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A Conquista do Pão

4 de Novembro de 2015, 0:26 , por Rodrigo Souto - | Ninguém está seguindo este artigo ainda.

Sobrevivendo Sem Patrões

mais de 1 ano, por Rodrigo Souto - 1Um comentário

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 Sobrevivendo Sem Patrões
Cooperação e solidariedade como modo de vida

Desde que nascemos, já chegamos ao mundo endividados. Não temos um lar para chamar de nosso, um trabalho garantido, ou um palmo de terra para plantarmos. Nascemos devendo a nós mesmos a conquista do pão, do teto, do prato de comida, tudo isto à base de muito trabalho, suor e economias. Mas se nascemos em dívida, estamos devendo a quem?

Primeiro, dizem que somos egoístas por natureza, competitivos e que o lema de nossas vidas deve ser “farinha pouca, meu pirão primeiro”. Depois nos fazem acreditar que precisamos atropelar os nossos semelhantes, ser mais bem sucedido. Fazem-nos acreditar que para trabalhar e produzir precisamos de um patrão, alguém que aperte nossa mente e viva de cara feia, pois senão tudo viraria uma bagunça, uma guerra de todos contra todos. Querem de alguma forma nos empurrar goela abaixo a sensação de que temos um defeito de fábrica, e que por mais que a gente tente trabalhar sem patrões, na base da solidariedade e da cooperação, jamais conseguiremos.

Com essa conversa fiada, somos facilmente escravizados, pois se acreditamos que precisamos de alguém para nos governar estaremos sempre procurando as ordens de alguém, domados como uma ovelha mansa que se submete ao seu dono para não se sentir perdida, sem saber que este dono, na verdade, só quer roubar sua carne, sua lã e sua vida. E então cada vez mais os patrões, empresários, políticos e banqueiros fazem a festa!

Eles roubam de nós os nossos direitos de termos uma moradia, alimentação, saúde, trabalho e lazer e depois se prestam ao papel de dizer que estão vendendo para nós tudo isso que um dia tiraram da gente à base da força, exploração e violência. E então, o que acontece depois?

Nesse jogo de cartas marcadas, quem sempre marca ponto são os bancos, os patrões, políticos, as empresas e o Estado. É por isto que já nascemos endividados, pois já nascemos sendo roubados. O pior ainda é que se você não tem dinheiro, eles não terão interesse em você, não consertarão a sua rua, não melhorarão sua saúde pública, jamais garantirão sua segurança e nunca darão aquele trato de verdade no transporte público do seu bairro. Não precisamos ir longe.

Compare como andam os bairros de periferia com os bairros da Barra, Ondina ou Pituba, por exemplo. Se você é de periferia, saiba que não lembrarão de você, a não ser quando precisarem do seu voto ou quando precisarem de alguém desesperado por um mísero salário para fazer o trabalho pesado de consertar as ruas da Pituba, fazer faxina e cuidar dos filhos das patroas da Barra ou limpar as ruas da Ondina durante o carnaval para gringo ver. E você então se pergunta: neste jogo, quando será ponto para nós?

Como fazer com que o nosso trabalho, o nosso suor, não alimente aquelas pessoas, empresas e instituições que nos exploram?
Pois é... para marcarmos este ponto, precisamos é sair deste jogo e criar nós mesmos as regras de nossas próprias vidas, nos organizando de forma igualitária com base numa economia solidária e consciente.

Acha isto difícil? Pois bem, o Café Preto, sempre atento às iniciativas cooperativas e solidárias, vem mostrar que este laço comunitário, esse apoio-mútuo, é uma cultura que existe e que não é difícil de encontrar, sem patrões para apertar a mente, sem bancos roubando nossos recursos, políticos nos enganando com promessas eleitorais e do governo sugando a nossa alma, pondo nossa vida em dívida.

A equipe do Café Preto entrevistou João Paulo, integrante da Cooperativa Rango Vegan, um restaurante de comida 100% vegetariana vinculada a uma filosofia de libertação das pessoas e dos animais, localizado na Rua do Passo, no Pelourinho, para saber um pouco mais sobre esta forma solidária de trabalhar. Vejam o que rolou!Rv1Café Preto: O que é uma cooperativa? Como ela se organiza e funciona?

João Paulo: Cooperativa é uma associação de pessoas que se organizam de forma democrática, para um fim lucrativo, sem patrão ou líder, onde os cooperados tomam as decisões democraticamente ou em consenso, respeitando as decisões e ideias dos indivíduos. Onde o trabalho e o lucro obtido são divididos igualitariamente, ou em acordos pré-estabelecidos entre os cooperados.

Café Preto: Qual a diferença entre trabalhar em cooperativa e trabalhar como empregado de alguém?

Rv3
João Paulo: Ser cooperado é ter autonomia sobre seu trabalho, sobre suas decisões e consequências. É ser parte da sua produção e do seu lucro, sem ter a pressão de um emprego formal, com normas de vestimentas rígidas, horários e metas estabelecidas, muitas vezes sem negociação, serviços impostos, independente das condições de trabalho e de saúde dos funcionários. Lembrando que mesmo em cooperativa, temos muito trabalho e metas a cumprir, sendo diferente do emprego com patrão, por ser organizado de forma horizontal ou em acordo, e não imposta.

Café Preto: Como o aprendizado do trabalho em cooperativa mudou a sua vida pessoal?

João Paulo: Por ter ideias anarquistas e libertárias, a forma de organização cooperada, serviu e serve de laboratório, para por em prática o que aprendemos em teoria. Procuro levar pra outros projetos de vida a mesma forma de organização e práticas, tendo em vista que, o trabalho cooperativado é ligado a muitas questões éticas, que faz com que a prática do trabalho em cooperativa se torne mais parte do seu cotidiano e vice versa.

Café Preto: Acha que as cooperativas possuem um papel importante na construção de uma outra sociedade?

João Paulo: Com certeza! O trabalho cooperativado é uma forma de organização totalmente diferente do modelo imposto pelo capitalismo. Por mais que uma cooperativa tenha fins lucrativos, ela se organiza e funciona de maneira igualitária e justa, onde o produtor é dono do que produz, tendo autonomia de escolhas, direitos e deveres. Mas sempre sendo responsável direto sobre suas ações, tornando o trabalho mais justo e ético para todos, tendo autonomia sobre seu tempo e sua vida.

Mesmo diante de todos os problemas que vivemos, da exploração que é o nosso trabalho, do pobre salário que ganhamos, da batalha que é sustentar uma família, essas cooperativas solidárias podem ser um caminho para se pensar em outra forma de viver, de trabalhar e de se organizar. Já deu uma olhadinha na coluna "Colé de merma"? A solidariedade esté por todas as partes!

Já pensou? Trabalhar em clima de igualdade e autoestima, de uma forma mais justa e sem patrões enchendo o nosso saco? Tome um café e reflita sobre o assunto!

 

Joaozinho

João Paulo é vegano, integrante da Cooperativa Rango Vegan e baterista da  banda Culinária Guerrilha!

Veganismo 

O QUE É O VEGANISMO?

O veganismo é a defesa do direito à vida livre para todos os seres vivos e o compromisso individual de combater toda forma de dominação que impeça este direito. Esse combate pode vir na forma de boicote ao consumo de produtos originários de exploração e assassinato de animais (como carne, ovos, leite, peles etc.), disseminação de informação sobre, ação direta na libertação de animais aprisionados, construção de cadeias de produção alternativas e isentas de exploração, dentre outras formas. Ser vegano é assumir a sua responsabilidade nessa exploração e travar uma luta cotidiana pela a libertação de todos os seres vivos.



O sindicato somos nós!

aproximadamente 2 anos, por Rodrigo Souto - 0sem comentários ainda

Veja como essa matéria saiu na versão impressa aqui no PDF


Não, o sindicato não significa apenas um desconto anual no seu contra cheque ou não é apenas o lugar onde você deve ir homologar quando amarram sua lata, isto é, quando você é demitido. O sindicato não é só um diretor sindical, que está sentado em uma mesa há 30 anos, decidindo quais são suas reivindicações sem ao menos consultar você e às suas companheiras e companheiros de trabalho. O sindicato não se resume a este diretor que aperta a mão do patrão quando lhe é conveniente ou que lhe diz que fazer greve é muito complicado. Então, o que seria esse tal sindicato? E eu lhes respondo: o sindicato somos nós!

O sindicato é a principal arma de defesa do trabalhador contra a exploração do patrão.  Ao longo do tempo, a classe trabalhadora construiu importantes organizações de luta. Primeiro, surgiram às caixas de ajuda mútua nos séculos 18 e 19, que tinham por finalidade fomentar obras assistenciais de ajuda financeira entre trabalhadores, nos problemas de saúde, acidentes, dentre outros. Estas foram às primeiras formas de organização da classe trabalhadora. E foi a partir destas Caixas, começaram a surgir os primeiros sindicatos.
 
O objetivo dos sindicatos é preserva  r as conquistas obtidas pela união das trabalhadoras e dos trabalhadores e organizar a luta para outras vitórias. Devemos entender que não existe sindicato sem os trabalhadores. Um sindicato forte significa trabalhadores unidos, um sindicato combativo, significa que a união dos trabalhadores está se fazendo ser ouvida, independente de diretores oportunistas que estão sempre atrelados a interesses políticos distantes de nossas posições enquanto trabalhadores. Para ilustrar isso de maneira mais concreta, em maio de 2014 durante a greve dos rodoviários, que parou Salvador por alguns dias, a direção do sindicato dos rodoviários sentou para negociar como os patrões, e fechou um acordo péssimo para a categoria, sem quase nenhum ganho efetivo para a classe. Além disto, ainda de maneira totalmente arbitraria, o sindicato desrespeitou o que em assembleia foi pedido pelos trabalhadores. A base dos rodoviários revoltada com essa atitude, de maneira legítima, resolve passar por cima do que foi dito pela direção e decreta greve, optando em continuar pressionando as empresa e lutando por um acordo que atendessem de forma mais real suas urgência.

Esta revolta dos trabalhadores rodoviários mostra que há uma nova disposição para as lutas. Em Salvador, como em outras cidades, os trabalhadores se mostram capazes de organizar suas próprias lutas para além das burocracias sindicais. E se somos capazes de organizar a nossa própria luta, também seremos capazes de organizar todo o sistema produtivo.

A organização livre dos trabalhadores sempre foi algo temido. Por isso, visando engessar a combatividade dos sindicatos livres, o Estado, no início do século 20, sentiu a necessidade de criar uma legislação que subordinasse as lutas dos trabalhadores aos regulamentos do governo. E então, ao passo que os sindicatos começavam a ser regulamentados, começava também o agravamento da sua burocracia e hierarquização, surgindo então uma casta privilegiada de líderes e dirigentes que parasitam até hoje as organizações sindicais em seu próprio benefício, e usam a estrutura desses sindicatos para defender e promover seus partidos políticos, e transformando as bases sindicais em verdadeiros currais eleitorais. Esta classe, teoricamente utiliza uma linguagem de reivindicações, de defesa da classe trabalhadora, mas ficam apenas no discurso, pois na pratica não organizam a categoria e não encaminham as lutas consequentes. Quando encaminham, são por meros interesses eleitoreiros, ou por serem pautas ligadas ao alinhamento com seus partidos políticos, esquecendo totalmente as nossas urgências e as nossas pautas de reivindicações.

Isso só mostra como não podemos esperar nada das direções sindicais atrasadas e seus dirigentes oportunistas, sempre atrelados aos patrões e aos políticos! Precisamos reconstruir uma alternativa sindical autônoma, que expulse, pela força da união dos trabalhadores, os pelegos dos sindicatos e acabe com a estrutura que atrela o sindicato ao governo! Precisamos defender um sindicalismo de base, onde o sindicato é resultado das decisões do conjunto da categoria e não de burocratas que estão totalmente descolados de nossa realidade e que não estão nem um pouco preocupados com nossas melhorias de condições de trabalhos. Devemos tomar o protagonismo de nossas lutas, pois é pelo acumulo de nossas forças e pelo poder de nossas mobilizações que podemos enfrentar os patrões, e seus jogos de poder, inclusive as injustas decisões judiciais a serviço deles e do governo. É pela nossa força coletiva que podemos alcançar as vitorias que almejamos. Não podemos perder nosso desejo de mudança! Que cada luta, cada piquete, cada greve, com suas derrotas e suas vitorias, possam fortalecer a ideia que um mundo novo é possível. Um mundo onde o suor de nossa testa não banque a festa dos ricos, onde nosso grito abafado finalmente ecoe como rugido estrondoso de liberdade.