivas resultam de erros de julgamento e, portanto, seria virtuoso manter uma vontade que está de acordo com a natureza é conhecida como o Estoicismo. O anarquista Han Hyner acreditava que a liberdade política anarquista levaria ao Estoicismo.

 

 

                                                                                                    Dois enganos   imagem

 

Como podemos ver, o anarquismo em sua passagem ao longo da história se mostra muito mais como uma ideologia centrada na defesa da liberdade coletiva e individual, do que na desordem e na bagunça. Através da organização social horizontal e livre de relações de dominação, é possível a vida em sociedade de forma coletiva e igualitária. Já através do autoconhecimento e da autogestão o individuo pode assumir controle da sua própria vida, se libertando das dominações externas e das que estão dentro de si mesmo.

 

 

                                          Dois enganos   indica  es

 

 

 



Da Cidade Desigual à Cidade de Todos

mais de 1 ano, por Rodrigo Souto - 33 comentários

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Da Cidade Desigual
à Cidade de Todos

Os bairros periféricos, localizados longe dos centros comerciais mais dinâmicos da cidade e marcados por carências e mazelas sociais as mais diversas, é formado por gente pobre, explorada e submetida cotidianamente a incontáveis desrespeitos. Infelizmente, ao longo dos anos a rotina perversa torna-se cenário e ação comum nas paisagens, esvazia nosso poder de luta, nossa consciência de classe e nosso potencial revolucionário.

No Brasil, fortalece cada dia mais uma "cultura de periferia", onde a exaltação da pobreza se alimenta dos pontos do ibope para entorpecer nosso cérebro e impor, através de uma publicidade cada vez mais abusiva, os gostos, as modas e os padrões que devemos consumir. No jornal, a periferia como barbárie, na novela como estilo de vida, a lógica muitas vezes sutil, quase sempre violenta de extrair riqueza dos grupos pobres de um lado, bem como difundir valores e anseios comprometidos com a classe rica de outro.

Se lutarmos por justiça social e por experiê ncias cotidianas de revolução, veremos que a periferia é sim espaço de fertilidade e possibilidades, não mercadoria de realização do lucro para os já beneficiados por esse sistema. Através do madeirite, da conversa na mesa do bar, do pé descalço que corre no chão dos nossos bairros podemos a cada dia nos reinventar.  Muitas vezes não damos a devida atenção aos mecanismos de solidariedade que realizamos: é a conta pendurada no mercadinho ao lado, a comunhão pra organizar e fazer uma feijoada, a disposição para bater uma laje com o vizinho, a presença em momentos de dificuldade, o agasalho que acolhe do frio e o torrão de açúcar que ameniza a amargura da vida vivida abusivamente. Se é tão comum experiências como estas de micro revoluções, o que nos impede de poder, por nós mesmos, ampliá-las?

Bazar_zeferina_beiru


Desde o dia que nascemos nos conduzem a acreditar que uma instituição “benfeitora” cuidará dos nossos interesses e organizará um mundo justo para todos. A burocracia, os conchavos, o acordo com os de cima e o pisoteamento dos que estão embaixo faz do Estado o grande empecilho para o nosso pleno desenvolvimento.

Precisamos reafirmar a potência em articular nossas comunidades, reunir e identificar nossos problemas comuns, encontrar soluções, fazer uso e valorizar o conhecimento daqueles e daquelas que nos nossos bairros contribuem para sua melhoria. O agir coletivo é necessário e possível, as associações locais precisam voltar a serem espaços de luta e resistência, espaços de proposição.

Podemos coletivamente construir uma quadra poliesportiva para os nossos? Podemos realizar um mutirão de construção e reforma de calçadas? Podemos coletivamente utilizar terrenos baldios para realizar a nossa cultura agrícola? Podemos sustentar um sistema de transporte de base comunitária? Podemos procurar motivos maiores para pensar naquilo que nos aproxima e que nos fornecerá desenvolvimento conjunto? Se você pensa que sim, então já temos o passo necessário para iniciar esta mudança.


Biblioteca_leitura
Para você não achar que o que estamos falando é pura conversa fiada, o Café Preto foi até o bairro do Arenoso, periferia de Salvador, conhecer a Biblioteca Comunitária Zeferina-Beirú, construída de forma independente com muita cooperação e ajuda mútua entre os próprios moradores e parceiros de outras comunidades. Chegamos bem no dia do bazar de inauguração da Biblioteca e, após darmos uma breve oficina de reportagem às crianças da comunidade, deixamos o microfone livre para que elas mesmas fizessem as entrevistas para o Jornal.

Confira o que Adriana, a nossa repórter mirim de 9 anos, produziu para o Café. Ao entrevistar Diego, integrante da Biblioteca, a jovem deu um show de jornalismo!

Adriana

 

Adriana: O que você gosta daqui da Biblioteca?

Diego: Gosto de tudo, principalmente de você quando você vem ficar aqui junto conosco e participa das nossas atividades.

Adriana: E o Beirú, foi o quê pra você?

Diego: Beirú? Não só Beirú, mas Zeferina entre outros negros que lutaram são referências para mim, porque graças a eles que nós hoje podemos estar aqui construindo um espaço como este, um espaço de educação, cultura e lazer dentro do bairro, né? Porque se eles não lutassem contra a opressão hoje certamente nós ainda estaríamos sendo escravizados, né?

Adriana: E se você fosse Beirú, você faria o quê?

Diego: Eu daria continuidade à luta, assim como nós estamos dando. Porque aqui tem vários Beirús, várias Zeferinas, várias Dandaras, várias Marias Felipa, que estão aqui lutando para que hoje você possa estar aqui, né isso? E você também está lutando junto conosco, né isso?

Adriana: É, aqui a gente tá fazendo isso... hoje a gente está fazendo um bazar para todos nós, né?

Diego: Sim, para ajudar no reparo do espaço e para também poder comprar algumas coisas pro espaço, pra poder fazer nossas oficinas, né? E para poder divulgar nosso trabalho também. Assim como tamo recebendo vários apoios, né? De várias pessoas de um bocado de bairros, assim como a galera do Café Preto, a galera do J ACA (Juventude Ativista de Cajazeiras), a galera do Prante que tá aqui colando, a galera tá aqui colando pra reforçar, pra fortalecer a nossa luta.

Biblioteca_grafite
        
E enquanto o camarada Marcos Paulo, integrante da Juventude Ativista de Cajazeiras (JACA), fazia um grafite na parede da Biblioteca sobre a história negra, a pequena Adriana o pegou de lata na mão!
        
Adriana: O que você acha da Biblioteca Comunitária Zeferina-Beirú?

Marcos Paulo: Eu acho a biblioteca muito massa, uma atividade de bastante atitude e responsabilidade com um valor enorme, porque esse é um tipo de ação que permite com que as pessoas tomem a força, que façam, que se eduquem elas mesmas, que administrem suas vidas, né? E que não fiquem pedindo para que o governo administre, então isso nos fortalece enquanto pessoas, né? Então eu acredito muito nisso! A gente precisa mesmo tomar as rédeas!

Adriana: Você gosta do Beiru?

Marcos Paulo: Gosto sim, me identifico muito. Beirú, favela, negritude, é nóis! 

Como se vê, a resistência existe e se faz presente no cotidiano da nossa gente, dos nossos sonhos, reafirmados a todo instante na prática que fertiliza nossas utopias hoje, amanhã e depois. Mas agora imagine a força de uma articulação conjunta e organizada para modificar as condições sociais dos nossos bairros e fazer de cada lugar o solo fértil de um mundo mais próspero. Se somos capazes de pensar, somos também de fazer, pois as experiências atuais e passadas nos provam isso. A resistência está viva! 

Em cada canto da cidade há uma associação de moradores, de bairro, há um movimento popular independente, uma cooperativa (leia “A Conquista do Pão”) que ainda tenta e consegue criar laços livres e solidários. É assim que começamos a construir outros valores e, ao mesmo tempo, nos afastar do projeto social de uso e descarte do povo pobre, tal como é feito nos nossos dias sob os moldes capitalistas.

Como aprendemos na Biblioteca Zeferina-Beirú, precisamos confiar em nossa capacidade de união e não esperar que o nosso futuro seja dado pelo governo. Precisamos urgentemente tomar as rédeas de nossas próprias vidas. Mãos à obra!



Café bom é café forte!

aproximadamente 2 anos, por Rodrigo Souto - 33 comentários

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Café preto. Forte, pelando e sem açúcar. Aquele que vai te fazer levantar, mesmo quebrado, para mais um dia de pauleira. Aquele que vai te esquentar quando o tempo fecha e você ainda tem que acordar às 5 horas. Aquele que vai segurar as pontas quando você tem que pegar hora extra no trampo. Aquele que vai te acordar mesmo depois de uma longa noite mal dormida.


E é como uma noite mal dormida que tem sido a vida dos baianos nessa terra bonita onde de tudo dá. O problema é que pelo jeito só tem dado para os que estão nos gabinetes, nas coberturas, nas novelas, nos camarotes e nas propagandas políticas. Se você não foi devidamente recepcionado ainda, seja bem-vindo à Bahia. Quarto estado mais populoso do Brasil. Condições terríveis de saneamento básico. Transporte cada vez mais caro, escasso e lotado. Escolas sem carteira e sem giz. Hospitais caindo aos pedaços. Falta trabalho, falta casa, falta alimento, em breve faltará água. Falta de tudo. A cena é triste e é uma cena que quem mora aqui infelizmente já se acostumou a ver. Ver na real, mas não na televisão ou no jornal. 


Nos meios de comunicação, a Bahia é sempre linda, meu rei! É tanta gente correndo, pulando, sorrindo e comendo acarajé que às vezes parece que as coisas aqui não estão tão ruins assim. É uma pena que a ilusão só dura até você colocar o pé para fora de casa (ou nem isso). Na falta de tanta coisa básica para uma vida digna, falta também vergonha na cara dessa mídia que não se dá minimamente o trabalho de esconder a sua postura opressiva e o seu papel alienador. Só se noticia a morte, a alegria, os direitos e os problemas dos que estão no poder. Só se defende o ponto de vista de quem está no poder. Só se debate os interesses de quem está no poder. Poder. É e sempre foi a palavra de ordem dela.
Vivemos em um novo estilo de censura instaurado. É censura por ofuscação. Eles não precisam mais te proibir de falar a verdade, eles simplesmente bombardeiam a verdade deles 1000 vezes mais alto, 24 por 7, usando de todo o seu controle das vias de comunicação. Você grita e esperneia o quanto pode, mas ninguém consegue te escutar. Para todo o lado que você corre, vai ter um outdoor, uma revista, um jornal, uma televisão, enfim; um tentáculo dessa grande mídia lhe dizendo o que fazer, no que acreditar e pra quem você tem que entregar seus direitos e sua força de trabalho. Já deu, parceiro! Chega de pão e circo. Até porque o pão nem sempre chega e o circo é de horrores.


O Café Preto é um jornal que vem para falar aquilo que todo mundo tá vendo, mas que a imprensa faz questão de fazer de conta que não existe. Um jornal pra dar voz àqueles que já ficaram roucos de gritar pro vazio. Um jornal pra informar as pessoas das coisas que estão acontecendo e realmente influenciando as suas vidas. Feito pra bater de frente com uma mídia elitizada, sensacionalista e manipuladora que a cada matéria idiotiza a população e enfraquece a nossa força de organização. Pra mostrar que a gente pode construir a nossa própria realidade sem depender da caridade deles. Pra dar destaque a quem vive esquecido da sociedade. Pra compartilhar ações e estratégias de fortalecimento das pessoas que deram certo em outros lugares. Pra relembrar ao povo baiano do sangue quente que corre nas suas veias e do seu espírito guerreiro que não abaixa a cabeça pra ninguém.


"Vamo acordar, vamo acordar. Porque o sol não espera". Não espera não, meu bróder. O bicho tá pegando pra todo lado, mas "eu sou mais você nessa guerra". E quando a força abalar e a fraqueza bater, seu bom e velho cafezinho preto você já sabe onde encontrar. Poder ao Povo!